As Narrativas da Vida na SuperfÃcie da Alma
Os limiares da vida e do cinema em Limite.
por Julio Cruz
Num processo de trânsito entre o cinema mudo e o cinema falado, representativo de uma experimentação inicial do uso de trilha sonora sincronizada à pelÃcula, aparece Limite de Mario Peixoto, de 1931. Numa associação entre a água e os seres em trânsito sob uma superfÃcie plástica, em que o limite entre a fluidez dos corpos e a fluidez da alma são coisas decerto maleáveis, Mario Peixoto inicia a projeção com três personagens, num primeiro momento sem nome, à deriva, onde a força de vontade se esvai do corpo e a inércia se faz presente, mesmo que as ferramentas do movimento estejam postas a disposição dos seres. Nessa jornada, as caixas da lembrança são abertas e emergem das águas da mente.
É um processo que se assemelha à caixa de Pandora, algo que aberto, torna a existência e a vida insuportáveis. Seus personagens são seres à deriva em suas próprias vidas, servindo de coadjuvantes para o que torna sua própria existência, algo que é levado, numa atmosfera bucólica, à exaustão inexorável. Na poética, Mario Peixoto remonta as histórias da vida deles esse barco sem rumo, onde esperam que algo aconteça que os torne os protagonistas dessa vida vazia.
A associação com a lembrança vivida vem da aproximação com a cabeça, o local onde a alma reside e onde as experiências são armazenadas. Numa caminhada penosa pela terra firme, a lembrança se atém aos pés, os membros inferiores que possibilitam a esses seres caminhar pelas veredas da cidade. O olhar se volta para cima ou para baixo, em direção ao céu e aos telhados barrocos, ou às árvores, ou ao chão pela morte inerente, encontrada no fim da caminhada.
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