Zé do Ponto: “Ninguém vive sozinho”

Fernanda Salvador
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Fernanda Salvador · Rio de Janeiro, RJ
13/4/2011 · 13 · 0
 

Quem é como o artesão Zé do Ponto, nascido e criado no interior, não gosta de ser sozinho. Ninguém se constrói sem ninguém, assim ele aprendeu a pensar. Zé nasceu em Chapada do Norte (Médio Jequitinhonha – MG), no ano de 1949, com o nome de José Sebastião Vaz. Passou a conhecer melhor a vida que gosta quando começou a trabalhar na roça do seu pai. “Com 12 anos já estava na luta. Mexia com plantação, fazia lavoura”, conta. A função de lavrador proporcionou a ele, além do aprendizado de um ofício, um modo de vida que dava espaço para seu interior falar. “Eu gostava demais. Pra mim, era o meu prazer. Eu nem pensava, naquele tempo, em namorada. Pensava mais em ter amizade, no diálogo com os amigos”, recorda.

Zé firmava, na lida, laços que só uma conversa de íntimo para íntimo pode construir. “Tinha aqueles amigos que a gente contava um caso e morria ali. Era amigo mesmo. Cê podia sumir, ficar um, dois anos fora que, quando você voltava, era o mesmo amigo. A pessoa tinha aquela amizade profunda com a gente”, lembra. Depois, porém, que “o pessoal começou a andar no mundo, a conhecer como é lá fora”, o interesse em conhecer o que há dentro do outro foi diminuindo. “Hoje você pega uma amizade, quando é amanhã a pessoa tá olhando você de lado”, diz.

Nas cidades grandes, Zé diz não ver as pessoas partilhando-se umas das outras. Elas se trancam, não se deixam desvelar. “Lá fora ninguém dá muita confiança para o outro. É aquele negócio: ninguém conhece ninguém”. Já em Chapada, a possibilidade de contato com alguém desconhecido é motivo de satisfação: “Aqui, muitas vezes, passa uma pessoa que eu nem nunca vi e falo: ‘ei, chega pra cá’. A gente nunca viu, mas tem prazer de conhecer pra ver como é a conversa daquela pessoa”.

A vida em sua terra lhe impôs ofícios que exigiam muito esforço. “Era aquela luta”, lembra. Mas isso não o contrariava: “Eu gostava de trabalhar”. Além de agricultor, Zé foi tropeiro e hoje, como artesão, reafirma a satisfação que lhe traz a labuta: “Deus me livre se não tivesse trabalho!”. Ter a liberdade de ser o dono do seu serviço tornava a execução da atividade muito mais agradável. “É uma coisa dominada pela gente mesmo. Não tem quem manda, quem manda é a gente. Aí cê faz com grandes interesses, enxerga que é uma coisa sua. Acho que tem que se sentir mais é feliz”, diz.

Esse modo de ver o trabalho, entretanto, mudou um pouco quando se tornou cortador de cana em São Paulo. Zé estava com a idade de 28 anos na primeira vez que migrou para lá. “Eu tinha completado só um mês de casado quando fui. Todo ano eu tinha que ir pra lá, não era alegria não”. A “questão do dinheiro”, conta, foi o que o levou aos canaviais: “Aqui a gente trabalhava pra gente mesmo, cê colhia, mas não tinha preço. Aquilo era pra nossa sobrevivência”.

O “lá fora” começou a se instalar no interior, atraindo-o às novidades do progresso. “Todo mundo começou a chegar com um radinho, aí eu pensava: ‘quero um rádio pra mim também’”, lembra. Como o que produzia na roça “não tinha preço”, Zé encontrou nas fazendas de cana-de-açúcar um trabalho em que poderia ter um salário. “A gente recebia mensalmente, então cê tinha como comprar”, explica. Por outro lado, usufruir das novidades do progresso se tornou um preço alto demais. Ele não tinha mais a tranquilidade de viver em sua terra e nem a liberdade de ser o dono do seu serviço.

