Diário de uma Cafetina – Uma fábrica de sonhos

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Fabiana Campos · Rio de Janeiro, RJ
14/7/2015 · 0 · 0
 

A prostituição moderna oferece hoje seus serviços dentro da residência das melhores famílias brasileiras. Quase todos os jornais das capitais e das principais cidades escondem em seus cadernos de classificados um tipo de anúncio que revela a ponta de um imenso iceberg, fora os classificados similares na internet com fotos e vídeos. Ocultos em discretas seções de massagistas, termas, notas sociais e outros eufemismos, na verdade ali se anunciam centenas de agências de aliciamento e lenocínio, com milhares de acompanhantes catalogadas numa faixa dos 18 aos 35 anos e que podem servir de companhia para homens e acompanha-los em festas ou viagens, sempre com disponibilidade também para o sexo, atendendo a qualquer tipo de preferência. Essa serie que começamos a a publicar nesta foi extraída do diário de uma cafetina (ainda na ativa) de Copacabana, mas cujo nome foi substituído por pseudônimo para resguardar interesses de seus filhos, que nada tem a ver com as atividades da mãe. O esclarecimento e a atualização de certos trechos foram feitos mediante uma serie de depoimentos dessa vendedora de sonhos.

Desperto-me com a estridência do telefone celular. Abro os olhos lentamente, estendo o braço preguiçoso e atendo com a voz pastosa de sono. O sotaque não deixa dúvidas: "Chegarei as dez horas." Era um velho amigo da casa, empresário italiano do ramo de pedras preciosas, saindo de Nova Iorque daí a pouco.
Anoto no caderninho que tenho de providenciar para que uma de minhas meninas — loira, alta, seios fartos mas empinados, olhos verdes e que fale italiano — esteja no aeroporto a sua espera. A essa altura já terei alugado carro com chofer, reservado a melhor mesa no Antiquarius, seu restaurante predileto, e providenciado sua entrada na melhor boate da do Rio de Janeiro.

Assim, ele poderá passar a noite na companhia da jovem. Um arranjo perfeito, e para ele tão simples. Amanhã ela o levará de volta ao aeroporto. Talvez até o acompanhe a Berlim ou Londres e fique com ele uns dias ou semanas. Enquanto cuida de seus negócios ele, ao mesmo tempo, se diverte.

Assim, ele poderá passar a noite na companhia da jovem. Um arranjo perfeito, e para ele tão simples. Amanhã ela o levará de volta ao aeroporto. Talvez até o acompanhe a Berlim ou Londres e fique com ele uns dias ou semanas. Enquanto cuida de seus negócios ele, ao mesmo tempo, se diverte.

Terei de telefonar para o restaurante para reservar a mesa. "Desculpe" , dirão, "mas estamos lotados". Só insistindo: "Quem esta falando é Anna Lacerda". "Ah, bem, teremos a melhor mesa para a senhora!" É sempre assim, mesmo clubes privados, que só deixam entrar sócios, aqui no Rio de Janeiro ou em qualquer cidade importante do pais, acolhem meus clientes com um sorriso e chamando-os pelo nome. Deixo-me escorregar pelo lençol de seda, levanto-me espreguiçando, abro a pesada cortina de veludo vermelho e os raios de sol invadem a suíte, em minha cobertura na Avenida Atlântica. Ainda é muito cedo para as meninas que dormiram as quatro, cinco, da madrugada. Mas eu já tenho de agir, pois coloquei anúncios nos jornais e em sites terei de ir atendendo ao telefone enquanto as meninas não se levantam.

Atualmente, moram apenas 12 em minha casa, nos bons tempos mantive ate 40, num belo e insuspeito sobrado do Leblon. Mas tenho centenas de belas garotas de fino trato, catalogadas na faixa dos 18 aos 30 anos, cultas, algumas estudantes universitárias, modelos e manequins e também ex-secretárias de empresas de alto nível e que podem servir de companhia para executivos solitários, acompanhar em recepções e festas, funcionar como intérpretes, secretárias, sempre com disponibilidade também para viagens. Moças de fino trato para quem não quer recorrer a garotas de programa, bordéis, termas, inferninhos.

Enquanto Celina, minha secretaria, me serve o café na varanda, folheio rapidamente os jornais, aproveitando o saudável sol da manhã. Há muito tempo não colocava anúncios em sites e jornais, mas nesta quinta-feira decidi anunciar meu serviço de alta rotatividade — de menor lucro, mas de maior volume — e também recrutar novas meninas, pois o fim das férias e o Carnaval dizimaram meu plantel: muitas viajaram, outras abriram seus próprios negócios e teve até algumas que se casaram. Uma menina permanece em minha casa de duas semanas a sete anos. Aquelas que chamo de minhas filhas ficam de um a dois anos, até terem aprendido tudo. E partem porque se transformaram em mulheres realmente extraordinárias e encontraram um homem que as convenceu disso.

