Dead line

1
Luiz Lucena · Curitiba, PR
9/6/2006 · 1 · 0
 

Quando for chegada a hora, seu dotô, quero flor na lapela não. Quero terno bem alinhado não sinhô. Nem moeda nos olhos nem gravata ajeitada que eu nunca que fui de me pentear pra missa nem pra moça. Quero do jeito que fui e sou nessa vida daqui dessa terra, cinta de couro pra segurar o facão, sandália desgastada no arrastão, poeira encalacrada nas unhas, colar das línguas dos faladô e dedos dos alcagüetes. Quero que o diabo me reconheça e deixe entrar. Que me receba com o cálculo na mão pra eu saber no final das contas se as porradas que levei diminui das que dei e se os choros que engoli desconta dos que fiz raiar. Quero assuntar nos olhos do tinhoso pra ver se entendo porque foi despejado do paraíso, das mordomias, e daonde que saiu tanta teimosia pra da lama fazer tamanha maravilha. Vou lá perguntar se precisa de serviços meus, me oferecer pra modo d’ele descansar um pouco que eu garanto a ordem com gosto e maestria. E que nem precisa desconfiar que poder não quero não. O que me arrepia é só uns olhos pra cegar, dente pra serrar, testículo pra cozinhar e fazer engolir com água fria. Quero saber se o danado tem mesmo gana da dor ou se já envelheceu a rebeldia. Quero botar lenha no inferno pra ver se desanco a distribuir toda porcaria. Porque é tanto peso pra um só, seu dotô, que me admiro de ter agüentado tanto tudo, sem um mínimo alento em nenhum raiar do dia.

compartilhe

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados