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Cobra na Sanfona

Damein Chemin
Em momento de concetração e execução de sua sanfona.. no Forró Caju
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Thiago Paulino · Aracaju, SE
21/5/2009 · 9 · 0
 

Festa do cd promocional de Cobra Verde reúne a nata do forró sergipano e antecede lançamento de versão em selo francês

Festas de sanfonas afiadas no palco, improvisos do repente de aboio, declamação de poesia matuta e mais sanfona de qualidade. Esses foram alguns elementos da colorida colcha de retalhos juninos na noite de lançamento do CD “Forró de Cobra Verde” no Restaurante e Casa de Forró Cariri, na última quarta, 13. O lançamento reuniu parte da nata do forró sergipano em uma noite que o forró de qualidade imperou.

Cobra Verde é uma “alcunha forrozística” adquirida de pai para filho. Soenildo Santos, nasceu em uma família de músicos. O pai tocava triângulo e tinha o apelido de Cobra Verde. O filho ao começar a tocar sanfona herdou o apelido do pai. Na noite do lançamento do CD, Cobra Verde, o filho, mostrou porque é considerado no meio do forró sergipano um dos melhores de sua geração. E quem foi esperando um show promocional com apresentação do sanfoneiro estimada em 40 minutos, levou no pacote o disco promocional e foi surpreendido com uma apresentação de mais de três horas com direito a belos improvisos e encontros interessantes.

Cineasta e documentarista, belga de nascimento e sergipano por opção, Demien Chemim foi o principal idealizador do evento e da produção do cd. Ele considerou uma ótima noite e principalmente pelos encontros inusitados. “Foi muito legal e fiquei muito feliz em ver grandes artistas se apresentando junto com Cobra Verde. Gostei de ver um clima muito bom entre os músicos. Foi interessante ver Zé Costa cantando e Danielzinho tocando triângulo para ele, ver o encontro de Cobra Verde com Mestrinho que tocaram pela primeira vez juntos”, relembrou.

Cobra Verde tocou músicas de autoria própria e fez belas releituras de clássicos muito bem acompanhado pelo zabumbeiro Vanidinho, pelo músico Márcio Alegria (que variava no baixo, cavaquinho, violão e percussão) e pelo irmão Soeliton no triângulo. O sanfoneiro natural do pé da Serra da Miaba, em São Domingos, mostrou na sua apresentação não só a habilidade, mas também uma maturidade musical de quem consegue tocar de forma virtuosa sem perder a melodia dançante do forró.

NATA DO FORRÓ NA COZINHA DE COBRA VERDE

Como não bastasse a sanfona rasgando o salão do Cariri, o público pode apreciar bons encontros. O forrozeiro de Boquim e ex-vocalista do Cabeça de Frade, Zé Costa que foi o primeiro a subir no palco, interpretou o clássico de Jacinto Silva, Carreiro Novo. O forrozeiro ainda cantou Vaqueiro Apaixonado de sua autoria e animou o público com músicas como ‘Pra Tirar Coco’ (de Messias Holanda). Zé Costa fez outra coisa que é suas especialidade: declamou duas poesia matutas.

Alguns momentos depois foi a vez do cantor de Capela, o ex-vaqueiro Danielzinho soltar parte do seu talento cantando toada de sua autoria. Mas bom mesmo foi quando ele mostrou a sua capacidade de improviso junto com o parceiro de banda e também grande poeta Erlandio. A dupla improvisou no repente de aboio e descreveu bem a festa em versos. A turma mais experiente do forró sergipano também teve vez. Erivaldo de Carira cantou e Edgar do Acordeom fez uma ótima participação mostrando que seus 45 anos de forró não são 45 dias.

Um dos pontos altos das participações, no entanto, foi a participação do filho mais novo de Erivaldo de Carira, Mestrinho. Juntos, Mestrinho e Cobra Verde, executaram Feira de Mangaio e Lamento Sertanejo fazendo quem tava sentado se levantar e aplaudir nos solos mais avançados.

Um hora depois Mestrinho comentou o encontro das sanfonas afiadas. “Muito bom tocar com um sanfoneiro do nível de Cobra Verde. Foi a primeira vez que tocamos juntos e sempre é uma forma de aprender. Eu aprendi com ele, e ele aprendeu comigo”, disse o jovem sanfoneiro de 20 anos que junto com a irmã Thaís e o zabumbeiro Scurinho estão lançando um cd que conta com a participação de Elba Ramalho e Dominguinhos.

