Observatório

Instituto Overmundo
Durante os seus já 2 anos e meio no ar, o Overmundo viu a sua proposta de difusão cultural e colaboração online desdobrar-se não apenas na vasta comunidade formada em torno do site, como em novas iniciativas movidas pelo espírito de compartilhar, enriquecer e disseminar a experiência acumulada. Agora, um espaço institucional há muito tempo planejado vai ser o catalisador e o abrigo... leia

Fóruns

Observatório · tudo sobre o Overmundo

Ajuda · tire suas dúvidas aqui

Código · sobre o sistema do site

Conversas · sobre culturas de todo o Brasil

Classificados · produtos e serviços culturais

 
Cair de cara, pagar pra ver
daniel valentim · Manaus (AM) · 1/12/2006 11:23 · 101 votos · nenhum comentários ·  
 
1
overponto
divulgação
Sem emprego, não dá!
“Polaróides, barulhos distorcidos, celebrações, amigos reunidos”. A voz é aguda, de veia saltada no pescoço. O riff segue se repetindo, enquanto a base alterna tons – uma mudança de contexto harmônico muito explorada pelas ditas bandas indies norte-americanas. Celebrações, amigos reunidos, o baixista está em transe, a Espantalho começa a tocar e de repente o vício de cigarros, vodkas e conversas paralelas retornam ao fundo do plano. O palco está no centro da atenção, no cerne da questão que encuca quem escuta o rock amazonense: por que insistir em noites que só pagam pau e cachê para quem toca melhor o que já toca na rádio (ver matéria “A casa da árvore e o estado vegetativo”), em vez de assistir a quem dá a própria cara a tapa? Como diz a letra de “O extraordinário”: “se for pra cair de cara, porque não pagar pra ver?”.

Eu tenho banda de rock, e por isso compartilho de um sentimento bastante comum no cenário roqueiro independente de Manaus: adoro dividir o palco com a Espantalho. Há dois motivos muito simples para isso: o primeiro, mais sentimental, é o fato da música ser muito boa, rica na maneira peculiar com que o trio constrói suas melodias e harmonias, e de ter feito parte da adolescência de toda essa geração de roqueiros que está por aí. O segundo, totalmente prático, é a certeza de que ao final da noite terei uma boa grana da bilheteria pra aliviar, pois o grupo é sinônimo de platéias generosas num cenário geralmente difícil em termos financeiros.

A Espantalho é uma dessas bandas com carisma indiscutível, possui uma relação de respeito mútuo bastante estreita com os fãs, que cantam todas as músicas e vibram com cada detalhe nos shows; e com os outros grupos da cidade, que a enxergam como uma das pioneiras no que ficou conhecido como a nova geração do rock amazonense, brotada nos anos 90.

Era uma vez...

Na avenida Sete de Setembro, próximo à Escola Técnica, havia um bar chamado Casa da Luz, que funcionava, ao lado do Bip Top (rua Ramos Ferreira, Centro), como um dos pontos de encontro dos roqueiros manauaras – mais tarde surgiriam outros como o Ecos Bar, MacIntosh, Planeta Rock e War Zone. Era uma época de efervescência criativa, quando diversas bandas de garagem espalhadas pela cidade começaram a buscar uma sonoridade diferente, diante dos ouvidos atentos da molecada de então, sedenta por coisas novas. A equação estava fechada: havia boca que falasse, microfone à disposição e orelha interessada com algum dinheiro no bolso. O funk engajado da Charlie Perfume, o blues da Veneno da Madrugada e o peso da Jack Daniel’s, além do indie rock da Zona Tribal e da Espantalho (chamada Scare Crow de 92 a 95) são alguns dos sons que mais marcaram esse tempo.

Voltando à Casa da Luz, numa das festas realizadas por lá, havia flores no chão, vinis nas paredes e velas acesas por onde dava. O público ficou no palco, e a Espantalho tocou na platéia a canção que se tornaria hino dessa geração, “Red”, uma das composições mais melancólicas do grupo, que serviu de base para a letra sobre o suicídio de Kurt Cobain. É interessante observar esse fato pelos paralelos que ele traça. O Nirvana tem uma relação muito especial com essas bandas que surgiram por aqui naquela época – e provavelmente com muitas bandas de outras diversas localidades. É o tipo de grupo que pega pela veia, que devolve o rock à molecada, que quando a gente escuta dá vontade de montar a própria banda, assim como deve ter sido com o Velvet Underground nos anos 60. Bem, o fato é que no universo restrito ao rock manauara, a Espantalho também assume um pouco esse papel de motriz indireto de novos grupos.

Na medida em que os bares abriam espaço, as bandas apareciam para diversificar a cena, e do meio para o fim dos anos 90, a cidade já contava com muita coisa boa para mostrar. Uma prova disso foi a realização do primeiro Festival Fronteira Norte, em dezembro de 98, um evento que durou dois dias e apresentou 23 bandas num palco profissional, instalado num sítio no Km 30 da estrada Manaus-Itacoatiara. Criado e organizado por Mencius Melo, vocalista e letrista da Zona Tribal, o Fronteira foi um marco na música amazonense – e só a título de curiosidade, toda a boa estrutura de palco e sonorização foi conquistada graças a um acordo com o grupo de motoqueiros chamado Mercenários, que em contrapartida realizou um concurso de garota camiseta molhada no evento. Apesar desse crescimento do rock, a cena acabou sofrendo um retrocesso inexplicável na virada para os anos 2000, com o retorno de um, digamos, império de covers.

Disco

Depois de mais de dez anos de atividades, a Espantalho finalmente lançou seu primeiro disco, auto-intitulado, dentro do projeto “Valores da Terra”, da Fundação Villa-Lobos-FVL (hoje Secretaria Municipal de Cultura), que bancou a gravação de uma boa leva de CDs de rock em 2003. Como o projeto era muito amplo, entretanto, houve pouco tempo disponível de estúdio para cada uma das muitas bandas; e o que foi pior: todas elas eram praticamente virgens de estúdio. O problema do CD, na parte técnica, se resume aos timbres, que estão longe de como a banda soa ao vivo. No mais, é o lamento de fã, pois o disco já saiu meio velho, defasado, por ter sido uma espécie de apanhado dos dez anos.

O repertório das apresentações, apesar de ainda incluir clássicos como “Red”, “Amanhecer dirigindo” e “O extraordinário”, já está cheio de coisas novas, muitas delas sem registro. Uma boa é conferir “Tempo de Despedida”, nova composição que entrou na coletânea “Casa da Árvore”, lançada no Banco de Cultura do Overmundo. O projeto de disco novo, por outro lado, com dez faixas e produção cuidadosa, ainda é promessa em busca de patrocínio. Os que quiserem conhecer o som da banda também podem baixar algumas músicas no site da trama virtual.

tags: Manaus AM musica espantalho casa-da-arvore tempo-de-despedida fundacao-villa-lobos valores-da-terra



Nenhum comentário até agora 




  Adicione seu comentário: para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

 
canto_esquerdo   canto_direito