Improvisação e Free Jazz no Brasil: temos futuro?

free improvistion
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akirarw · São Paulo, SP
7/6/2010 · 6 · 0
 

Num sábado típico de outono, de céu limpo e ensolarado, com baixa temperatura, encontrei com um amigo: o músico especializado em Improvisação Livre, Antonio "Panda" Gianfratti. Enquanto ele consertava suas peças de bateria no luthier, conversamos sobre vários assuntos, principalmente, claro, sobre música. Basicamente, lamentamos a distorção sobre o conceito musical difundido no Brasil, do modelo equivocado e segmentado que faz escola até os dias de hoje, como se fosse uma tradição à zelar. Comentei que fui à uma escola de música especializada em Jazz e o professor me disse que suas aulas se baseavam no estilo do trompetista norte americano Woody Shaw. Ótimo trompetista, mas eu caí fora, pois não creio que este seja o melhor método de ensino para um instrumento, centralizando no estilo de um músico em particular: e se fosse apenas usado como um de inúmeros exemplos, poderia ser positivo na didática. Este assunto veio à tona naturalmente, pois estávamos na região da rua Teodoro Sampaio, conhecida como rua dos músicos pela alta concentração do comércio de instrumentos musicais, algumas escolas de músicas e onde ocorrem algumas apresentações músicais. Alí naquelas três quadras vemos o efeito do modelo imposto pelo "sistema" e sua consequente padronização de produtos. Dificilmente se encontra um instrumento como oboé, fagote, saxofone sopranino ou até mesmo outros modelos e marcas de instrumentos mais conhecidos, como saxofones e guitarras. Automaticamente, esta padronização acabou se transferindo também aos músicos, suas referências, preferências e seus estilos. Inúmeras vezes presenciei performances de ótimos músicos no quesito técnico, mas desprovidos de personalidade. Falando em personalidade, quando já estava para se encerrar uma performance musical -- que é promovida semanalmente por uma loja de instrumentos musicais que o público prestigia na calçada -- nós estávamos perto e o Panda ouviu o som de um saxofone tocando e disse-me: "Parece ser o Fábio". Eu respondí que poderia ser, pois ele costuma tocar naquele local. Fábio participou do projeto ao qual o Panda é desenvolvedor, o grupo de Improvisação Livre Abaetetuba, que hoje tem a maioria de seus membros radicados na Europa. Fábio havia se afastado do grupo por divergencias musicais e naquela tarde se reencontrou com o Panda depois de muitos anos. Quando Fábio terminou sua apresentação, se uniu a nós na conversa que se prolongou até certa hora da noite. Discutimos os rumos da improvisação livre, os avanços dela nos países europeus, das dificuldades de espaço, bem como o mantimento do cenário musical provedor desse estilo de arte, que é naturalmente restrito em todo o mundo. Em certo momento, Panda contou sobre sua frustração de não poder ficar residindo na Europa, onde alguns anos atrás teve a oportunidade de fazê-lo, desenvolvendo seu trabalho ao lado de grandes improvisadores do cenário europeu -- ele aconselhou ao Fábio, portanto, que aproveitasse enquanto tivesse tempo e oportunidade, pois essa é uma grande experiência à se vivenciar. Mas o fato do Panda não poder ficado na Europa naquela época, teve seu propósito, pois foi se mantendo aqui no Brasil que ele fez uma sólida parceria com o músico suiço radicado em São Paulo, Thomas Rohrer: juntos, Gianfratti e Rohrer, mantiveram vivas as possibilidades de haver algo mais consistente e pioneiro por aqui. Mas isso também não o impediu dele voltar novamente à Europa e ter novas experiências e fazer novas alianças com outros músicos, como foi o caso da suas parcerias com o contrabaixista William Parker. Ademais, o trabalho da dupla Gianfratti e Rohrer abriu uma porta para outros músicos brasileiros interessados em Livre Improvisação: como foi o caso da jovem pianista Michelle Agnes, e até o meu caso pessoal, pois eu tive o privilégio de participar de bons encontros musicais com esses grandes improvisadores, após 2007.
Como eu disse ao Panda e ao Fábio: talvez em 10 anos, contando com o fim das barreiras de acesso à informação, com o advento da rede mundial de computadores que nos fornece amplo acesso da informação -- e de forma simultânea com os outros países --, possamos vislumbrar um cenário de música de improvisação livre, mesmo que restrito, mas sólido e contínuo em São Paulo ou até em outras partes do Brasil.

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