Vidas Recicláveis

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?????? · Cascavel, PR
17/12/2015 · 0 · 0
 

Sempre gostei de inverno, é uma estação onde tudo é calmo e aconchegante e posso me sentir à vontade sozinho, minha mãe sempre me incentivou a sair de casa para arranjar o que fazer, mas acho que alguém com dezessete anos não teria muito o que “caçar” na rua para fazer, mas sucumbi novamente a vontade dela e assim fui dar um passeio em um parque perto de minha casa, imediatamente minha mãe esboçou um sorriso de esperança que puxava todos os músculos de seu rosto.
Vesti um casaco, calcei minhas botas e com cachecol na mão sai então em busca da “vida saudável e feliz” que minha mãe tanto me dizia, chegando ao parque rapidamente percebi que algumas crianças brincavam alegremente correndo no parque enquanto suas mães sentavam juntas e conversavam sobre assuntos banais, não que eu me importe mas acho que esses deveriam ser aqueles momentos que deve se aproveitar com seu filho.
Sentei em um banco isolado que estava ao lado de um lindo pinheiro no parque, puxei meu celular e enquanto desperdiçava meu tempo indo de um lado para o outro em meu celular notei que havia alguém sentado atrás daquele pinheiro, a princípio não me importei mas conforme o tempo passava ouvia risadas sinceras e alegres e isso começou a me incomodar.
Quando levantei para pedir um pouco de paz a dona daquelas risadas suaves e alegres, reparei que era uma linda mulher lendo seu livro encostada ao pinheiro e naquele momento nossos olhares se cruzaram, um pouco intimidado com uma mulher tão bela ela me pediu se poderia me ajudar, e respondi que apenas tinha ficado curioso sobre a dona de tais risadas.
A pele branca e macia de seu rosto começou a se avermelhar de vergonha e seus olhos rapidamente evitam a visão de meu rosto, percebendo a situação constrangedora ali criada por mim imediatamente me desculpei, afirmando que eu não havia feito nada de errado há ela e que apenas estava envergonhada por eu tê-la escutado rindo, pedi qual era o motivo de todas aquelas risadas e ela me mostrou a capa do livro qual estava lendo.
Se tratava de um livro de comedia sobre um menino e seu cachorro e os acontecimentos cômicos que ocorriam com ambos, de certo modo ela me explicava aquilo demonstrando que algumas daquelas situações vinham a ser nostálgicas para ela quando tinha seu cachorro de estimação na infância, naquele momento me deparo que estou começando a ser cativado pela conversa de uma mulher da qual não sei ao menos o nome.
Quando pedi a ela seu nome disse-me que era Mary em homenagem a sua falecia mãe, em seguida já me apresentei como Michael, continuamos naquela conversa por alguns minutos e nos conhecemos um pouco melhor, no fim acabei pegando o número de seu celular na volta para casa, minha mãe agindo como um detetive bem treinado me encheu de perguntas do que poderia ter ocorrido pela minha demora a um lugar tão “entediante e ultrapassado” segundo eu mesmo.
Disse que nada de mais havia ocorrido e apenas perdi alguns minutos a mais jogando em meu celular, desconfiada e com um leve sorriso de canto de boca ela aceita minhas desculpas e me deixa seguir caminho até me quarto, depois daquele dia eu e Mary trocamos inúmeras mensagens e combinamos de irmos assistir um filme no shopping no próximo fim de semana que estava por vir.
Pela primeira vez meus dias estavam sendo preenchidos por sentimentos de ansiedade e empolgação misturados com medo, não estava entendendo muito bem o que estava acontecendo, mas tentei esconder qualquer sinal de empolgação afinal não havia porque ficar afobado apenas por sair com uma mulher mais velha em um shopping.
Quando chegou a data de nosso “encontro” não fiz questão de me ater no que vestir, então com um casaco que estava pendurado em minha porta e com algumas cédulas de dinheiro jogadas em cima da cama fui em direção ao shopping, esperei aproximadamente uma hora com raiva e angustia decidido a ir em bora avisto Mary correndo em minha direção.
Acho que não teria como apagar esta cena de minha cabeça pois só naquele dia consegui reparar como Mary era extremamente bonita e chamativa, com um simples vestido branco, botas pretas e casaco preto ela conseguiu se realçar na multidão, seus cabelos ruivos suavemente balançavam com a brisa gelada que por ali passava.
Seus olhos verdes e ansiosos me encaravam esperando uma atitude de comprimento por minha parte então me apresentei e fomos imediatamente ver se havia alguma chance de entrarmos na sessão de cinema, como todos os ingressos já foram vendidos decidimos apenas dar uma volta pelo shopping e conversarmos.
