A cultura pode ser considerada o oxigênio do pulmão social. Num regime que tem suas bases fincadas nos postulados do capitalismo, onde as competições se acirram e as conquistas estão muito focadas no acumulo de poder e riqueza, as tensões sociais se cristalizam em ambientes sombrios e doentios.
A cultura em geral e as artes em particular tem a propriedade de amenizar estes ambientes, arrefecendo as lutas de conquista e invertendo o fluxo predatório para ambientes mais humanos e saudáveis.
A cultura precisa de campos adequados e preparados para prosperar. Quando se usa a expressão desertificação cultural está se dizendo em outras palavras, que o campo em questão foi vitimado por ações de usura e desgastes tais, que qualquer semente ali lançada não encontrará os nutrientes necessários para fazê-la germinar.
Entre os fatores mais evidentes que favorecem a desertificação está a ação de agentes polÃticos de visão centralizadora e antidemocrática que estabelecem em cascata, as regras que prevalecem numa comunidade.
A autoridade polÃtica gera um preposto com visão de mesma freqüência e magnitude, que se arroga tutor das idéias, dos pensamentos, dos talentos e dono das verdades e das competências.
PoderÃamos chamar esta figura de autoridade polÃtico/cultural? Pois qual seria seu perfil e qual sua nefasta ação?
Quem são estas autoridades? Pessoas que construÃram suas carreiras permeando cultura e polÃtica e adquiram poder pessoal em suas comunidades, onde são referencia e alvo de freqüentes homenagens e bajulações públicas.
Estas pessoas fazem as regras dos concursos culturais, estabelecem os rituais das academias, decidem de forma autocrática as questões de clubes e associações de letras.
Circulam com seus fardões reais ou virtuais, emplumando no peito o brilho das medalhas que escancaram seus egos inchados e empedernidos.
Colocam-se como donos das verdades, curadores das idéias, dos pensamentos, das palavras e da livre criação e tem o poder de banir um artista incomodo ou levar apadrinhados a glorias efêmeras e artificiais.
Numa comunidade já vitimada em sua veia cultural pelo esgotamento e desvios de recursos públicos para a cultura, pode um agente esta natureza se especializar na valorização de artistas de fora, em detrimento da “prata da casaâ€.
A um evento de destaque midiático que chega de fora tudo, ao artista que constrói sua arte com suor e sangue nada. Esta é a regra, esta é a lei.
Mas estas pessoas têm também, e não podemos negar meus próprios méritos e seus valores.
Falando especificamente em literatura que é meu campo ideológico, quem determina o valor de um autor? Os papas da literatura? Os donos de editoras? Os presidentes de academias e associações? Os donos das faculdades de letras?
O que defendo é que um talento não pode se submeter nem se render a barganhas de baixo nÃvel. Quem pode dar valor a uma obra? Em principio somente o próprio autor. Depois, se ele conseguir conquistar a crÃtica e o publico o mercado se encarrega de promover seu valor.
No mercado editorial esta façanha, na verdade é conseguida por poucos. A grande maioria dos autores e poetas deve permanecer desconhecida.
Mas é na integridade do seu santuário literário e na câmara secreta de sua consciência que um autor revela sua alma e expõe seu mais nobre talento.
Um autor que se preze não deve tratar sua obra como mercadoria e nem se submeter aos vendilhões dos templos.
Sua obra é única e sagrada porque é filha gestada em parto difÃcil no útero da consciência. Não há dinheiro no mundo eu a pague. Um autor não deve mendigar com sua obra. Se o mercado, no entanto reconhecer este talento e der a ele um valor seria preconceito não usufruÃ-lo.
As academias, as associações e o mercado editorial é que precisam e buscam grandes talentos. Estes talentos por seu lado têm que fazer por merecer e colocar-se a serviço da criação e da evolução.
Em nossos sonhos e meditações busquemos estas repostas com Vitor Hugo, Shakespeare, Castro Alves, Gonçalves Dias, CecÃlia Meireles, Cora Coralina, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, apenas para citar algumas destas almas evoluÃdas que aportaram na nave Terra e deixaram seu legado.
O dom da palavra no chega de graça e deve ser lançada ao vento para que cumpra com seu destino.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!