Maria Joana: "Quem teima mata a caça"

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Fernanda Salvador · Rio de Janeiro, RJ
25/4/2011 · 2 · 0
 

Um lugar que, em meio às agruras de uma vida sacrificada pela pobreza material, consegue servir de inspiração e estímulo para gerar êxito no trabalho guarda muita riqueza. Ser moradora de um "vale que corre pouco dinheiro" não impede a artesã Maria Joana Gonçalves Mendes de extrair satisfação do seu ofício. “Eu tenho orgulho do meu trabalho. Quanto mais eu trabalho, mais eu gosto de trabalhar, traz felicidade e divertimento pra mim”, diz.

Joana nasceu no ano de 1945 em Roça Grande, zona rural de Berilo (Médio Jequitinhonha - MG), onde ainda mora. Com sua mãe, aprendeu a tecer e, aos 12 anos de idade, já trabalhava com artesanato. Reconhecida pelo esmero de seu trabalho, ela tornou sua tecelagem conhecida através da participação em feiras e na associação de artesãos de Berilo, além de percorrer cidades do Vale do Jequitinhonha com uma bolsa cheia de colchas, tapetes, panos em cima da cabeça para oferecê-los de porta em porta.

Seu lugar lhe oferece alguns dos recursos que precisa para trabalhar: ambiente que estimula a criatividade e uma parte da matéria-prima. Poder ser “igual a um passarinho voando” é fundamental para que sua cabeça se sinta livre na hora de criar os desenhos que enfeitam as peças. Do material usado em suas produções, Joana só compra o algodão. A tinta utilizada na coloração, ela mesma vai caçar: “Eu ando no mato com machado nas costas e vou tirando casca de angico, tingui”.

Joana não deixa o estigma de “Vale da Miséria”, a que muitas vezes o Vale do Jequitinhonha é reduzido, ecoar em suas palavras: “Tem esse nome, só que não merece ser falado do jeito que é”. Uma coisa é a pobreza material a que o Vale está exposto, outra é limitá-lo, sem considerar outras formas de riqueza nele existentes, à marca da miséria. Um lugar inteiramente miserável não poderia possibilitar o aprendizado de um ofício e nem oferecer um ambiente favorável para realização dele. "O pessoal é pobre, mas é um vale rico”, diz.

A insistência da pobreza em permanecer na sua terra lhe ensinou a via da persistência: “Quem teima mata a caça”. É teimando que ela, todo dia, caça os meios que fazem a vida valer. “O mundo judia, mas ensina”, reconhece. E Joana aprendeu. Casou e foi feliz junto ao seu marido até que, após 29 anos unidos, ele morreu. Teve 10 filhos, e “Deus colheu dois”. Uma filha faleceu ainda bebê, aos sete meses, de mal de umbigo e o outro filho morreu atropelado, quando estava prestes a completar 21 anos. De tudo o que viveu, ela conclui: “A vida é sofrida, mas é boa”.

Viver sem companhia nenhuma é que Joana não acha bom. O modo de vida de sua terra a fez apreciar outras pessoas por perto: “Aí vem a tristeza, se a gente fica sozinha: 'ô dó, por que ninguém é ao meu lado?'”. Trabalhar na roça, lembra, “era bom demais” porque, além da satisfação de ver “aquela lavoura, aquele trem mais gostoso de olhar, aquelas plantas tudo boa crescendo”, ela tinha a companhia do marido. “Mesmo sofrendo com mosquito, formiga, solão quente, eu gostava muito porque estavam os dois trabalhando juntos, conversando da vida, fazendo os planos. É uma vida que passou e não volta nunca mais”.

O falecimento de seu marido ceifou a vida de alegria que compartilhava com ele, mas Joana não protestou: “Esse negócio de morte a gente tem que aceitar, não tem escolha”. Rebelar-se contra o que não era possível ser mudado a paralisaria diante daquilo que ela poderia e precisava manter: a sua vida e a de seus filhos. “A gente faz da fraqueza a força”, diz. Foi na dedicação ao artesanato que, além de colher os frutos que garantiam uma parte de seu sustento e de sua família, tirou satisfação e alento para seguir adiante e ajudar a manter a longa vida da tecelagem de Berilo.

Joana reconhece que, diante da morte, nada se pode fazer, mas não abre mão de ajudar a multiplicar a vida. No Vale, aprendeu que aquilo que o individual não pode modificar, a coletividade é capaz de cultivar. É pensando assim que ela e outros artesãos de sua terra ajudam a conservar a longa tradição da tecelagem local: mais de dois séculos de existência. “Enquanto eu aguentar, eu tô tecendo”, avisa. Muitas vidas ajudaram a manter os muitos anos de vida do artesanato têxtil de Berilo que, por sua vez, já deu vida a muitos que a ele se dedicaram. Se essa dedicação não os enriqueceu materialmente, contribuiu, entretanto, para tornar rica a cultura local. E mais: fez dela uma riqueza que, ao contrário de se esgotar, cresce quando compartilhada.

Disponível em: http://fazedoresdonossochao.com/

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