Quando for chegada a hora, seu dotô, quero flor na lapela não. Quero terno bem alinhado não sinhô. Nem moeda nos olhos nem gravata ajeitada que eu nunca que fui de me pentear pra missa nem pra moça. Quero do jeito que fui e sou nessa vida daqui dessa terra, cinta de couro pra segurar o facão, sandália desgastada no arrastão, poeira encalacrada nas unhas, colar das lÃnguas dos faladô e dedos dos alcagüetes. Quero que o diabo me reconheça e deixe entrar. Que me receba com o cálculo na mão pra eu saber no final das contas se as porradas que levei diminui das que dei e se os choros que engoli desconta dos que fiz raiar. Quero assuntar nos olhos do tinhoso pra ver se entendo porque foi despejado do paraÃso, das mordomias, e daonde que saiu tanta teimosia pra da lama fazer tamanha maravilha. Vou lá perguntar se precisa de serviços meus, me oferecer pra modo d’ele descansar um pouco que eu garanto a ordem com gosto e maestria. E que nem precisa desconfiar que poder não quero não. O que me arrepia é só uns olhos pra cegar, dente pra serrar, testÃculo pra cozinhar e fazer engolir com água fria. Quero saber se o danado tem mesmo gana da dor ou se já envelheceu a rebeldia. Quero botar lenha no inferno pra ver se desanco a distribuir toda porcaria. Porque é tanto peso pra um só, seu dotô, que me admiro de ter agüentado tanto tudo, sem um mÃnimo alento em nenhum raiar do dia.
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