Sexo e underground um resumo de todos nós. Parte 2

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Guy Ferraz · Rio de Janeiro, RJ
23/7/2015 · 0 · 0
 

Em termos de conteúdo psicológico, quase todas as historias de Zéfiro consistem em relações entre homens e mulheres, mas não somente no plano sexual. Ele era — descontadas as limitações literárias, profundo conhecedor da natureza humana. O herói, normalmente protagonista, nada mais era do que uma projeção do próprio Zéfiro, ou seja, do homem brasileiro médio, em outras palavras, do leitor. O herói é sempre um homem solitário e quase nunca casado. Se era, no momento estava disponível quer por viuvez, por uma solidão, temporária, uma insatisfação sexual com a mulher ou uma separação. Ali já se nota uma ponta do moralismo reinante no mundo da época. O herói é vaidoso, razoavelmente bem-dotado, com alguma ou muita experiência sexual. E sempre um conquistador irresistível e pronto para aproveitar todo o seu potencial.

O tabu da virgindade á abordado por Zéfiro sob a Ótica, daqueles tempos. A moça virgem relutava em se entregar o cabaço, e as posições comuns eram o sessenta-e-nove e a cópula anal. Só posteriormente, quando não aguentava mais, ela acabava implorando ao macho ardente que acabasse tudo e fizesse o serviço completo de uma vez. Mas, como o rompimento da virgindade representava um compromisso, os homens relutavam em fazê-lo intencionalmente. Mesmo fazendo o papai-e-mamãe, faziam-no com cuidado, tipo "só a cabecinha", e os defloramentos só ocorriam devido a uma excitação exagerada.

Como um bom espelho da sociedade, as historias de Zéfiro não escondem um certo preconceito racial velado. Em A Negrinha, o protagonista passa umas férias em uma fazenda e seduz a serviçal, tirando-lhe a virgindade. As férias acabam e ele se manda, deixando-a sem dar a menor satisfação, atitude diferente de A Desforra, em que o mocinho fica só na sacanagem com a filha do prefeito (condição social superior) e só a come depois de casado "de papel passado".

Outro tabu, o do incesto, também aparece na vasta biblioteca Zeferina. Nela encontramos pais transando com filhas, filhas transando com mães, tio com sobrinha, sogro com nora, primo com prima. Entretanto, nunca foi encontrada uma Única historia de filho transando com a própria mãe nem irmão transando com a irmã. Sintomático. Há uma omissão em toda a sua obra de relações edipianas. A mãe do personagem principal não aparece e não pode nem ser citada. Zéfiro tinha uma norma de conduta dentro dos padrões da sacanagem da época. Com a mãe e com a irmã, não! As dos outros, tudo bem, e como
gostam... Inconscientemente, autor e leitor compactuavam. Até mesmo outro assunto proibido, o homossexualismo, masculino e feminino, aparece em algumas historias com bastante tolerância, principalmente se considerarmos a época. Pode-se até afirmar que Zéfiro encarava o homossexualismo com naturalidade e certa simpatia. É importante notar que as cenas de sodomia nos livretos são mais numerosas do quo as do sexo dito "normal". As moças virgens relutavam em dar "a frente", mas deixavam seus namorados se servirem dos seus traseiros tantas vezes quantas quisessem. Além disso, o inconsciente coletivo do brasileiro reza que viado é somente quem dá, ou seja, faz uma diferenciação entre ativo e passivo que para o europeu não tem o menor sentido.
Já os personagens masculinos, ao verem duas mulheres transando, consideram a coisa normal e até excitante. Depois de ficarem olhando algum tempo acabam entrando na sacanagem, sendo uma maneira de Zéfiro iniciar uma cena de bacanal. Como vimos anteriormente, nem em toda a sua irreverente carreira, Zéfiro quebrou uma serie de tabus utilizando todos Os tipos de cenas. E nem a Igreja escapou das suas investidas. Muitos padres e freiras entram para o rol dos personagens zefirianos como em O Noviço e O Filho do Diabo. Ele não foi o primeiro a desmistificar a vida sexual dos religiosos, mas nunca antes alguém o fez com tanta liberdade!

Outro dado interessante e possível de ser detectado na sua obra: Os homens não confidenciam entre si suas aventuras amorosas. Geralmente o personagem masculino das historias de Zéfiro é um solitário e não tem amigos homens. Sempre se reporta diretamente as mulheres que vai comer, e os outros homens quo aparecem são meros acessórios da história, como porteiros de hotel, vendedores etc., ou mesmo os maridos que vão ser corneados. Mas, do um modo geral, o homem zefiriano não dá satisfações a ninguém.

As mulheres, entretanto, estão sempre conversando entre si sobre seus anseios e frustrações intimas. Ou então confidenciam os problemas aos seus amantes, quando estes atuam como psicólogos. A cumplicidade entre homem e mulher (fora dos limites de uma sacanagem) é menor que entre uma mulher e outra mulher.

Segundo Sergio Augusto, o Brasil pode se orgulhar de mais um gesto pioneiro, o de lançar o gibi pornô underground representado pelos quadrinhos eróticos de Zéfiro. Quando Robert Crumb lançou o primeiro número de All New Zap Comix, em 1968, as safadezas zefirianas há anos corriam soltas pelo Brasil
afora. Naturalmente que perto de Crumb "o nosso Zéfiro é um Cro-Magnon em matéria de sofisticação gráfica e ambição intelectual" — analisa Sergio Augusto.

