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Um sonho para os neo-freudianos

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Simone M. e Mendes · Maceió, AL
9/3/2011 · 0 · 0
 

Nos idos de 1989, Emiliana conseguira agregar recursos financeiros ao limitado orçamento doméstico para a compra de um Chevette/87. Incrementou ao mísero salário de funcionária pública, e aos ganhos do marido, os lucros auferidos através de sua atividade de sacoleira; ia à casa de um e de outro, em repartições públicas, ou onde mais vislumbrasse oportunidade de mercado, e oferecia as vistosas camisetas de malha acrílica de listas de variadas combinações, que eram a grande sensação do momento. Lembra de que seus sogros tornaram-se fiéis compradores, o que muito contribuíra para a credibilidade do produto.

Teria persistido em aludida atividade se não houvesse se encrespado com uma cliente de seu círculo de amizade, que lançara dúvida acerca da dívida devidamente consignada numa caderneta. Emiliana, pessoa de grande caráter, pensara que se alguém que a conhecia duvidava de sua integridade, quem não mais o faria? Destarte, máxime por sua modesta ambição, satisfizera-se com a conquista de um automóvel que não deixasse sua família na rua, a amargar buscas aflitas por um mecânico nas mais inoportunas horas, e fora palmilhar por outras searas.

Pois bem, sabe-se que o material onírico não carece de guardar respeito com a verossimilhança. Decorrido longo tempo, precisamente, vinte e um anos, da aquisição do Chevette, Emiliana, já tendo logrado patamares mais promissores da escada social, fora dormir com a mente meio atribulada por preocupações de ordem várias. O elemento Chevette, de forma surreal, resolvera fazer aparição no seu sonho: estava com o esposo e amigos numa praia paradisíaca do litoral alagoano – aliás, o que não falta em Alagoas. Quando todos dormiam, pusera o tal veículo numa espécie de rampa flutuante,
atrelara-a a uma pequena lancha e rumara para uma sumária ilha a pouca distância da costa; estacionara o carro na ilha, com a maré baixa, na medida mínima permitida pela lua cheia. O sonho não lhe explicara o objetivo da aventura.

Estava absorta com os peixes coloridos a circular pelos corais esparsos que a água diáfana lhe oportunizava contemplar. O espetáculo era de uma beleza indizível; o sol dava o tom da vida marinha a borbulhar poesia no coração de Emiliana. Concomitantemente a esse estado de deslumbramento com a arte de Deus, a maré, silenciosamente, tragava o precioso Chevette de sua família. Os amigos aportaram na ilha, inopinadamente, e, ali, ficaram todos a mercê da maré para regressarem a terra firme. A sorte do carro já não tinha tanta importância, senão a incolumidade coletiva... Acordou atônita, mas salva e, rapidamente, acudira-lhe a lembrança de que, certamente, o Chevette teria virado pó na existência desperta, e, em sua garagem dormia um possante 4 x 4, que só guarda alguma semelhança com aquele pela dificuldade em adquiri-lo - obviamente, na proporcionalidade da ascensão financeira da família.

Emiliana, então, ficara a conjecturar uma possível explicação para os sonhos – uns de imensurável incongruência. Lembrara das aulas de Psicologia, quando se lecionava as teses freudianas. Seriam mesmo os sonhos a manifestação dos desejos inconscientes? Que desejo estaria vinculado ao Chevette/87 naquele contexto? A mente trabalhando em prol da explicação que não vinha, lembrara de um sonho de criança, cuja memória ainda o conserva. Sonhara com um jacaré nadando no mar de Boa Viagem. Ao evocar aquele sonho, no dia seguinte fora à banca do jogo do bicho, a dois quarteirões de sua residência, e apostara em quê, senão no jacaré? Sua desilusão foi tamanha: o bicho sorteado foi o burro. Isso, porém, passou a lhe fazer sentido, pois quem já vira jacaré no mar? - não, naquela região, pelo menos.

Todavia, quem sabe se um neo-freudiano não se aventure na tradução de seus sonhos? – é o desafio que promove. Que o faça se quiser, pois ela mesma desistira da Psicologia para navegar nos mares, tanto quanto insidiosos, das leis.

Jogo do bicho? Nunca mais! O Chevette? Ficou para trás brigando com a ferrugem. Deixar os sonhos com sua liberdade alada é o que faz Emiliana, sabendo, apenas, que deve cultivar bons pensamentos para não ruminar nos sonhos os tormentos.



Simone Moura e Mendes

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Simone Moura e Mendes
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www.simonemouramendes.com
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