O mal-estar da complexidade

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Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS
14/8/2011 · 1 · 0
 

Para Lévi-strauss a proibição do incesto funda a cultura, ou seja, o ordenamento do mundo social que confere significação à realidade, sem o qual esta se tornaria ininteligível. Por outro, temos as afirmações de Gabriel Tarde de que, o mundo é constituído muito mais pelo caos e desordem, do que pela ordem.

Se pensarmos o intervalo entre um conjunto ordenado e outro engendrado por outro tipo de ordem (as classificações e suas variáveis), sendo o intervalo a desordem, ou seja: ordem, desordem, ordem de outro tipo; percebemos que o que predomina é sempre o singular, a diferença. Porque ordenamentos ou sistemas de classificação de diferentes ordens são singulares uns em relação aos outros.

Os indivíduos, entretanto, sempre almejam a homogeneidade, buscam leis universais de explicação dos fenômenos. No que diz respeito ao mundo social, esta homogeneidade torna inteligível e dá segurança, pois como nos lembra o já anteriormente mencionado Lévi-strauss: somos seres ordenadores e qualquer ordem é preferível ao caos.

Daí a aparência confortável de um verdadeiro lar conferida à realidade através da cultura. A “realidade mesma”, se é que podemos assim chamá-la, é algo inefável, tornada habitável pela cultura, pelos significados conferidos através dos processos sociais, nem sempre pacíficos, que encobrem a desordem, o vazio de um sentido ontológico.

Arrumamos a casa para podermos nela morar, mas não nos damos conta que fomos nós mesmos que a arrumamos e assim como os móveis foram dispostos de uma determinada maneira, poderiam ter sido arrumados de uma forma totalmente diversa.

Heidegger nos apresenta como ninguém este jogo de encobrimento-desvelamento da realidade, que é como em um cubo mágico (metáfora minha): o movimento de uma de suas peças modifica totalmente a disposição de todas as outras, raramente conseguimos visualizar a totalidade de suas faces de maneira organizada (que revelaria que a ordem é a desordem), apenas alguns poucos habilidosos talvez consigam. Ao mesmo tempo somos subsumidos por esta totalidade por nós mesmos criada, que é apenas um fragmento de muitas possíveis. Para Heidegger (exponho suas idéias de uma maneira simplificada é claro) este vazio se mostraria na angústia, quando estamos entediados com tudo e algo nos aperta o peito sem sabermos o porquê, é como se o chão nos fugisse e nada tivesse graça ou fizesse sentido. Neste momento – segundo ele – tocamos a realidade efemeramente, para logo em seguida a perdermos.

Talvez nunca tenhamos tido maior contato com tal fragmentação da realidade do que na atualidade. O choque é inevitável! Os conflitos que vivenciamos tendem a se tornar mais frequentes e violentos.

A cultura (que são culturas) que tornou o mundo um lugar confortável – pelo menos aparentemente – se vê ameaçada pela “realidade mesma”, ou seja, as singularidades, as diversidades – o diverso dentro do diverso. Onde meu ordenamento do mundo é ameaçado pelo do “outro”.

Sigmund Freud no começo do século XX proclamou o mal-estar da civilização (da cultura): a repressão de nossos instintos, nossa animalidade em benefício da vida social. Hoje experimentamos o mal-estar gerado pelo conflito entre as civilizações.

E se no suposto começo da vida em sociedade tivemos de reprimir nossos instintos em favor da vida em grupo, no século XXI o desafio é a re-fundação da civilização agora sobre novas bases.
Se é verdadeira a idéia de que há apenas o vazio para além da cultura, como acredito, se o que predomina no mundo é a singularidade e a diferença entre os grupos culturais, se não podemos falar em uma natureza “natural” humana, mas apenas a que é fundada através da cultura; então a tarefa da nova civilização é a repressão desta primeira natureza fundada em apenas uma cultura – em geral acredita-se nesta falsa aparência de homogeneidade, como já foi dito – e sua reformulação através da aceitação do que é diverso e exterior a uma determinado ordenamento da realidade. Ou seja, esta nova repressão da natureza é uma aceitação da realidade, que consciente de seu caráter criado, encara o desconforto gerado pela complexidade: o mal-estar da complexidade.

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Reflexões sobre a contemporaneidade

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Luiz Cabelo
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