DEUS E O DIABO NUM REPIQUE DE VIOLA

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Carlos Alberto Rodrigues Alves · Curitiba, PR
25/9/2009 · 0 · 0
 


Foi Guimarães Rosa quem melhor descreveu... Foi Glauber Rocha quem melhor encenou... Mas foi a dupla Edu Lobo e Capinam quem melhor cantou a trama acima.
Tudo está codificado em poucas palavras na canção “Viola fora de modaâ€, um mantra bem aos moldes-mágicos da literatura surrealista. Nela, o “Tinhosoâ€, debochado, apresenta-se para tentar fazer um pacto com um violeiro infeliz. Esse violeiro é uma metáfora de nós mesmos na dança da vida.
Veja a releitura que, tirando as alparcas dos pés, arrisco a fazer:

“Moda de violaâ€

Moda de viola é o espaço artístico/religioso onde sempre há pelejas místicas entre Deus e o “Cãoâ€. Disso sabem muito bem os violeiros que , no sertão do Urucuia, entre um benzimento e outro, vivem proclamando nas noites de lua cheia: “Bom violeiro ou vem de Deus ou vem do “Demoâ€.

“De um cego infeliz podre na raiz, ah, ahâ€

A canção é um lamento “de profundis†que brota de uma alma que se sente relegada ao Hades-da-condição-humana. O violeiro é cego, infeliz e podre na raiz. Mas, apesar do inferno da inutilidade, ele ainda canta, nem que para isso precise ouvir um eco de sarcasmo-sepulcral: “ah, ahâ€! Violeiro não vive só de amor e comédia. Ele tira versos da tragédia que o amarga nos dramas históricos. Faz coro com Nietzsche: â€Amo aqueles que não sabem viver a não ser como os que sucumbem..."

“Vivo sem futuro, num lugar escuro, e o diabo diz, ah, ahâ€

Nos porões da existência, esse assum-preto-sub-homem, escancara a sua falta de perspectiva. Mais..., tem que ver cara-a-cara o responsável direto pela situação: o “Bode-pretoâ€, que, não bastasse ser o causador da infelicidade, deixa a dor ainda mais cruel por continuar a soltar sua ironia-de-penumbra-dantesca ao final da frase melódica: “ah, ahâ€!...
No livro sagrado de Jó, o “Cujo†aparece como um ministro do primeiro escalão de Deus, responsável pelo “controle de qualidade do criadorâ€. Parece que aqui o caso é semelhante.

“Disso eu me encarrego, moda de viola não dá luz a cego, ah, ah!â€

No auge da moda aparece o nó da trama bem à moda roseana: a possibilidade de um pacto com o “Gramulhãoâ€. A frase “disso eu me encarrego†é um eco das palavras apresentadas a Jesus: “Tudo isso te darei se prostrado me adoraresâ€. Aqui o “Coisa-ruim†subestima o instrumento sagrado do moribundo dizendo que ela não dá luz a cego. Era como se dissesse, “jogue fora tua viola e vem comigo†. E ainda continua impingindo-lhe a gargalhada-da-desgraça: “ah, ahâ€...!
Seguem acordes sem palavras...
Conclusões inconclusas:

Amigo violeiro: Não acredite no “Tristonhoâ€. Ele é o pai da mentira! São Gonçalo o espantou. Para isso não usou a cortante espada de São Jorge, mas o poder exorcizante de seus acordes-rio-acima-e-celestiais. Uma viola bem tocada vale por duas rezas!
Agüenta aí cantador! Está escrito nas veredas do Grande Sertão: “Deus é paciência; o contrário é o diaboâ€. Lembre de outro musicante que, fazendo caminho , cantarolava: “Faz escuro, mas eu canto porque amanhã vai ser bomâ€.
Saiba que nos ponteios da vida, o "Todo Poderoso" não tem concorrente. Portanto faça o “Oculto†picar a mula repicando a viola, mesmo que ela seja como a minha, assim, fora de moda!

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