Abayomi - Ressonâncias da África

foto: Felipe Obrer / iluminação cênica: Addia Furtado e André Sarturi
Vinte e seis pessoas multiplicadas em multidão alada
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Felipe Obrer · Florianópolis, SC
20/7/2012 · 10 · 0
 

[ou a africanização do TAC]

Abayomi significa algo como o prazer do encontro.

A reunião que aconteceu no Teatro Álvaro de Carvalho foi digna do nome.

Ressonâncias da África é o título do espetáculo. E como se viessem num deslizar veloz pelo oceano Atlântico, as energias negras e luminosas da batucada se espalharam por cada átomo dos presentes. E negro aqui não é o tom da pele apenas, já que a variedade humana no palco e na platéia (acentuada, sentada apesar do balançar de pernas inevitável com o ritmo) era multicolorida.

Já se disse por aí que deveríamos falar em Áfricas, e não em uma África única, como se na terra ancestral houvesse apenas uma etnia. Existem muitas nações, costumes e polirritmias no continente que espalhou conteúdo cultural pelo mundo. Estamos no Brasil, talvez o país mais africano na extrapolação das fronteiras convencionais.

O sul do Brasil é muito marcado pela suposta hegemonia de descendentes europeus, mas basta consultar algumas fontes de água limpa, na nascente, para saber que existem, catalogados, na Ilha de Santa Catarina e adjacências, mais de mil terreiros de matriz africana (aqui, alguns exemplos).

E existem jovens que pesquisam e praticam musicalidades percussivas e danças dessa região há uma década ou mais. Depois de transformações e reprocessamentos antropofágicos, chegaram a esse congregar fraterno chamado Abayomi. No caminho, contaram provavelmente com o francês-manezinho Nicolas Malhomme, precursor da percussão afro-brasileira na cidade e cabeça do grupo Batukajé ao lado da Adelice Braga, conhecida como Nêga. Isso ninguém nega. Ao mesmo tempo, é admirável que tenha acontecido uma fusão tamanha entre os batuqueiros e dançantes da Ilha, já que ao longo da década houve grupos como Arrasta Ilha (ainda ativo) e Siri-Goyá (extinto ou latente), que além do afro tinham também um pendor forte pelo maracatu pernambucano. Os percussionistas e as dançarinas transitam fluidamente entre os grupos, sem sectarismos.

O percussionista e pesquisador Erik Dijkstra esclarece melhor: ´´O Abayomi é fruto de um processo que começou há 10 anos (no meu caso, pois a Simone Fortes já dançava), quando conheci a dança "afro" na Lagoa com a Ana Paula Cardozo e o André F. Marcelino e com Nicolas Malhomme e Aldelice Batista Braga (acho que estavam na Astel). O Fabio Cadore também vem desde essa época. Foi após conhecermos o Luis Kinugawa e a Fanta Konate que a pesquisa tomou o rumo da percussão e dança malinkê da qual continuamos a beber da fonte. Quero deixar meus agradecimentos a todos os professores e mestres acima citados, pois eles fazem parte desse bonito processo.``

Posso falhar por ignorância, e peço desde já que os leitores que conhecem melhor que eu essa história toda relevem os possíveis erros factuais. Orbitei os movimentos e tenho uma visão parcial, assumo. Aqui não interessa tanto a precisão taxonômica nem procuro dar a versão final da verdade, só busco pôr minha voz na roda, usando as palavras com as quais talvez produza música verbal que revele o impacto dessa história toda no meu peito. E, vá saber se, com sorte, quiçá toque também outros corações.

Falamos em fonte há pouco, e é necessário dizer que alguns integrantes do Abayomi encararam a travessia aérea (ainda bem, os navios negreiros já não navegam) até a Guiné, e planejam novas idas. Faz toda a diferença quando as pessoas se aprofundam no gosto e se lambuzam, no melhor sentido possível, com a alteridade. Cada um traz uma história, muitos podem ter assistido aos programas de televisão massivos na infância, mas a humanidade sempre pode se salvar retornando a alguma origem. Como dizia o pedagogo Paulo Freire, teoria só é digna desse nome quando se refere a uma certa prática, caso contrário é apenas blá-blá-blá vazio.

O Abayomi é, além de um grupo que realiza apresentações públicas, uma oficina permanente que difunde as danças e precussões afro-brasileiras. Mantém ao longo do ano um espaço de aprendizagem no DCE da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

No último dia 17 de julho foi possível assistir a essa congregação laica e sacra ao mesmo tempo, que inundou de africanidade um espaço pelo qual passam espetáculos de outras ordens. O TAC foi africanizado. Aconteceu ali, e quem estava presente constatou com vivacidade, um rito que permitiu a purificação do ar com arte. A intensidade da percussão e da dança, por si, já seria suficiente para acelerar pulsações. E o que se viu e ouviu foi além. No início, o destaque da importância da sensação da pele, eriçada desde já pelo que viria. Tudo transcorreu sem atropelo.

Ao final, o hall de entrada do teatro ficou lotado de gente, som e movimento, numa ressonância genuína que reduziu as ânsias gerais por comida para a alma. Por pouco, até o segurança entrou na roda.

No meio de tudo coreografias espontâneas, diálogos percussivos muito fortes, clarinete, canto e a flexibilidade de um espetáculo que deixou o céu grávido do barro fértil essencial. Plantas e faunas novas nascerão dessa gente que se encontra.


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Concepção:
Abayomi

Coreografias e Direção Artística:
Simone Fortes

Direção Musical:
Erik Dijkstra
Fabio Cadore

Produção:
Abayomi Produções

Figurinos:
Gisele Solla
Roberta Alencar

Iluminação:
Addia Furtado
André Sarturi

Dança:
Simone Fortes
Roberta Alencar
Bettina Martins d'Ávila
Sara Borém Sfredo
Andressa Ocker
Gabriela Gomes
Camila Claudino de Oliveira
Maria Luiza Coelho da Rocha
Katia de Arruda
Barbara Azevedo Marris
Mayana Lacerda Leal
Marcela Dal-Bó Fernandes
Mainá Araújo de Paiva e Souza
Vanessa Camassola Sandre
Saman Belizário
Sofia Stoffel Cardozo
Alexandra Alencar
Júlia Vieira da Cunha Àvila
Lorena

Música:
Erik Dijkstra
Fabio Cadore
Eduardo Baldan dos Santos
Diogo Costa
Tomaz São Thiago
Oscar Simon Rodriguez
Max David Yamauchi Mansur Levy


Coordenação de filmagem e fotografia:
Andressa Ocker

Foto:
Caroline Mariga - Nó Cultural
Felipe Obrer - Obrer Consultoria

Filmagem:
Daniel Combat - Green Multimídia
Vinícius Rosa - MULETA
Chico Caprario

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