Acabo de receber um embrulho importante: "Valeu, Lobão! Qualquer coisa, estamos aÃ. Continuo no aguardo do groove! Grande abraço". Aaaaaaa, não! Não pode haver deslizes. Quanto a este embrulho, o que devo fazer é avisar a polÃcia. Afinal, os olhos só vêem o que o coração pressente, e a polÃcia me ajudará. Corta! (Estará fraquejando o meu controle agradável e tranqüilo sobre a realidade?) Ah... Que alÃvio! Acabou o sufoco! Acabo de saber que o embrulho pode ser (e realmente é!) o novo álbum do Rogério Skylab. Que simpático! Ah! Ah! Ah! Vou agora me atirar no sofá, acender um cigarro bem firme, e zombar do mundo! Ah! Sim, aprender a rir novamente, e a zombar do mundo, como eu nunca deveria deixar de fazer. Ah ah! Ah ah! Ah ah ah!
Pois bem, público literário, estou ciente de que o meu compromisso, aqui nesta coluna, seria escrever um breve e lúcido artigo sobre o Mario Quintana, ou mesmo sobre o Paulo Seben, mas devo confessar que este novÃssimo disco do Skylab, "Skylab VI", fez-me perceber que, de fato, não precisamos ir tão longe em busca da poesia. Como disse o meu amigo e gonzojornalista Cardoso, "hoje em dia, a vida cotidiana burguesa tornou-se muito mais excitante e surpreendente do que quaisquer teorias da contra-vanguarda". Olé! E a verdade, senhores, é que, sinceramente, considero um absurdo que vocês qualifiquem o Skylab como um louco. Logo ele, poxa, que é a pessoa mais santa e idealista deste mundo desvairado. Não, isso não é nada é justo.
Portanto, causa-me estratégica revolta que vocês, apreciadores do Daniel Galera, considerem lunáticos os verdadeiramente santos, uma vez que, na realidade, vocês é que são os lunáticos! Logo o Skylab, caralho, que é um filósofo, logo ele, que renunciou ao mal, que não usa drogas, que não é comunista, logo ele, que perdoa os nazistas e que trabalha há décadas no Banco do Brasil, puta que pariu, logo ele, logo o Skylab, que, enfim, não pode ser acusado de dadaÃsta! E o Rogério Duarte, e o Antonin Artaud, e o Carl Solomon, porra? Quem são vocês, bando de canalhas nojentos com sua falsa respeitabilidade! Seus babacas vestidos de polÃcia, vocês e seus cus paranóicos.
Perdão. É que há muito eu aguardava ansioso por mais um disco do senhor Skylab, e acabei ficando um pouco introspectivo com este embrulho nas mãos. "Edite, bebite, post mortem nulla voluptas". E digo isso porque dentro do panorama da Música Popular Brasileira, Rogério Skylab ocupa uma posição singular e original: é o primeiro entre os compositores de destaque em toda a história do cancioneiro mundial a proclamar, de forma sistemática, que o âmago do mundo é irracional, fundamentalmente oposto à inteligência e à razão. Além disso, Skylab foi o primeiro filósofo brasileiro a tratar do tema amoroso sob o ponto de vista metafÃsico: "Ao abrir lentamente a maçaneta, encontrei-a ali dormindo: minha empregada. Vê-la naquela posição, barriga pra cima, fez-me entrar em conjecturações infinitas", argumenta o profeta.
Trata-se, portanto, do que Arthur Shopenhauer chamou de "certeza amedrontadora da imortalidade", ou, nas palavras do próprio compositor, "quanto pior melhor". Pois bem, o que eu devo dizer é que "Skylab VI" retoma o clima do seu terceiro disco, "Skylab III", e acena novamente na direção do experimentalismo. Sexo, violência, freak rock e momentos de pura vulgaridade, seguidos por outros da mais pura transcendência: Tati Quebra Barraco & John Cage; Frank Zappa & Tiririca. Com efeito, realmente é muito difÃcil explicar para os egoÃstas e narcisistas que Skylab não é um egoÃsta e narcisista. Na verdade, Skylab é um "artista coletivista em aberto", como definiu Frank Fanfio, isto é, um anti-artista. Dessa forma, eu diria que o seu "Skylab VI" funciona como uma espécie de adeus fundamental à picaretagem cultural e ao supermercado de ilusões perdidas da intelectualiudade brasileira. "Trinta em Transe". Enfim, Skylab é um cara que está do lado dos poetas.
Ademais, a terra rola, os astros rolam, e os homens que, marcados com o selo da superioridade brilhante, constituem o verdadeiro mundo, trágico e cÃnico, permanecem presos à imagem do "um", do "único um": Rogério Skylab. Mas, afinal, quem é Skylab? "Um delicioso suco de bosta no liquidificador", responderia alguém. "Um menino muito sensÃvel, de alma nobre e delicada", diriam outros. Para mim, Skylab é um amálgama pop-poético que reúne o conservadorismo de Churchil e a inteligência de John Nash, com algumas pitadas, é claro, da arrogância de Bob Fields, da lábia de Dominique Villepin, da ironia de Paulo Francis e também da coerência de Tony Blair. Tudo isso, vejam bem, articulado de forma a superar a lamentação da queda, reconhecendo alegremente a perda como condição para a liberdade: "O pior inimigo da arte é o gosto", disse Marcel Duchamp.
Mas eu quero terminar este ensaio paracrÃtico falando de literatura. Devo dizer, portanto, que, de fato, Rogério Skylab é um poeta profundamente insólito. Insólito não para meramente confundir, mas porque essa é sua maneira autêntica e vertical de experimentar o misterioso estar das coisas. "Cu e boca é tudo a mesma coisa", diz ele em uma de suas canções. Dessa forma, cada dia fica mais claro para mim, principalmente depois de fruir "Skylab VI", que a condição necessária do seu ativismo poético é, necessariamente, o hermetismo inexorável de seus olhos de hiena, que quase tocam nos objetos para poder insinuá-los, já que não é mais possÃvel dizê-los com os esforços da complacência. "Quê que eu tô fazendo aqui? Eu vim mijar e acabei cagando!", brada o filósofo em outra passagem. Para concluir, Skylab é o grande exemplo tropicalista do que Pablo Neruda definiu como "surrealista concreto", ou seja, "aquela coisa toda", como ele mesmo explica. É isso aÃ, e beijo nas meninas!
(Post Script: Alô alô Rogério! Estou no aguardo de um exemplar do seu "Debaixo das rodas do automóvel". Carinhos e abraços, Gilberto Gil.)
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