MEC versus Mc

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Caloan Walker · Salvador, BA
6/9/2014 · 1 · 0
 

Tinha o peso do mundo em suas mãos, impresso numa folha de papel fresco, mas não por frescor e sim por frescura: era um Certificado, com inicial maiúscula, lustrado por alguma Universidade Federal. Paula estava, enfim, Licenciada para dar aulas.

De punho cerrado sobre o peito, com os músculos ao redor dos olhos e dos lábios tremendo, sentia vontade de beijar, em agradecimento, a face de todas as divindades que conhecia, do menor duende a Zeus. Possuía o selo de qualidade de uma federal estampado na testa - há quem chame de pedantismo colateral, há quem chame de mérito, há quem chame de cota e há, claro, os mais benevolentes que vejam nas rugas de todos nada mais que esforço.

Não deu chance às horas, e o dia não iria nascer para começar a julgá-la e chamá-la de preguiçosa; já caçava empregos. Não fazia distinções. Precisava pagar as contas logo. Como todos aqueles que não tiveram suas vergonhas prateadas pelo pó lunar ao nascer, nem têm parentada importante. Devia moralmente pagar as contas e aceitaria qualquer tipo de oportunidade: podia ser baixinha, careca, sem dentes, morbidamente obesa ou anoréxica, não importava nem o número; bastaria que lhe pagassem direito pela hora que ela prometia fazer sua mágica.

Paula estava Licenciada, id est, aberta a Licitação. Se no mercado de trabalho até os Mestres iniciantes devem esperar nas esquinas, Paula só esperava que as oportunidades que passassem direto não fizessem respingar nela os graduados empoçados na sarjeta. Felizmente, deu a sorte de chamar a atenção de um empresário rico, que prometeu tirá-la dali e dar-lhe estabilidade financeira.

Chegando na McUniversidade Amex Vaspúcio, sua pressão baixava gradativamente, seus pés ficavam reticentes, seus joelhos gaguejavam, sua saia lápis recém-adquirida produziu um arrepio que foi da bainha subindo até a nuca. Sabia o que a aguardava para além daquelas paredes: a nobreza. Ensinaria à realeza.

Ouvira relatos terríveis de colegas mais experientes que desejavam ter os poderes de Charlize Theron como a maligna Ravenna, para pegar cada aluno miserável e desinteressado pelo pescoço e forçá-los por mágica a devolver-lhes toda a juventude roubada. Cada semana subtraiam-lhes no mínimo dois anos de vida.

Tremeu em vão. O empresário tinha garantido que aquela era uma instituição revolucionária, mas qual não é? A pobre, juntando o máximo de otimismo, só conseguiu imaginar que ele poderia ter, sabe-se lá, jogado fora todas as máquinas de café e montado uma cozinha no estacionamento onde os alunos aprenderiam a fazer o próprio café. Mais uma vista grossa à procrastinação estudantil.

Não havia professores, nem sala de aula. Antes que se pense num ambiente idílico, libertário, esclareça-se: vá lá, encontravam-se professores, sim, contudo só em tese. A primeira faculdade completamente honesta do Brasil não mentiu em seu slogan. Paula logo fora apresentada à farda: mantinha sua própria saia, mas trocaria camisa de manga e blazer por uma camisa preta. Atrás se lia "PRODUÇÃO"; abaixo, em parênteses, em fonte menor, lia-se "DE CONHECIMENTO".

Não se podia negar que Paula tinha acesso a tudo e que dispunha de excelente material para realizar seu trabalho. Em pouco tempo, já se acostumara a conduzir cada turma para o palco superiluminado, onde os quatro reitores/sócios decidiam quais tinham star quality para passar direto para a próxima rodada e quais teriam de passar por provas finais, repescagem, par-ou-ímpar, sem mencionar make-overs.

A cada semestre que se passava, cerca de 30 candidatos venciam o The Diploma Factor(y), ganhando fama entre amigos e família, prontos para ensaios fotográficos que ficarão na memória. Do iPhone. Revistos sempre nos momentos de tédio, por alguns, enquanto tentam fazer a escalada do meio-fio. Já as contas, estas foram pagas. Paula franzia a boca em formato de sorriso e dizia a seus pares: "Vou investir em EAD", rindo inconscientemente, pois ninguém sabia que era sua própria sigla para Entorpecentes e Anti-Depressivos.

Sobre a obra

Conto publicado online, em perfil do autor no Facebook, em 15/10/2013.

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Autoria
Caloan Guajardo
Ficha técnica
Conto publicado online, em perfil do autor no Facebook, em 15/10/2013.
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