Sexo e underground um resumo de todos nós. Parte 1

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Fabiana Campos · Rio de Janeiro, RJ
23/7/2015 · 0 · 1
 

Eminentemente didáticas e representando o pensamento médio do brasileiro da época — talvez aí uma das explicações do seu incrível sucesso —, eram portadoras de um linguajar próprio que influenciou pelo menos três gerações, além de ensinar comportamentos e posições sexuais que o adolescente, sem nenhuma informação, jamais poderia imaginar. E, com todas as deficiências e preconceitos, preparava-o para enfrentar situações semelhantes na vida real.

As revistinhas eram motivo para intermináveis masturbações, não raro vinculadas a um certo complexo de culpa. Sobre os masturbadores pairavam
todos os tipos de ameaças, indo do insólito nascimento de pelos nas mãos prazerosas, até tuberculose, miolo mole e morte. Por isso, depois de algum tempo, o pecador costumava rasgar os exemplares e poucos chegavam a formar uma bíblia.

Explicando melhor: cada exemplar era conhecido também como catecismo. A coleção de 12 catecismos encadernados formava um testamento. A primeira coleção recebia a denominação de velho e uma segunda de novo testamento; e, finalmente, quem possuía 24 historias encadernadas num mesmo volume dispunha de uma invejável bíblia. Mas, como é de se supor, não existiam duas bíblias iguais, pois os títulos, dizem os bibliófilos no tema, chegam a mais de 500. Entre os vários desenhistas das revistinhas de sacanagem, pelo menos um se destacou dos demais pela qualidade das estórias, pela empatia com a mentalidade do leitor, a moralidade vigente e, sem dúvida, pela originalidade. Foi Carlos Zéfiro, naturalmente um bem escolhido pseudônimo de alguém que preferiu continuar até hoje no anonimato. Com o passar dos anos surgiram várias teorias sobre a identidade de Zéfiro, mas o verdadeiro nunca se manifestou. Uns dizem que ele morreu por volta de 1970 (quando as revistas originais desapareceram, prevalecendo as reedições), mas há de se considerar a repressão politica, a invasão das revistas a cores, principalmente da Suécia e da Dinamarca, e o advento de uma nova moralidade; outros alegam que ele se arrependeu da obra e tornou-se um pacato chefe de família, e não falta quem afirme que ele tenha se tornado um famoso desenhista e que passou a viver disso. Folclore a parte, as revistinhas de Carlos Zéfiro marcaram varias gerações e hoje começam a sair do campo proibitivo e a ganhar status na área da sociologia.

Pelo menos duas obras resgataram Zéfiro do mundo da subliteratura, O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro, uma análise de Otacílio D'Assunção, e A Arte Sacana de Carlos Zéfiro, uma edição organizada por Joaquim Marinho com textos de Roberto da Matta, Sérgio Augusto e Domingos Demasi.

Otacílio D'Assunção lembra, por exemplo, que Zéfiro conduzia a narrativa das historias tão bem que em nenhum momento quebrava a ilusão de que aquilo era apenas um livreto mal impresso. Uma arte que poucos profissionais dominam e que revela a criatividade do autor. As revistinhas refletem o "inconsciente coletivo da sacanagem" transposto para uma mídia rudimentar mas eficiente — completa Otacílio.
O protótipo da aventura Zeferina consiste mais ou menos no seguinte: o protagonista (quase sempre homem, falando na primeira pessoa para se identificar com o leitor) é um viajante a cata de aventuras excitantes, ou um jovem inexperiente que se sente atraído por uma mulher e passa a desejá-la. Em seguida vem um galanteio ou um ato de voyeurismo através de um buraco de fechadura. Há toda uma encenação de preliminares antes do sexo final. Sempre começam vestidos, vão tirando peça por peçaa (a mulher usa calcinha e sutiã, quando não também anágua) e terminam fazendo tudo. Basicamente as historias se resumem nisso. Mas também ha algumas variantes, sendo uma das mais incríveis a contada por um sofá, Vida, Paixão e Morte de um Sofá, que começa assim: "Creio que nasci sob o signo da sacanagem...", afirma orgulhoso o sofá ao iniciar sua autobiografia. Passou apenas um dia na vitrine, antes de ser comprado por uma polaca do Rio de Janeiro dona de um bordel (casa de Garotas de Programa hoje em dia...) destinado a encontros amorosos. O sofá vai fazendo um relatório completo de todos os que passaram por ele, com comentários nostálgicos do tipo: "Quanta bunda boa sentou em minha mola máscula", numa linha de pensamentos sempre chegada para o sexo masculino. Mas, no dia seguinte ao defloramento de uma virgem, a festa acaba; a polícia chega, prende a polaca e fecha a casa de Acompanhantes do Rio. O protagonista é vendido para um consultório médico, mas nem por isso deixa de ser usado para fins libidinosos: uma cliente que sempre chegava no final do expediente obtinha um "tratamento especial". Até que o marido chega, mata os dois e novamente acaba com a festa de maneira trágica. O sofá é então vendido para uma casa de família, mas continua mantendo o seu comportamento de sempre, pois todos na casa se utilizam dele. Até que, quando chega um casal de cachorros para trepar, o sofá acha um desaforo e se desmantela voluntariamente. No lixo, ele fica relembrando com saudades todas aquelas transas.

Um dado importante a assinalar e a brasilidade das histórias contadas por Zéfiro. Enquanto outros autores de sacanagem colocavam seus personagens em épocas remotas, inclusive utilizando figuras históricas como Cleópatra, Júlio Cesar e Napoleão, Zéfiro — com sua marca inconfundível e mil furos acima dos outros — só criava historias brasileiras contemporâneas suas, ampliando assim a empatia com o leitor.

Como já foi dito, ele era um genial contador de historias, mas fraco desenhista. Chupava Os desenhos dos outros autores, baseava-se em obras famosas e até escultura de Rodin, foi plagiada algumas vezes. Mas ninguém estava a procura dos traços de um Caniff ou de um Alex Raymond, de um Robert Crumb ou Gilbert Shelton. As referencias visuais são completas e contundentes. Para uma boa masturbação, uma sugestão basta, devia pensar o pouco exigente público de então.

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Fabiana Campos
 

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Fabiana Campos · Rio de Janeiro, RJ 23/7/2015 04:58
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