Na tentativa de não voltar a cortar cana em São Paulo, Zé resolveu tentar fazer do artesanato seu meio de vida em Chapada do Norte. “Cheguei aqui, montei uma marcenariazinha. Inventava alguma coisinha da minha cabeça, fazia uma gamela, um balaio. Pensava à noite e falava: ‘amanhã eu tenho que fazer aquilo’”, conta.

Fazer do artesanato seu meio de vida não era simplesmente uma tentativa de garantir o seu sustento e o de sua família – Zé tem dez filhos. Era, também, um meio de viver ao seu modo e a arte de, pacientemente, esculpir sua realidade. No início, ele encontrou dificuldades para se firmar: “Nos começos, começou não dando certo”. Mas a insistência valeu a pena. Seu empenho lhe tornou um dos vencedores do Prêmio Sebrae TOP 100 de Artesanato. Mais do que a satisfação de ser premiado, o artesanato lhe trouxe o que mais preza na vida: saúde e amizade.

Ver uma ideia sua e simples pedaços de madeira e couro tomando a forma de cadeiras, bancos, mesas, tambores lhe enchem de satisfação: “Tem coisa que não dá nem para acreditar que a gente que fez. Não é que eu cheguei no ponto?!”.

Os tambores que Zé produz ajudam a entoar o ritmo da Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Chapada do Norte. É uma criação sua, o tambor – “Eu não sei copiar nada de ninguém, o que eu sei fazer é as coisas minhas mesmo, criar as coisas minhas mesmo” – ajudando a repercutir uma criação do seu povo, a Festa: “Pra mim, ela é uma alegria, porque a gente tem uma coisa diferente pra mostrar, é coisa nascida de dentro da gente mesmo, dentro da família”, diz.

Irmão do Rosário, ele considera fundamental a preservação das características da Festa: “Nós seguramos ela, pra nunca mudar”. É que conservar a congada, a batucada, a cavalhada é uma maneira de não calar a voz que expressa quem eles são. Longe de ser uma tentativa de se trancarem em seus valores e de se afastarem de outras vozes, preservar as tradições é uma possibilidade que têm de deixar vir para fora seu interior.

Os laços formados pela convivência fazem com que fiquem sempre perto um do interior do outro. No Vale do Jequitinhonha, ele conta, é comum encontrar, ao lado, soluções para driblar situações adversas: “Aqui a gente tem o diálogo, porque a pessoa tem que comunicar, chegar para o outro: ‘eu tô sentindo isso, eu tô passando por isso’. Às vezes, numa conversa que ele fala, o outro já sabe uma saída lá na frente, não é verdade? Porque eu dispus a minha fraqueza e ocê compôs a sua bondade pra me ajudar”.

O mesmo laço da convivência que o liga às outras pessoas, ensinando-o que “ninguém vive sozinho” lhe dá liberdade para exteriorizar o que há dentro dele. “Eu gosto muito de escutar a opinião dos outros. Alguma coisa que eu sei, eu passo pra pessoa e alguma coisa que a pessoa sabe, eu também aprendo com ela”, diz.

Dinheiro é necessário, reconhece ele, porém a riqueza que, no seu pensar, dá sentido ao viver vem do cultivo das relações humanas: “A pessoa pode ser pobre, mas é rica se todo mundo confia nela. Nem tudo a gente pode pôr que o dinheiro é as grandes felicidades. Eu quero ter um pouco de dinheiro, mas também quero ter um prazer junto com o meu pessoal”. Com a amizade, acredita, é que se “vai longe”. E Zé do Ponto foi longe sem precisar sair de sua terra. Através do artesanato, teve a oportunidade de ajudar a mudar um pouco a imagem que é feita do Vale do Jequitinhonha. “Falam que aqui é o ‘Vale da Miséria’, mas nosso trabalho tem muita fama nos outros lugares”, diz. Pôde, além disso, estender um conhecimento para além das fronteiras do sertão mineiro: ficar privado da liberdade de deixar seu interior vir para fora pode ser a pior das misérias humanas.

Disponivel em: http://fazedoresdonossochao.com/

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