O chamado [conto]

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Eder Capobianco · Assis, SP
15/9/2017 · 1 · 0
 

Um ser humano qualquer, pode ser em qualquer lugar, em qualquer hora, ele abre uma gaveta e, inesperadamente, encontra uma arma, e pega ela.
É pesada.
Gelada.
A sensação é o que pode se chamar de empoderamento.
“Heavy is good, heavy is reliable.”
Então ele sente que pode solucionar todos os problemas da humanidade.
Fazer justiça.
Este ser humano qualquer, nosso personagem, coloca a arma na cintura e sai para rua como o guardião da paz e do certo.
O guardião da paz e do certo precisa estar armado porque alguém pode atentar contra a paz e o certo, e ele tem que estar pronto para as defendê-las, responder a altura.
Defender a paz e o certo com sangue, suor, lágrimas e balas se for preciso.
“They pull a knife, you pull a gun. He sends one of yours to the hospital, you send one of his to the morgue.”
Vamos dar um nome para este ser humano.
Valéria.
Nosso ser humano personagem é uma mulher.
Agora ele tem nome e gênero, é ela.
Com uma arma na cintura, pronta para defender a paz e o certo com unhas, dentes e balas.
Cansada de ver as ruas do mundo real dominadas por marginais que se aproveitam da fragilidade de pessoas honestas.
Roubam, matam e estupram.
Todo dia.
“Here is a man who would not take it anymore.”
Ela está lá.
No centro de São Paulo em pleno Séc. XXI, procurando Al Capone nas redondezas da Barão de Itapetininga.
Putas, travestis, traficantes, gigolôs, maconheiros, bêbados, viciados, vagabundos, todos estão envolvidos com Al Capone ameaçando a paz e o certo.
No mundo real os bandidos de Al Capone estão nas ruas e as famílias trancadas em suas casas.
Não está certo.
Cabeças vão rolar.
“Nobody's innocent in this shit.”
Porque se cabeças não rolam não existe justiça.
Justiça tem que ser feita pelo povo e para povo.
E ela está lá.
Pelo povo e para o povo.
Para fazer a vontade do povo.
Com as próprias mãos.
Ela não tem nada, só o primeiro nome, Valéria, e uma arma.
Uma pessoa qualquer, em uma hora qualquer, com uma arma na mão.
Disposta a fazer o que for preciso contra quem for preciso.
Ela é o povo.

***

Ali está a tão esperada.
A oportunidade de exercer todo poder incubido a ela por uma força superior.
“As long as you are going to be thinking anyway, think big.”
A chance de fazer justiça pelo povo e acabar com um dos maiores problemas da sociedade ocidental moderna e de todos os tempos.
O criminoso.
A criminalidade.
Assumir a responsabilidade de dar a resposta.
Mostrar a verdade.
Lutar a guerra.
Ser a mão pesada e imperdoável do carrasco.
Desmascarar o malvado ladrão e lhe dar a devida punição.
Doa a quem doer.
No mundo real um punguista surrupiou a carteira da bolsa de uma velha Senhora que andava calmamente entre as lojas vendo as vitrines do centro da cidade.
Uma Senhora inocente que teve sua bolsa violada e sua carteira, com documento, dinheiro e tudo mais, subtraída sordidamente por um ladrão sem arrependimento ou remorso.
Meticulosamente ele cortou o couro da distinta bolsa branca que a Senhora carregava e retirou a carteira e mais alguns pertences.
E ela nem percebeu.
Ninguém percebeu.
Pobre Senhora.
Punguista vagabundo tem que ser punido de forma inquestionavelmente exemplar.
Dura.
Para servir de exemplo para quem quer que seja que se atreva a pensar em roubar uma inocente e desprotegida Senhora que olha vitrines tranquilamente num dia de sol no centro da cidade.
Sem perceber que está sendo vigiado pela justiça o punguista tenta sair sorrateiramente.
Mas ela está lá, à espreita.
A justiça.
Encarnada em Valéria.
Um ser humano qualquer, com uma arma na mão e pronta para atender o chamado.
“And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger those who attempt to poison and destroy My brothers.”

***

Valéria atirou.
Sem vacilar.
Com cara de raiva, gritos de ódio e a certeza de que estava ali exercendo a força divina e implacável do certo.
Descarregando toda raiva contra a escória de Chicago e desferindo um golpe fatal na organização criminosa que assola os homens e mulheres de bem.
Exercendo o direito que qualquer ser humano tem de defender os valores de uma sociedade livre e justa.
“For God and country, Geronimo, Geronimo, Geronimo!”
Nossa personagem travestida de povo e empunhando a justiça pegou o punguista desprevenido e abriu um buraco para vermes no meio da cabeça dele.
Por trás.
A queima roupa.
Sem dar a menor chance ao meliante.
Se encostou na parede e ficou esperando ele passar, e quando ele passou ergueu o braço com a arma na mão e sentou o dedo mirando direto no osso interparietal.
O bem havia vencido e a paz havia sido restabelecida e garantida.
A grande batalha tinha terminado.
O dito cujo se desmanchou no chão sem nem saber da onde veio o tiro.
Voou sangue e miolo para todo lado.
Na cara de Valéria, na roupa de Valéria, na Valéria inteira.
O que todo mundo viu foi uma mulher magra, de meia idade, toda ensanguentada com uma arma na mão e cara de assustada.
Com o braço travado em 90° e o cano fumegante.
O povo estava pasmo, sem reação.
Valéria começou a tremer.
Exasperadamente tentou limpar aquela sujeira da roupa, depois do rosto.
Mas os miolos se espalhavam e se impreganavam no pano e na carne.
Ela olhou a arma toda suja de cabeça de punguista e soltou o peso da justiça.
A arma caiu no chão.
A pressão baixou, e a visão foi se desfocando cada vez mais até que Valéria desmaiou.

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