Ela havia me parecido de início um pouco aflita e triste com algumas coisas, mas decidi procurar não ficar vasculhando vidas alheias, todo o tempo que passamos juntos não teria como eu negar que foi ótimo e empolgante, mas no fim ela voltou a parecer um pouco triste então preocupado decidi perguntar se alguma coisa estava acontecendo, e ela havia me dito estava triste pois sua consulta ao médico fez com que se atrasa-se para me ver.
Perguntei se algo sério estava acontecendo com ela, e rapidamente ela desconversou pedindo desculpas novamente pelo atraso, sem muita insistência fomos para cara, deixei ela na porta de seu apartamento onde morava com seu pai e segui a pé para minha casa, não consegui pensar em outra coisa durante o caminho a não ser em Mary e o que poderia estar acontecendo com ela.
No dia seguinte ela me mandou uma mensagem me chamando para ir a um parque de diversões, estranhei a espontaneidade mas aceitei o convite, ela estava sorridente e sincera como sempre, nos divertimos bastante, rimos, brincamos, e acima de tudo aproveitamos o tempo, ela havia me dito que hoje deveria estudar mas se justificou dizendo, -estudar posso estudar todos os dias, agora ver quem gostamos não sabemos quando vai ser a última vez.
Aquela última frase me deixou confuso em vários motivos, nunca tive uma “inteligência emocional” boa ou alta para entender o que acontecia comigo mas acho que pela primeira vez não precisava ser nenhum gênio para perceber que poderia ter mais do que um significado aquela frase, mas acho que estou imagino apenas o que eu gostaria que fosse...
Meio sem jeito concordei com ela e rapidamente mudei de assunto, novamente ela estava com seus lindos olhos verdes perdidos no parque e com seu rosto corado de vergonha, abracei-a com força e confessei que estava grato por ela ser a primeira amiga que tive, por ser a primeira pessoa que pude me divertir e ter momentos divertidos não estando sozinho.
Ela começou a chorar e me abraçou também, -não quero perder você a única pessoa que tenho pra compartilhar medos e sonhos que inclusive acabei me apaixonando, novamente outra frase devastadora para minha cabeça, eu estava muito feliz por finalmente ter conhecido alguma pessoa fantástica para mim, e ao mesmo tempo confuso de que atitude tomar.
Acabou que no fim fomos cada um para sua casa e ficamos sem nos falar por alguns dias, comecei a pensar que ela quis se afastar de mim pela minha falta de atitude ou covardia, quando mais dias sem conversar mais pensava em me afastar de algo que eu finalmente estava gostando, para pensar um pouco melhor decidi ir ao parque novamente tomar um ar livre.
Me aproximando de meu aconchegante e solitário banco ao lado do pinheiro, vejo Mary sentada ao banco novamente lendo, grito seu nome e corro em direção a ela para finalmente me confessar como ando me sentido, para que finalmente possamos ter algo a mais, e termos algo mais puro e romântico.
Mas ela me encara com seus olhos desmanchados em lagrimas e seu nariz vermelho como se estivesse chorando por horas, levanta começa chorar e sai correndo cobrindo seu rosto, confuso e angustiado corro atrás dela para saber o que está acontecendo, -não me siga nunca mais e me deixe em paz... esqueça o que eu disse a você no parque e adeus.
Paralisado vejo a primeira mulher que conquistou meu coração quebrando o mesmo diante de meus olhos e saindo sem muitas explicações, desesperado sem entender o que estava acontecendo segurei seu braço e pedi apenas um motivo, a mão que cobria seu rosto e suas tristezas foi feita de arma para me dar um tapa e anunciar para mim que ela já estava com outra pessoa.
Meu corpo caiu no chão do parque com uma mente e coração sem absolutamente chão nenhum caindo juntos, fiquei estático olhando para ela sentado no chão enquanto lagrimas descontroladas escapavam de meus olhos, não pela dor do tapa mas sim pela lavagem que meu coração estava recebendo.
Novamente ela olha em meus olhos e me diz adeus e sai às pressas do parque sem sequer olhar novamente para trás, com meu coração em pedaços uma mente confusa e perdida, um corpo gélido e desmotivado me levantei e fui em direção a minha casa, entrei pela porta da frente com uma expressão triste e depressiva, enquanto minha mãe estava pronta para chover com perguntas em cima de mim, mas ao olhar meu rosto ela simplesmente abandona suas perguntas e me pergunta se eu gostaria de algo.
