DEBAIXO DAS RODAS DE UM AUTOMÓVEL, é o primeiro livro de Rogerio Skylab, lançado pelo editora Rocco.
É inevitável o susto de um fã do compositor, deparando-se com os sonetos que preenchem a totalidade do livro. Onde está o músico perverso, desbocado, irônico ?
Mas não será delírio se, apesar da docilidade de alguns versos, você se sentir frente à frente com Skylab.
Não me parece que seja a sua intenção criar personas diferentes, heterônimos. Ao completar a leitura dos 84 sonetos, e isso você o faz com uma certa rapidez, você sente que de fato esteve ao lado de Rogerio Skylab. Como se os sonetos fossem uma tradução das músicas, assim como os contos, que estão por vir, também o são.
O prefácio do músico Lobão já anuncia que diante dos poemas, nos encontramos num território delirante e quase sempre condescendente, compreensivo de suas vivências. E chega mesmo a sublinhar a "candura" de SKYLAB.
Ora, aparentemente, isso chega a se chocar com a imagem que guardamos do compositor.
De qualquer maneira, devemos sempre guardar cautela. Parafraseando o próprio SKYLAB no poema CALDO DE CARNE, a meu ver um dos mais significativos, o efeito retardado dos poemas trai a nossa primeira impressão.
Se pensarmos numa regra formadora do gênero soneto, praticado por Petrarca, Camões, chegamos então a conclusão que diante dos sonetos de SKYLAB, estamos diante de uma forma falsa. É uma falsificação propositada.
Mas não fica aí a prestidigitação.
São várias as sugestões do modo como muitos dos seus poemas foram construídos: "Escrevo como quem rouba/Sem chamar a atenção/Como quem fabrica uma bomba" (Radinho de Pilha).
Mas é nos espaços vazios, entre uma estação e outra do metrô, ou mesmo durante o expediente de trabalho, que muitos desse poemas surgirão, roubando inclusive o tempo do trabalho.
É reconhecido o hábito de Carlos Drummond de Andrade, em construir os seus poemas cotidianamente, todas às tardes, em seu escritório. Ou então, no caso de João Cabral, de permanecer 15 anos construindo um poema. Se pensarmos em Guimarães Rosa e no seu artesanato, ou então em James Joyce, não há dúvida, que estamos diante de uma noção de tempo específica, ao qual não se alinha os poemas de SKYLAB. Estes nascerão no tempo vazio, no coração do instante, emergenciais, assim como um leitor num metrô.
Acho que podemos pensar num processo de resistência diante da ausência do tempo.
Estamos novamente diante de um caso de dissimulação. O próprio SKYLAB nos dá a deixa, quando em CALDO DE CARNE, ele nos indica a receita de seus poemas, em contraposição à João Cabral: " Já que existe a poesia de João Cabral de Melo Neto/-estranha pedra bruta/que machuca os dentes-/ quero que também exista/ a poesia-água - aquela que desce/pela garganta e não arranha/não cheira e não tem cor".
É como se o autor, ao contrário de toda vanguarda artística do passado, quisesse desaparecer, tornar-se invisível. Nesse sentido é que os poemas do Sr. Rogerio Skylab, parecem mais prosa do que verso, mais fluido do que sólido, mais clichê do que qualquer outra coisa.
O útimo poema do livro, dando um desfecho a esses intrincados poemas, aparentemente tão simples, nos dá conta de sua ambição: "Então tá é tudo que se quis:/mera locução, pura linguagem.../Uma sombra? Então tá".
Como poderíamos interpretar esse desejo de invisibilidade? Nada me parece fortuito. O grande esforço consiste em desaparecer e essa é uma idéia fixa do primeiro ao último poema.
Mas retomando a expressão que Lobão, no prefácio, cunhou, ao referir-se aos poemas de SKYLAB, "a candura de um poeta ou de um anjo", talvez pudéssemos substituí-la pela palavra "insensibilidade". Tudo que neste livro se diz, das coisas mais simples às mais atrozes, são ditas pelo freio da insensibilidade. Os olhares de dois passantes num shopping center não provocam mais crispação nenhuma, diferentemente dos passantes de Baudelaire. Tudo é possível e tudo é dizível. Aos fatos, ou às estórias que possam ser contadas, vai se preferir a linguagem, quase que descolada do que acontece. Como se o acontecimento tivesse justamente essa função: fazer aparecer a linguagem, através da qual, o próprio acontecimento desaparecerá.
O poema ERA UMA VEZ tenta a todo custo contar algo e não consegue.
Se, portanto, as experiências de vanguarda quiseram priorizar a linguagem em detrimento ao referente, não me parece que seja outra a intenção do músico e poeta Rogerio Skylab, só que, desta vez, trazendo de volta a linguagem sem os auspícios do sujeito.
Ainda que haja um processo de escolha de sua linguagem, e, malgrado todas as tentativas de Cage, não me parece que seja possível eliminar tal processo de escolha, ainda assim, há um movimento livre da linguagem entregue a todos os acidentes e acasos. E é justamente esse movimento livre da linguagem, a obsessão de SKYLAB, fazendo uso de clichês e dando a seus poemas a sensação de fluidez.
Onde posso comprar o livro????? Adoro o Skylab!
Rafaelatp · Rio de Janeiro, RJ 30/5/2007 15:46Oi, Rafaela. Basta entrar no site dele www.rogerioskylab.com.br. Lá tem um link que vc acessa para comprar o livro.
Luisa Venturi · Rio de Janeiro, RJ 30/5/2007 20:57Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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