Considerações sobre a poesia sul-mato-grossense

Divulgação
O poeta do improviso Guaicuru Ruberval Cunha
1
Gisele Colombo · Campo Grande, MS
24/3/2008 · 53 · 1
 

Em 21 de março comemoramos o dia mundial da poesia. O poeta sul-mato-grossense Ruberval Cunha, faz uma reflexão e fala sobre a receptividade do público de Mato Grosso do Sul a esta linguagem, e destaca os poetas que construíram o cenário poético literário do estado e daqueles que vêm conquistando seu espaço em terras sul-mato-grossenses:

Como é a receptividade do público de Mato Grosso do Sul à poesia?

Ruberval Cunha – Eu acho que aí vai depender do local em que você tem esse contato. Nas escolas, há anos eu ouço muitos professores dizerem que a poesia é démodê, que as pessoas não gostam de poesia, que crianças e alunos não gostam de poesia. Você chega nas escolas e às vezes têm um certo melindre, quando você diz que vai falar de poesia. Pensam que você vai dizer: “batatinha quando nasce, esparrama pelo chão”. Aí quando você mostra uma outra linguagem, que é mais próxima da deles, que dependendo da faixa etária, você pode mandar “à merda” na poesia e que você pode dizer que “o amor é maravilhoso” ou que “sente saudades”, mas com outras palavras, por exemplo: “Todos os dias/ sua ausência me visita”, eles começam a se identificar com a poesia. Normalmente existe uma desconfiança inicial de boa parte do público, depois acaba se instalando no espaço uma aceitação do poema porque se percebe que a poesia faz parte de nossas vidas. Nas oficinas ou palestras, costumo fazer a comparação da poesia com as coisas simples. Como por exemplo, uma bala chiclete. Aí as pessoas dizem, o que é que tem a ver a poesia com uma bala chiclete? Isso é comum nos públicos. Essa surpresa e simplicidade levam a refletir. Lidando com o público precisamos tentar criar surpresas e uma forma para que eles se sintam ou inebriados, ou parte da realidade poética ou ambos. No caso da bala, vou brincando com essa idéia, estabelecendo comparações. A bala tem um papel que a cobre. A poesia também tem essa aura que a encobre. A bala tem um segundo papel que você precisa retirar para chegar até a bala propriamente dita. Para começar a entender o poema, você tem que sair da superfície, tirar a roupagem aparente que a recobre para chegar até a essência ou essências. Isso é necessário para se descobrir qual é o gosto que a poesia têm. O mesmo você faz com a bala. Eu ainda brinco com eles com a idéia de chiclete, porque a boa poesia,leva as pessoas a refletirem. E quando você chupa uma bala chiclete, chegando na parte do chiclete, que é sua essência, você não come de uma vez. Você fica mascando. E a boa poesia faz você ficar repensando ela. Ela te incomoda, é como uma torneira pingando na pia de madrugada e deixando você acordado. Você têm que tomar uma atitude para ficar em paz com ela. Você pode tentar compreender de maneira emocional ou técnica ou ainda agregar as duas em sua leitura, o que gera uma possibilidade de entendimento quase perfeito. O que não quer dizer que seja a única forma de compreender. Talvez ela te incomode ou te auxilie a vida toda. Talvez dure uma semana ou não dure mais do que uns dez segundos. A multiplicidade de interpretações, o amor, ódio ou indiferença é a grande beleza da poesia.

Quais são os poetas que participaram da consolidação da poesia no Estado e quais são aqueles que vê se destacando atualmente?

Ruberval Cunha – Além do Manoel de Barros que já é reconhecido internacionalmente, tem a Raquel Naveira, que já tem renome e fez um caminho muito interessante. A Raquel nem sempre conhecia pessoalmente escritores de expressão no cenário nacional. Mas ela lançava suas obras, batalhava atrás do endereço destas pessoas e encaminhava seus livros para que elas pudessem manifestar sua opinião. E agindo desta forma, além de atuar no circuito universitário como professora, Raquel conseguiu propagar seu nome em nível nacional. Hoje ela já está com algum espaço em regiões de Portugal, tem livros circulando em Mombaça e algumas regiões da África, em locais onde algumas pessoas têm a influência da língua portuguesa. Raquel Naveira é o segundo nome que eu destacaria juntamente com o Emmanuel Marinho que já tem uma estrada que aproxima a poesia do teatro, estendendo os limites poéticos através da fusão das artes. Existem nomes que foram base para mim em termos de leitura. Pessoas que são históricas, alguns pela qualidade literária outros pela vivência literária que tiveram, como Antônio Papi Neto, Rachid Salomão, Lobivar Matos, Sagramor Farias, Dolores Guimarães. Estas foram algumas pessoas que me influenciaram, seja pelo conteúdo, pelo amor a literatura ou pela forma de viver a poesia. Podemos também citar pessoas de uma nova geração que estão aparecendo ou poetas da minha geração como Sandra Andrade, Carlos Djandre ou Marcelo Ferracinni. Da mesma forma que fomos influenciados acredito que hoje podemos influenciar algumas pessoas e ainda sermos influenciados por outras. A poesia ou sua construção é dialética. A safra mais nova de poetas que está surgindo ou que vai surgir, advém em boa parte de grupos de alunos que fazem oficinas de poesia, sejam elas voltadas para iniciantes ou para pessoas que já possuem alguma experiência na área, além do pendor para a escrita. Muitas oficinas são mais profundas e exigem um maior nível de conhecimento dos partícipes, normalmente aparecem autores com obra publicada. Quando vem alguém de fora com talento e bagagem eu busco participar como aluno, o mesmo fazem pessoas como Nena Sarti e Carmem Lúcia, que também ministram cursos de poesia pela Fundação de Cultura do município de Campo Grande. Fruto do amadurecimento das oficinas e de pessoas que transformaram radicalmente seus trabalhos, posso citar alguns como exemplo: Darci Cunha, Elias Borges, Tânia Gauto e Reginaldo Albuquerque. Sem mencionar ainda pessoas que influenciam o processo de existência da poesia em seus respectivos municípios. Em Corumbá Balbino de Oliveira, Benedito C.G. Lima, em Coxim o Altair, Em Dourados a Heleninha, Em Rio Negro a Zanir Furtado, em Rio Verde a Tânia Mara, em Três Lagoas, e vai por aí afora. Existem nomes que atuam com maior destaque na área da declamação clássica e que agora estão, aos poucos abrindo espaço para interagir com outras formas de declamar, caso da poeta e professora de declamação Elisabeth Fonseca. Creio que nos próximos anos devam surgir bons nomes na área.

compartilhe

comentrios feed

+ comentar
Andre Pessego
 

Muito bom
É bom saber que este movimento, embora tão pouco divulgado, valorizado, e até desconhecido - que o movimento literário, com suas fases, seus altos e baixos - permeia por todos os estados do Brasil.
abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 24/3/2008 20:30
sua opinio: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faa primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Voc conhece a Revista Overmundo? Baixe j no seu iPad ou em formato PDF -- grtis!

+conhea agora

overmixter

feed

No Overmixter voc encontra samples, vocais e remixes em licenas livres. Confira os mais votados, ou envie seu prprio remix!

+conhea o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados