Onde há rede, há renda

Bruno Silva
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Tati Magalhães · Maceió, AL
6/3/2006 · 84 · 1
 

Escolha uma tarde qualquer de qualquer dia do mês. Fins de semana, dias úteis, não importa. Indo ao município de Marechal Deodoro, a primeira capital alagoana, localizada a 21km de Maceió, a cena vai ser a mesma: nas portas de casas antigas e nas praças, mulheres de todas as idades tecem seu filé, um bordado típico do Estado, cujo ponto é inspirado e feito nas redes de pesca. O material produzido é muito mais do que uma tradição que passa de mãe para filha a cada geração: é o complemento da renda familiar dos moradores que sobrevivem muitas vezes da pesca realizada na Lagoa Manguaba. É uma arte que atravessa a vontade, que se sobrepõe ao talento. É uma multiplicação das possibilidades, em meio à poluição que vai matando os peixes e à economia que vai sufocando o dia a dia. E o ofício, cujo resultado é bonito de se ver e de se vestir, também tempera de cores uma cidade que ainda mantém as características de interior, com crianças brincando nas ruas com soldados de papel.

O filé não é uma exclusividade de Marechal. É encontrado em todas as feiras da cidade, em formas de saias, chalés, blusas, vestidos, saídas de praia, faixas de cabelo e cintos. Entretanto, o município é um dos principais pólos produtores e exportadores de Alagoas. A cidade, aliás, tem no turismo sua principal fonte de renda. Não tanto por ser um ponto histórico - foi fundada em 1636 - mas principalmente por abrigar alguns dos lugares mais bonitos de Alagoas, como a Praia do Francês, e possuir um atrativo de dar água na boca, o pólo gastronômico da Massagueira, antiga vila de pescadores. Além disso, é um pólo cultural: é lá que vive o Seu Nelson da Rabeca, 74 anos, instrumentista auto-didata que se encantou com um violino na TV, aos 53 anos, e decidiu fabricar rabecas em casa. É considerado um patrimônio vivo da cultura alagoana e, por isso mesmo, ganhou uma estátua em uma das entradas do município.

Mas voltando às filezeiras: como não é o espontaneismo que garante a sobrevivência e a vida de ninguém, garantir o ganha-pão das famílias passa também por uma questão de incentivo. E foi a partir dessa idéia que os fios do filé foram se fortalecendo entre as moradoras, independente da idade. Um incentivo que muitas vezes não vem de fora, mas de dentro. Surge como necessidade em um lugar onde a economia acaba que direcionando a escolha. Nada muito diferente de outros espaços.

Tecendo as malhas

O filé tem uma simbologia muito forte: suas cores, para as artesãs, representam a expressividade da cultura alagoana. As formas que encantam os visitantes da pequena cidade lagunar também são importante fonte de renda para as famílias de pescadores. A maioria delas sobrevive da pesca, fazendo valer o ditado popular que diz que onde há rede, há renda. As artesãs vão compondo as peças com desenhos próprios. Primeiro elas trabalham a "malha" trançada com fio de algodão cru ou linha. Logo em seguida, é colocada numa grade para ser preenchida com os desenhos.

Elizângela Sampaio tem 27 anos e mora em Pueira, um bairro de pescadores em Marechal Deodoro. O ofício de filezeira, como ela denomina, exerce desde criança. Aos sete anos foi tomar aulas com D. Zezé, a principal instrutora da cidade e mestra de grande parte das artesãs de Marechal, hoje falecida. Na família de Elizângela, também a mãe e a irmã desempenham o mesmo trabalho. O jeito com o material ela já tem desde de pequena. "Acho que herdei de minha mãe, que é costureira", acredita a artesã. E já está transmitindo para a próxima geração da família. A filha de Elizângela de 4 anos, Alexia, está começando na arte.

E basta andar mais um pouco pelas ruas antigas da cidade que outras discípulas de D. Zezé começam a surgir. Fátima dos Santos, 26 anos é uma delas. Prevendo um futuro como artesã, ela se inscreveu ainda adolescente no curso oferecido pela prefeitura da cidade e ministrado por D. Zezé. O local era a Igreja de São José, situada numa simpática pracinha de mesmo nome. E assim foram sendo formadas gerações de filezeiras.

Valderez dos Santos tem 29 anos. Diferentes de suas vizinhas, ela aprendeu o bordado em família, com uma prima artesã. Divide seus dias entre os afazeres como atendente da lanchonete da prefeitura, na Praça São José, e com as malhas do filé. "Nas horas mais calmas eu faço filé no batente da lanchonete. É bom para distrair e acalmar. Mas dói demais a coluna", reclama a artesã. Por ali, nem dá para perceber que no relógio correm as horas, que o bordado é um trabalho e que, muitas vezes, vai garantir o sustento da família. Não há patrão para exigir. Mas isso não significa um lucro bruto. Suas peças geralmente são vendidas e revendidas por um valor bem inferior daquele pago pelo consumidor final, se este resolver que o shopping é a melhor opção de compras.

A renda é a fonte de renda

O filé movimenta a economia da cidade. Cada peça produzida é vendida pelas artesãs a 10 reais. Já nas lojas de artesanato, o preço final pode chegar a até 50 reais. A especulação e a apropriação do trabalho das filezeiras afastam qualquer pretensão de aumento da renda. Se pelo menos a metade do preço final dos comerciantes ficasse nas mãos daquelas que produzem, talvez as condições de vida da população fossem mais dignas.

As peças fabricadas nas praças e ruas de Marechal Deodoro ganham outros estados e até o mundo, geralmente pelas mãos de estilistas que apostam na arte do filé para compor suas peças. É fácil encontrar blusas fabricadas pelas filezeiras de Marechal nas praias de Boa Viagem, em Recife, ou em shopping centers de diversas capitais nordestinas. Provavelmente, se fossem adquirir as peças que elas mesmas fabricaram nesses lugares, não teriam como pagar por elas. E assim as malhas do filé trazem renda para as famílias lagunares e impulsionam a vida da histórica Marechal Deodoro. E nós, fiéis admiradores das mãos que tecem o destino, seguimos torcendo para que o colorido dessa arte não se perca nos caminhos escuros da especulação.

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Rodrigo Biguá
 

Eu já fui a Mal. Deodoro e é lindo. Nunca tinha feito essa associação tão direta entre a rede e a renda. Interessante.

Rodrigo Biguá · Rio de Janeiro, RJ 22/9/2006 10:36
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