Toca o telefone na sala. Pela cor do celular que Celina me traz, trata-se do anuncio. Celular pré-pago, para evitar aborrecimentos futuros. A candidata trabalha no ramo, com madame Suzana, mas teve um problema lá com o marido da agenciadora e preferiu sair. Estiquei a conversa: ex-modelo e manequim foi trabalhar no ramo de Acompanhantes para preencher o tempo ocioso entre um desfile e outro. E não se arrependeu. Quase sempre ganha presentes e boas gratificações, e raramente tem de aturar companhia desagradável: "São homens finos, verdadeiros cavalheiros", ela confirma. Mandei-a vir conversar na parte da tarde.
Assim, até o final do dia já terei atendido uma centena de candidatas. Para servir aos figurões e milionários, tenho de fazer uma rigorosa seleção. Tudo não passa de uma troca de bons serviços e eu recebo uma comissão, como se fosse uma agencia de modelos ou de turismo. Foi assim que consegui formar meus dois filhos na universidade, ter seis apartamentos e uma chácara, além de carros, joias e roupas muito caras.

Na avaliação, o critério físico é importante, mas não é tudo. Em primeiro lugar, devem ter rosto e corpo bonitos. Ter uma coisa e não ter outra não é o bastante. Em segundo lugar, devem ser inteligentes e bem educadas. E, em terceiro, vem o desempenho sexual. Mas isso também não é tudo, preciso aquele algo mais, impreciso e indefinível, que conquista os homens: um certo ar angelical, um modo de andar, de falar, os gestos displicentes mas cheios de graça. Coisas difíceis de ser ensinadas, já nascem com a pessoa. O restante se aprende, o bom gosto em se vestir, a elegância, as maneiras adequadas, a arte de encher de vento a vaidade masculina. Tudo isso eu ensino, exigindo obediência e disciplina. Assim, o guarda-roupa das meninas é rigorosamente clássico. Um mínimo de calças compridas. Jeans, tênis ou botas, jamais. Meias e ligas: indispensáveis. Nunca perucas, lentes de contato. Nem perfumes. Afinal, tenho de pensar em tudo: o cheiro pode ficar na roupa do homem, criando-lhes problemas em casa.

O outro telefone, também pré-pago, para o serviço de alta-rotatividade, dispara, e Mônica, bela morena de olhos verdes, ainda preguiçosa e languida em sua camisola de seda — presente de um grego — ajuda-me a dar as informações.

Daí a pouco, começa a algaravia das outras dez garotas, quando acordarem, todas querendo contar como foi a noitada de ontem. Essas reuniões informais são importantes para todas saberem o que aconteceu com a outra, como ela reagiu aos imprevistos, e para eu poder orientá-las em como deveriam ter agido, se perceber alguma incorreção.

Mônica tinha dado uma surra de raquete de pingue-pongue no rico empresário, com quem saiu ontem, chamou-o de homem sujo e de uma porção de palavrões. Mas isso já é historia antiga. Há muito tempo ele sai com minhas meninas. Sempre que tem gente nova, ligo para ele; que me encomenda o que há de melhor e paga regiamente. Uma vez ele saiu com Mônica e descobriu, um pouco tarde, e graças a ela, esse seu viés masoquista. Sem que tivesse sido combinado, ele quis comer-lhe a bundinha a força. Furiosa, ela lhe bateu no rosto. Ele gostou tanto da experiência que passou a pagar muito caro para que ela repetisse inúmeras vezes o gesto, o que a deixava com as palmas das mãos vermelhas. Ontem, ela inventou de levar uma raquete na bolsa, o empresário foi ao delírio.

Através do sexo é que as verdades mais secretas e profundas do individuo são reveladas. Assim, o que sei sobre os aspectos pitorescos da vida sexual de gente importante dá para encher vários volumes de memórias. Gosto de recordar, por exemplo, o caso de um banqueiro, cujo nome aparece frequentemente nos jornais, que costuma ir para a cama na companhia de casais, mas acaba se satisfazendo sozinho, com a ajuda de uma vela.

Tinha um prefeito do interior do Estado do Rio — já no segundo mandato — que sempre usou minhas meninas em suas festinhas particulares para agradar a correligionários e conterrâneos. Mas sempre as encomendava por telefone, não me conhecia pessoalmente. Quando me viu pela primeira vez, ficou impressionado, dizendo nunca ter visto mulher com tanta classe.