Durante a festa uma ausência foi sentida: do poeta aboiador e artista popular de Poço Redondo Genovitor que também participa do CD. Genovitor faz parte de uma família de artistas populares que são conhecidos na região do alto sertão sergipano por tocar pífano, sambar coco e fazer novenas. “Genovitor não pode vir porque tinha que tocar em uma novena. E geralmente quem substitui Genovitor é um tio dele, mas como o tio adoeceu, ele tinha que ir. E faltar novena não é bom, com os santos não se brinca”, justificou Damien.

FORRÓ DE COBRA VERDE

O CD ‘Forró de Cobra Verde’ é um balaio do que a matriz sonora do forró tem de bom. Mas não é um balaio qualquer. Nas dezoito faixas tem toque de pífano, xote, forró mais acelerado, aboio improvisado, forró de vaquejada, sanfona com choro e tamborim. Com essa variedade musical as possibilidades sonoras não se prendem somente a música da cultura do São João, mas são bem a cara do sertão e agreste sergipano.

Uma outra versão do CD, com número menor de músicas, será lançada na Europa no segundo semestre pelo produtora francesa “Cinq Planètes” para depois ser divulgado internacionalmente pela distribuidora Francesa “ L’autre Distribuition”. Essas empresas já foram responsáveis pela produção e divulgação dos CDs “Forró Acústico VOL1 e VOL2”, nos quais Demien gravou in loco, diversos artistas e forrozeiros sergipanos.

Ao ouvir e conhecer Cobra Verde pessoalmente é possível parafrasear Rolando Boldrin, quando se referiu à violeira do Pantanal Sul Matogrossense: “Helena Meireles é uma pessoa simples, sua música não”. Isso é possível verificar no desempenho do sanfoneiro de São Domingos em faixas de própria autoria como em ‘Valsa para Lucas’, ‘Forró de Cobra Verde’, ‘Chorão Chorona’ e até mesmo no pout pourri gonzaguiano (Quero Chá/ Fuga para África ). Tocado de forma diferente, com bons solos e arranjos, músicas conhecidas são recriadas, acentuando-se a sua beleza. E a mestria musical de Cobra Verde está justamente na leitura que ele faz de músicas de outros compositores.

E quem disse que em uma faixa sonora de um cd não cabe uma igreja com novena, muita reza a padim Cíço e a Bom Jesus dos Navegantes? Em “Igreja de Juazeiro” o pífano dita a melodia, a sanfona acompanha e Genovitor solta a voz em uma música de novena gostosa. A música é de autoria da clã dos Vito.

No entanto, a justiça precisa ser feita. Apesar de todo a habilidade de Cobra Verde, a excelência do disco também se deve à participação fundamental de mais duas pessoas: do produtor Demien Chemin e do multi-instrumentista Márcio Alegria. Damien, além de auxiliar na escolha do repertório, articulou diversas participações no cd. O belga do sertão também assina autoria de duas músicas em parceria com Cobra Verde. “Tinha uma música na cabeça e Cobra Verde passou para sanfona”, explica Damien.

Alegria fez parte da direção musical do CD e foi responsável por trazer muitos ingredientes dessa cozinha sonora. “Gravar com um músico como Cobra Verde é muita responsabilidade, assim como dar uma direção musical. Botamos vários instrumentos: baixo, percussão, cavaquinho. Sou suspeito para falar, mas o resultado ficou bom. As diversas participações só fizeram enriquecer ainda mais o trabalho”, afirmou Alegria que tem boa estrada na música. Começou ainda pequeno tocando zabumba na quadrilha junina Rastapé do Conjunto Costa e Silva. “O marcador era trombonista e músico do conservatório, me ensinou várias coisas, ler partitura.. De lá para cá já passaram 22 anos”.

A arte do encarte é assinada pelo designer Marcos Fraga, o Marvin, que fez uma caricatura fiel ao sanfoneiro - comparem com a foto. O CD conta também com participações especilíssimas de Zé Costa, fazendo o bom forró de vaquejada; Clemilda e Amorosa, cantando uma música de reisado; Alexssandra (esposa de Cobra Verde); Danielzinho, Nitinho e Erlandio, que fazem uma rodada de aboio improvisado e Aldemário Coelho que canta música de Jacinto Silva.

________

O mesmo texto também foi publicado no Caderno Cultura do Jornal Cinform (Edição 1362 de 18 a 24 de Maio)

Contatos -
damienchemin@hotmail.com
cobra-verde@hotmail.com

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Danielzinho (de Chapéu) e Zé Costa no triângulo participam do show zoom
Danielzinho (de Chapéu) e Zé Costa no triângulo participam do show
Mestrinho e Cobra Verde... sanfonas afiadas zoom
Mestrinho e Cobra Verde... sanfonas afiadas
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Capa do Cd - Design de Marcos Fraga
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