Bienal de São Paulo: Uma Visita Guiada
ARTISTAS AFRICANOS
Isa Bandeira
Mestranda em Estética e História da Arte, PGEHA/USP
29ª Bienal de São Paulo, Nov.2010
A mais tradicional exposição brasileira denominada 29ª Bienal de São Paulo, tem como curadores-chefes os brasileiros Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias, e os convidados Chus Martinez (Espanha), Fernando Alvim (Angola), Rina Carvajal (Venezuela/Estados Unidos), Sarat Maharaj (África do Sul/Reino Unido) e Yuko Hasegawa (Japão). Conta com a participação de 157 artistas.
A parada obrigatória da nossa visita é o Continente Africano. A delegação africana empata com os artistas estadunidenses, que contam também com 10 artistas. As linguagens predominantes são o vídeo e a fotografia.
Para entender melhor a exposição, iremos recordar que as Bienais nacionais vêm ao longo do tempo consolidando um modelo bastante usual em várias partes do globo: a escolha de um tema ou conceito a partir do qual norteiam a montagem e a seleção dos artistas. O conceito escolhido para a 29ª Bienal de São Paulo foi: “Arte e Política”.
A inevitável pergunta é até que ponto a própria opção “ser artista” já não é em si um ato político e em que medida a curadoria, exercendo o poder da seleção também convenciona para o público o que é “arte”. Esta pergunta é inevitável quando observamos os artistas africanos presentes nesta mostra. Notamos que a maioria deles, quatro, vem da África do Sul, onde a arte se encontra mais estruturada do que nos demais países do Continente, onde o acesso às Universidades é ligeiramente maior do que no do regime do apartheid. Além disso, o país conta também com publicações de revistas especializadas, um nível de produção gráfica de boa qualidade e galerias que não se restringem ao campus. Mas mesmo com este cenário otimista, e independentemente do conceito da 29ª Bienal de São Paulo, David Goldblatt tem sua trajetória marcada na realidade da África do Sul, aliás, ponto em comum entre os artistas. Kendell Geers apresenta um dos mais interessantes trabalhos do grupo e é o único que não traz fotografia e vídeo, tendência nos demais. Uma obra original que quase passa despercebida no contexto da montagem, em uma parede-corredor que liga o último andar do prédio da mostra ao edifício do Museu de Arte Contemporânea (MAC).
O ato em si, a ligação física entre os dois prédios, é considerado pela artista Vera de Albuquerque “uma corajosa contribuição ao tema pela equipe de curadores... “ Mas isto é outro assunto!
Um pouco depois de entrarmos nesse corredor, deparamo-nos com a segunda obra do artista, presa ao teto, apesar de a sua monumentalidade perder-se no meio de infinitas opções; é preciso um espectador bem atento para relacionar o autor com o trabalho na parede; terá sido esta a intenção curatorial??
Agora, voltemos à fotografia. Moshekwa Langa, de viés mais intimista que seu compatriota, lança-nos outro desafio, o de buscar nos ambientes interiores e nos objetos certa familiaridade, pertencente à diáspora, observou aí certa similaritude com uma realidade de pobreza global.
Por fim, Zanele Muholi apresenta-nos uma série de fotografias, especificamente de mulheres, de certa forma fazendo-me lembrar as expedições “científicas” com o objetivo de registrar o tipo local. Por outro lado, remonta-nos à já tradicional fotografia de retratos.
Posadas, as modelos nos fixam com uma seriedade quase perturbadora.
Não sei calcular a medida de impacto destas imagens num público acostumado a um padrão completamente diferente e cada vez mais massificado. É provável que passem rapidamente por esta ala, não existindo aí nenhuma celebridade reconhecível ou em alguma atitude mediática. Seguimos! Agora chegamos na Nigéria com Andrew Esiebo, outro fotógrafo; a simbiose entre a cultura local e a entrada dos novos “padrões civilizacionais” é quase uma ilustração para os textos teóricos sobre esta relação sempre conflituosa; sobre o tema é melhor apegar-se ao dito popular: sexo, política, futebol e religião, é melhor não comentar...
Nnenna Okore constrói sua obra com jornal, mesmo material de seu colega angolano Yonamine, excelente artista, mas que certamente não trouxe seu melhor trabalho.
Má sorte também acompanhou nosso amigo Otobong Nkanga; suas fotografias estão visivelmente descolando do suporte, causando em um de seus trabalhos uma superfície ondulada que provavelmente não faz parte da proposta deste nigeriano. Atenção equipe de curadores!!!
A hora e a vez dos vídeos: Nástio Mosquito e Bofa da Cara, apresentam My African Mind. Aqui posso dizer: voltei a ser criança; todo o meu imaginário infantil sobre a África e os africanos está contido nesta ópera bufa!
Politicamente incorreto, alia imagens de História em Quadrinhos com a linguagem dos antigos documentários. Ao mesmo tempo cruel e engraçado! Um detalhe extremamente importante: o tempo com duração suportável, exceção em relação a outros vídeos da mostra, excessivamente longos! E por fim, não menos importante, Zarina Bhimji, outro vídeo. Confesso, não vi todo! Fios, vento, fios, vento, alguns sons, fios, vento... a verdadeira espera.
Chegamos ao fim da nossa visita guiada; seria interessante saber se os próprios africanos se consideram bem representados na 29ª Bienal de São Paulo. De minha parte, fiquei triste por não ver moçambicanos selecionados como a Maimuna Adam, o Gemuce, o Jorge Dias, o Mauro Pinto, a Anésia Manjate, o Ivan Serra, a Carmen Muianga, o Lourenço Pinto....
O sucesso de uma festa é saber misturar os convidados, com a poesia de Jorge de Lima, slogan da exposição paulistana: “Há sempre um copo de
mar para um homem navegar!”. Despedimo-nos, lembrando que algum poeta também já deve ter dito “o mundo só é pequeno quando nossa imaginação não é grande”. Brigadíssima e até breve.
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