E me fez uma proposta estranha: pagaria o dobro de meu preço normal se eu concordasse em participar de umas festinhas especiais. Era a moda swing chegando ao Brasil, e o prefeito queria entrar na onda de comer a mulher dos outros, mas sem colocar a dele no fogo. Topei. Depois de muito mistério, troca de e-mails com outros casais, remessa de fotos em que posávamos como marido e mulher, ele acabou escolhendo um casal. Quando olhei as fotos, levei um susto, pois a tal esposa do outro era a Sandrinha, uma de minhas meninas. Embora eu nunca pergunte a elas com quem são casadas ou se são filhas de alguém importante, tinha certeza de que aquela não era mulher de nenhum diretor de multinacional. Tive vontade de contar para meu prefeito, mas acostumada a correr riscos, resolvi correr mais esse. Fomos ao encontro do casal, e tudo se passou de maneira muito formal com jantar a luz de velas e champanhe. Acabamos a noite entre lençóis do Vip's Motel: o prefeito me pagando para transar com outro só para poder comer Sandrinha, que o outro pagava para passar por mulher dele. E isso aconteceu muito naquela época. Já passei por mulher de ministro, senador e altos empresários para fazer swing. E minhas meninas também.

Quando eu era moça — hoje tenho mais de 40 — tive um amigo que sempre me escolhia. Na época era um bom pintor, mas absolutamente desconhecido do publico. Hoje suas telas valem fortunas, faz exposições no mundo inteiro e seu nome é disputado nos espaços da imprensa. Mas a gente nunca transou. Ficava eu no quarto, de roupa e tudo, em pé ou sentada, observando aquele homem imenso e totalmente nu, que nunca dizia uma palavra. Ele andava de um lado para o outro, o pau enorme, duríssimo, apontando em minha direção. De vez em quando ele examinava no espelho o corpanzil bem-cuidado e parecia satisfeito com o que via, voltando-se orgulhoso em minha direção. E conversava, falava de sua infância, de livros, viagens. Ele pagava bem e eu cumpria meu papel ridículo de mera observadora, embora muito satisfeita pois não me exigia esforço algum.

Numa tarde, porem, eu estava realmente com a macaca, louca de tesão, e não podia ficar só olhando aquele monumento de homem em minha frente, um desperdício. Ele se virava de perfil, eu com o olho fixo. Ficava de frente, eu mais excitada ainda. Observava com expressão angelical, mas os demônios soltos dentro de mim, imaginando como seria bom comer aquele macho. Quando ele se virou novamente para se admirar no espelho, não resisti aquele corpo tão bem talhado, me aproximei e abracei-o por trás. Ele virou uma fera, atirando-me longe no chão: "Não me toque", urrou. Seu pau murchou totalmente. Ele se vestiu depressa e foi embora sem pagar. Nunca mais me procurou.

Havia também aquele repórter de televisão, que exigia que houvesse um aparelho de TV no quarto. Na hora exata, ele entrava no apartamento, ia direto ao televisor, desligava-o e postava-se a frente do aparelho, fazendo pose. Minha menina, cortês e fingindo surpresa, deixava-o posar e depois perguntava: "Mas não era você que estava no programa?" Encantado, babando de euforia, mas simulando modéstia, ele baixava os olhos e sussurrava: "Ah! Você me reconheceu!" Pagava bem, mas faz tempo que não me procura, pois agora só faz programa ao vivo.

Os homens mais inteligentes e cultos são os mais decadentes e pervertidos. E exatamente os mais ricos e os mais importantes são quase sempre os que desejam ser subjugados sexualmente. Nós lidamos com as fantasias mais loucas dos homens e descobrimos como eles são frágeis na intimidade. A maioria dos clientes é de homens casados e solitários, muitos querem apenas conversar.

Existe muito menos perversão sexual do que as pessoas pensam. Os homens tem uma necessidade muito maior de segurança quanto ao desempenho sexual do que de sexo pervertido. E há diferença entre fantasia sexual e perversão. Acho que perversão é encontrar prazer sexual naquilo que outros teriam nojo, veriam feiura, se escandalizariam. Mas não acho que um homem que queira fazer amor com duas mulheres ao mesmo tempo seja pervertido. Não acho que o homem que, para gozar, precisa ser esbofeteado ou amarrado seja pervertido. Tudo não passa de uma fixação da infância: o que ele quer é imaginar que ainda é um menino com sua baba. Muitas de minhas meninas ficam espantadas de ver esses homens tão poderosos, importantes e célebres portarem-se como meninos em sua companhia. Querem apanhar, querem ser levados para a cama, aconchegados ao colo, como nenéns. Eu acho excitante ouvir um ministro de Estado ou um milionário solicitar, com uma voz de criança, aquilo que somente eu lhe posso dar, porque na realidade eles são muito mais frágeis e sinceros do que o verdadeiro sexo forte, as mulheres.




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