Quando as lembranças brincam de subir em árvores

Márcio Lima
1
Teatro Vila Velha · Salvador, BA
30/5/2006 · 65 · 1
 

Imagens diante dos olhos e dentro da cabeça. Cinema. TV. Fotografia. Memórias. Pensamentos. Sonho. A Companhia Viladança traz ao palco um universo que transita entre imagens, no despertar de músicas cedidas especialmente por Milton Nascimento. A trilha sonora guardada há 15 anos pelo músico mineiro, e o movimento dos corpos dos dançarinos se encontram no Teatro Vila Velha, num espetáculo concebido e orquestrado pela coreógrafa Cristina Castro. Criada em diferentes tempos e lugares, cruzando fronteiras através do ciberespaço, a montagem engloba referências artísticas, filosóficas, literárias e lúdicas que oferecem ao espectador a imersão numa infinidade de coisas que constituem (e também desconstróem) cada ser humano. Aroeira – com quantos nós se faz uma árvore é uma reunião de energias criativas diversas, que flerta com a ilusão ocupando olhos e ouvidos, ao passo que revela os mistérios do desejo e da imaginação. A montagem estréia em Salvador no dia 16 de junho e segue temporada até 9 de julho, com apresentações de sexta a domingo, sempre às 20:00.

O processo para chegar até Aroeira – com quantos nós se faz uma árvore começou há 3 anos, quando Milton Nascimento ofereceu à coreógrafa Cristina Castro uma trilha sonora chamada Cores e Vozes que havia composto há mais de 15 anos para um balé.

A primeira idéia de Cristina foi juntar a música de Milton à vontade antiga de trabalhar com o universo da fotografia, o que logo a fez mergulhar nas imagens evocadas pelos sons da trilha. Daí para expandir o conceito para as relações entre aquilo que se vê e o que fica guardado ou é criado na memória, foi um pulo. Então, o minucioso processo de pesquisa envolvendo textos de pensadores, poetas, bate-papo com especialistas, fotografias, desenhos, quadros e HQ passou a ser prioridade na vida de Cristina. Não demorou muito até ela sentir-se preparada para se entregar por inteiro a uma aventura totalmente nova, para a qual contou imediatamente com a cumplicidade de seus dançarinos: um espetáculo multi-linguagem, criado por uma equipe de artistas muito especiais.

Além de Milton Nascimento, o time de criativos que assinam o espetáculo conta com a equipe de artistas gráficos Diogo Kalil, Franck Falgueyrac e Ian Sampaio, reconhecidos no meio de vídeo nacional e internacional por sua habilidade técnica e estética em produzir desenhos e animações. O espetáculo traz ainda uma citação do texto Fábula da Fêmea Camafeu, de Fausto Fawcett, compositor de hits da música pop nacional como Kátia Flávia, a Godiva do Irajá e Rio 40°.

A caixa de Milton

Receber uma trilha sonora diretamente das mãos de Milton Nascimento foi um verdadeiro presente para o Viladança. A música original, chamada Cores e Vozes, foi gravada em 1991 e contou com a participação de músicos como Jacques Morelenbaum (violoncelo), Nivaldo Ornelas (metais) e Robertinho Silva (bateria), além do próprio Milton Nascimento no piano, voz e violão. Porém, o compositor mineiro foi ainda mais longe, oferecendo a possibilidade de editar as músicas de acordo com o roteiro do espetáculo. Este trabalho Cristina Castro confiou às mãos dos músicos Jarbas Bittencourt e João Meirelles, juntamente com o produtor musical Marcos Povoas, deixando-os como responsáveis pela edição final da trilha de Aroeira...

Extrato de Aroeira

Aroeira – com quantos nós se faz uma árvore é dividido em blocos distintos, com cortes estanques entre um e outro, revelando o que Cristina chama de “olhares”, cada um representando uma forma de compreender – e sentir – a visão ou a memória. As cenas referem-se a desejo, fantasia, saudade, caos, manipulação de realidades, associações sinestésicas e também à crítica ao culto da imagem. Ao evitar uma transição suave entre esses “olhares”, Cristina pretende provocar a platéia a re-arrumar o espetáculo mentalmente, imprimindo à experiência suas próprias lembranças. “Todos temos imagens dentro de nós. A cabeça é uma caixa infinita e a relação entre o que se vê e a lembrança é sutil como uma renda”, completa.

Em cena, Cristina optou por trabalhar mais com a energia e o vigor dos dançarinos, em contraposição à delicadeza das animações projetadas por Diogo Kalil, Franck Falgueyrac e Ian Sampaio e da poesia de Milton Nascimento. "Meu trabalho parte do atrito, da provocação e do desejo... a interação de linguagens, tendo como coluna central o movimento, rege a minha pesquisa no universo da dança contemporânea", afirma.

A diretora partiu das partituras corporais propostas pelo grupo nas improvisações, a fim de trazer ao palco um pouco da subjetividade de cada integrante. O resultado são movimentos fortes, com velocidade e destreza, explorando os limites dos corpos, que interagem e recebem interferência das projeções que se alternam entre evidenciar idéias e ocultar detalhes, criando uma penumbra que ativa a imaginação do espectador. Dentro dessa proposta encaixa-se também a iluminação de Fábio Espírito Santo, que se articula com as malhas e projetores para favorecer os jogos de cor, luz e sombra.

A platéia é convidada a entrar numa caixa de memórias, representada pela estrutura do cenário concebido e executado por Cristina Castro, Fritz Gutman e Lorena Torres Peixoto, que desloca o enquadramento do palco, provocando uma mudança de perspectiva. A cenografia utiliza cores claras, favorecendo as projeções, assim como o figurino criado por Luiz Santana.

Da mesma maneira que a equipe criadora, o público entrará em contato com as coisas que o olho diz ao cérebro, mergulhando numa esfera inebriada pelas ilusões, ao mesmo tempo capaz de questionar a relação do ser humano contemporâneo com as imagens que incidem em seu cotidiano. O espetáculo foi um dos três contemplados na mais alta categoria do Prêmio FUNARTE-PETROBRAS de Fomento à Dança. A Cia. Viladança conta com apoio do Fundo de Cultura da Bahia.

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Vânia Medeiros
 

estou contando os dias pra a estréia...

Vânia Medeiros · Salvador, BA 31/5/2006 17:20
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