Como a casa de um caracol

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Adriane · Curitiba, PR
16/3/2006 · 146 · 1
 

Em outubro de 2002, o artista plástico colombiano Santiago Plata colocou sua mochila com uns cem quilos nas costas, montou sua bicicleta e começou seu percurso pela América do Sul disposto a contribuir para o resgate de um tipo de arte que a maioria das pessoas não parece encarar como tal: a rupestre. Três anos depois, o projeto de “visitar” este antiqüíssimo tipo de iconografia, que deveria durar 24 meses, já quase dobrou o tempo de duração e, na avaliação de Santiago, ainda está no meio. Um pouco do que foi feito até agora pode ser conferido na exposição América do Sul Rupestre, no Espaço Arte e Design da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba.

É lá que estão alguns dos “decalques”, digamos assim, dos escritos e desenhos que ele encontrou nas pedras milenares do sul da América até agora, expostos em telas captadas através de um processo chamado “frotagem”. É quase como uma impressão feita quando ele coloca sobra a imagem um fio de pvc e uma tela branca, que são friccionados com carbono e caroço da semente de abacate para colorizar. “A imagem fica impressa na tela sem que nenhum dano lhe aconteça”, explica ele, que está em Curitiba há dois meses, de onde também foi pesquisar e encontrou raridades no Estado vizinho, Santa Catarina.

“A arte rupestre está sendo depredada pelo comércio ilegal de pedras e pelo vandalismo de pessoas que rabiscam seus nomes e corações nas pedras que deveriam ser resguardadas”, conta ele, que tenta mudar esse comportamento fazendo palestras nas quais explica a conseqüência danosa para a cultura de uma brincadeira aparentemente inofensiva. “Quem sabe se mostrarmos que são as marcas dos ancestrais dos ancestrais dos ancestrais dos nossos ancestrais as pessoas passem a cuidar mais”, argumenta Santiago, um bacharel em Belas Artes na Universidade Nacional da Colômbia, que traz na bagagem também uma especialização em imagem pictórica. “Esta arte está nas paisagens mais lindas e especiais da terra e aproveito também, par pintar esses lugares
e depois compartilhar com outras pessoas através dos meus trabalhos”, emenda ele que faz pintura também, mas não as comercializa neste projeto nem para levantar uns trocados para custear a viagem que transcorre sem nenhum apoio oficial. Só com amigos ajudando.

Mas se são belos os lugares que guardam essa memória cultural da humanidade, eles também são de difícil acesso e complicam a vida de órgãos que deveriam preservá-los. “O Estado não tem capacidade de proteger como deveria, de manter a vigilância nestes lugares, o que deixa a arte rupestre vulnerável”, pontua seu defensor. Quando é um lugar com potencial turístico, a atenção até aumenta, mas para gente como Santiago, isso é pouco, muito pouco. Até porque o processo agressivo de globalização só contribui para acelerar a deterioração desse tipo de vínculo identificatório. “Empresas e Estado só mostram interesse se existe chance de explorar turisticamente”, alerta.

Seu sonho se completaria se conseguisse um espaço para abrigar suas obras para que mais gente possa através delas entender o valor da arte rupestre. “É uma forma também de conhecer o patrimônio cultural da humanidade já que este tipo de linguagem é parte de nossa identidade”, defende o colombiano.

Até agora, Santiago Plata já passou pelo Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Paraguai e Brasil. Em todos os lugares montou uma exposição, sempre contando com apoio local de pessoas que oferecem alojamento e até comida. Quando não encontra um abrigo também não tem problema: monta sua barraca e prepara a refeição em algum canto. Agora, ele quer terminar de percorrer o Brasil, depois parte para Venezuela e chega as Guianas, antes de voltar para casa. Mas, não está em seus planos parar o projeto, não. Ele quer mesmo é ir para a América Central e sonha ainda mais alto, por que não? “Comecei pelo meu continente, quem sabe no futuro atravesso o oceano”, diz ele, que no carnaval fez uma pausa para ver de perto no Rio de Janeiro o desfile da Vila Isabel, sobre a América Latina, e se emocionou. “É muito bonito ver esse ressurgimento da identidade latino-americana, os povos juntos em prol de uma cultura, porque não é a economia que vai nos aproximar, é a cultura”, analisa, coberto de razão.

Serviço:
Exposição: América do Sul Rupestre, obras de Santiago Plata.
Onde: Espaço Arte e Design da UFPR (R. Gal. Carneiro, 460).
Quanto: entrada franca.
Quando: Até 24 de março.
Informações: (41) 3360-5251.

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Pablo Oruê
 

Adorei a matéria.
Muito bem escrito e o assunto de grande relevância.

Pablo Oruê · São Paulo, SP 12/8/2006 18:09
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