-as vezes eu gostaria apenas de não ter coração, com um rosto patético deixando lagrimas á escapar subo rapidamente ao meu quarto e me tranco por algumas horas, depois desse dia fiquei três dias sem qualquer notícia de Mary, quando ocasionalmente passo na frente do hospital local da cidade e vejo Mary entrando com um homem.
Tomado por raiva imediatamente entro no hospital cheio de raivas e angustias e começo a procurar por ela, reconheço o homem distante de costas e rapidamente o viro pelo ombro pronto para desferir um golpe, e imediatamente paro minhas ações quando vejo o homem se derramando em lagrimas com uma aparência um pouco mais velha.
Peço se ele conhece Mary e novamente ele volta a chorar, e me pergunta se meu nome é Michael quando digo que sim ele me abraça fortemente e me agradece por fazer a filha dele feliz em momentos tão difíceis e tristes, sem entender o que estava acontecendo pedi para que me explicasse melhor a situação.
-Entendo... ela não quis dizer nada a você pois ela deve gostar muito de você filho, finalmente ele começou a me explicar que Mary nasceu pré-matura pois sua mãe corria risco de vida e pra dar à luz a filha fez uma cirurgia de risco que não aguentaria tudo pela filha e isso fez com que ela desenvolvesse um problema cardíaco gravíssimo, e todo mês ela vem ao médico para saber se a um doador para fazer um transplante de coração para ela, mas aparentemente houve um erro ao armazenar o órgão e ela perdeu seu doador.
E de uns tempos pra cá a situação de Mary vem piorando muito, e por isso o médico recomendou que ficasse internada até encontrar um novo doador, naquela hora percebi o quão injusto e idiota fui em sentir raiva dela e me arrepender de todos os momentos que tivemos juntos, ela nunca teve outra pessoa só não queria que eu olhasse ela desse jeito.
Arrependido de meus atos e inquieto comigo avisei o pai de Mary que tinha assuntos a tratar e precisava ir e que era pra manter em sigilo nosso encontro, corri até minha casa com todas as forças que me restavam, Mary no fim acho que não vou poder dizer a você como me sinto e o que se passava em meu coração mas em breve ele estará junto a você.
-Senhorita Mary vamos a sala de cirurgia rapidamente, seu estado tem piorado e felizmente encontramos um novo doador compatível com você, paralisada de emoção meu olhos expulsão todas as tristezas e angustias que havia contido em mim, logo poderei ver ele novamente e me desculpar por tudo que fiz, apenas me espere mais um pouco Michael.
Algumas horas depois da sala de cirurgia finalmente retorno ao meu quarto do hospital ansiosa para finalmente começar uma nova vida ao lado da pessoa que aguentou todas as minhas manias jeitos e costumes, sinto que estou mais perto dele do que nunca, mal posso esperar.
Ouço batidas na porta de meu quarto animada e contente peço que entre e me deparo com meu pai com o rosto coberto de lagrimas, nos abraçamos e choramos junto e comemoramos minha recuperação, enquanto abraçava meu pai notei que havia uma mulher que não conhecia na porta chorando junto, em suas mãos ela segurava um cachecol com uma carta, lentamente ela se aproxima de minha cama e me entrega o cachecol de presente junto com a carta e deixa o quarto junto com meu pai.
Sozinha sem entender muito as coisas abro rapidamente a carta e começo a ler, “Bom Mary, espero que não fique brava comigo pois esta decisão que tomei foi a melhor coisa que podia ter feito, não aguentei ver você no estado que estava, e quando descobri tudo que você já havia passado me senti mal em apenas esperar um milagre, então sem sua permissão tomei a liberdade de me tornar esse milagre.
No fim acho que por meio desta carta vou conseguir dizer como me sentia, você de alguma maneira especial acabou me mudando e me fez ver a vida de uma maneira especial entende? Eu tinha prazer em fazer coisas que detestava, seu jeito doce e alegre de levar as coisas me contagiou e me fez ver a vida de um ângulo mais feliz, acabei me prendendo muito a você e como sempre fui solitário o que sinto por você é algo especial.
Infelizmente apenas por meio desta carta vou poder te dizer o quanto te amo, o quão vasto meu amor por você é, o qual pequeno o universo é para a infinidade de coisas que eu gostaria de fazer ao seu lado, mas creio que terá que fazer essas coisas sozinha por nós dois, o coração que te da vida neste momento era o que fazia o mesmo por mim, espero que não se sinta sozinha, e fique tudo bem.
Antes que eu me esqueça queria falar mais uma vez, te amo.”

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Alexandre Rejes Coelho
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