Otávio Filho, pai e espírito laico, secular, pagão, debochado, irônico e erudito, para dizer apenas algumas características iniciais da produção desse pintor digital virtual pós-moderno, pós-McLuhan e o escambau. Meio ou inteiramente alheio à moda do culturalismo como militância, cultua a cultura como essa instância pleonástica pop, kitsch, chic... o encantamento das montagens, bricolagens cibernéticas de imagens renascentistas e clássicas com impulsos cubistas pós e antes.
Não tento fazer crítica estético-plástica, pois minha seara é a das palavras-signo, mas posso ousar questionar e por em crise o falecimento da autoria, ao percorrer os cantos do “Palco da Palavra” (ou melhor seria dizer o “Palco de Otávio”), o principal sítio no qual podemos “visitar” os (im)pensamentos e (im)agens desse artista plástico na web (http://palcodapalavra.blogspot.com).
Se o autor morreu, esqueceram de sepultá-lo, pois o autorretrato digital de Otávio Filho nos mostra um rosto borrado e rasurado, após ser alvejado por corações petrificados, mas com bastante vitalidade para nos oferecer sua sensual relação com as palavras e demais ícones, símbolos, índices... que olhares semióticos poderiam mais bem acertadamente analisar.
Otávio faz poesia visual, no sentido radical de uma poiesis da sensualidade do olhar, nas formas que bailam entre palavras na tela. Qual o telos? Quais telas? As palavras se transformam em tinta quando misturadas em performance dramático-lírica, em que significantes e significados se confundem com o meio ou suporte no qual estão postos.
De fato, Otávio Filho tinha longa experiência como “pintor de telas” antes de ir para as telas virtuais. E ele nos fascina - por que não facínora? - com sua busca de seu Graal secular – uma Beatriz dantescamente virtual, tecnologicamente apresentada em vaginas e ani (aprendi o plural latino de ânus!), bocas e bundas, lugares e não-lugares, pontos de partida para seu banquete imagético e verbal, que também pode ser encontrado em seu outro sítio – http://www.otaviofilho.com/index.html – cujas pinturas e truques tecnológico-pictóricos são mais facilmente compreendidos por quem acessa o abismo de vez em quando: um Davi michelangelamente de calcinha, uma cruz-calculadora – calculatrix, dentre outras obras de belas-artes virtuais.
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