Já Roberto da Matta chama a atenção para uma curiosidade no universo da sacanagem brasileira que é o use de metáforas culinárias ricamente exploradas nos livrinhos de Zéfiro. Assim, eles são plenos de verbos como cheirar, lamber, mordiscar, chupar, comer. As vaginas são admiradas como sendo "frescas e cheirosas", possuindo "lábios carnudos" que são também "perfumados e quentes". Da Matta continua o seu pensamento concluindo que "de fato, no auge do prazer, há uma saudável confusão entre o gostoso do ato e o gostoso do parceiro (ou parceira), o que permite dizer, filosófica e semi-oticamente, que o sexo para nos é uma atividade que certamente concebemos como capaz de juntar continente e conteúdo, o interno com o externo, o de fora com o de dentro, a fachada com a realidade, a pele com a carne e o sangue, o cálculo frio com a paixão desembestada, o eu com o outro, a vida com a morte; naquela famosa esperança de relacionar as coisas do mundo que me parece tão tipicamente brasileira". O brasileiro situa o sexo numa zona especial: entre

o super-sério (aquilo que os antropólogos chamam de sagrado) e o superdivertido (aquilo que nos chamamos de sacanagem, anedota e piada).

Quer dizer, ou o sexo é inferior, visto como algo divertido e sujo, algo para gente desqualificada, coisa de cretinos; ou ele é encarado como sendo algo superior, algo que deve estar sob o controle e a serviço da reprodução e da família, do casamento e da moralidade crista. Mas entre esses dois mundos da sexualidade brasileira, há um abismo, um fosso intransponível. Assim, para Roberto da Matta, “a ideologia dominante da nossa sexualidade é algo dividido entre a casa e a rua, o prazer e o dever, o homem e a mulher”. Nos livrinhos de Zéfiro, uma pesada moralidade pune, paradoxalmente, todos os atores que abusam muito de sua sorte sexual, perdendo de vista os limites entre essas verdadeiras arenas de sexualidade.

Na concepção de Da Matta, a sacanagem é a categoria social que faz uma síntese entre sexo como dever, e sexo como perdição. E como se tivéssemos uma sexualidade domesticada que funciona dentro de casa, sexualidade inteiramente controlada polo pai-marido e que está a serviço da família junto com uma sexualidade concebida como avassaladora e arruaceira: um sexo praticado na rua e na vida, coisa de Acompanhantes, Garotas de Programa e malandros. Assim, a sacanagem de Carlos Zéfiro é uma ponte entre o sexo liquidado pelas rotinas e moralidades domésticas e o sexo quo destrói, estigmatizando os seus praticantes.

É interessante notar na obra zefiriana a diferença dos papéis entre o homem e a mulher. O homem age mais externamente, tendo poucas reações internas. Já a mulher reage de forma enfática as caricias recebidas. Se no inicio, nas ditas preliminares, é o homem quem fala mais, depois da ação sexual iniciada, É a mulher quem passa a comandar suspirando todo o tempo: "Ai, querido! Beije-me! Ai, como é gostoso! Faça mais, sem parar! Isso! Quero ser todinha sua...", e outras expressões do gênero. O certo é que esses gritos e sussurros, esses comandos e suspiros das heroínas brasileiras de Zéfiro contrastam em muito,
por exemplo, com a ausência de paixão descrita pelas mulheres norte-americanas no Relatório Hite, onde, num universo sexual verdadeiramente cinzento, há violência e ausência do prazer e da sacanagem. O desenho de Zéfiro permite justamente recriar a atmosfera ideal da sacanagem, fazendo com que a ,atividade sexual nua e crua possa surgir revestida de paixão. É o que se poderia chamar de amor à brasileira.

Por tudo isso é quo as histerias de Miro conseguem prender tanto a atenção e serem sucesso. Elas são plausíveis porque trabalham com a lógica da fantasia sexual do brasileiro e apresentam, claramente, as nossas preferencias e limitações. A nudez total é altamente ritualizada numa gradação de cima para baixo: primeiro as peças de cima e finalmente a calcinha ou a cueca. Há uma vergonha do nu e cru como se fosse preciso primeiro conhecer, criar elos e relacionar-se para depois então poder abrir-se ao sexo de modo franco e desinibido. E nesse universo o olhar é importantíssimo. O olhar indica o relacionamento gradual que parece ser também o padrão no caso brasileiro.
Para Roberto da Matta, a atração que os livrinhos de Zéfiro exercem é dada pela sua capacidade de formular as grandes questões de paixão humana de forma reduzida. "Numa escala pequena e com uma alta dose de irreverência e prazer. Dir-se-ia, brasileiramente, de forma impagavelmente sacana e malandra. Creio que por ter passado o sexo pela sacanagem que Carlos Zéfiro virou uma (espécie de Spartacus do mundo sexual brasileiro). Pois quando a repressão grita desesperada: quem é afinal Zéfiro? todos nós respondemos em coro, com aquela convicção formidável: Zéfiro somos todos nós...”


Carlos Zéfiro nasceu no Rio de Janeiro-RJ e é o pseudônimo de Alcides Aguiar Caminha. Durante as décadas de 50 e 70 foi o principal escritor de quadrinhos eróticos do Brasil.

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