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Rupturas e argamassas

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Theotonio de Paiva · Rio de Janeiro, RJ
8/10/2011 · 0 · 0
 

Por Theotonio de Paiva*

Estranho costume dos homens de procurar demarcar de modo bem vincado, nascimentos, revoluções, festejos, insurreições, e por aí vai. Essa lógica se orienta (eu iria dizer se penitencia), de uma concepção imorredoura, presente nos mais profundos arcanos da mente humana. Como se a partir daquele instante alguma coisa completamente original fosse inaugurada, e, então, rompesse o antigo calendário e passasse a condicionar um novo tempo.

Incontestavelmente, há uma enorme dificuldade no homem em perceber e, sobretudo, em compreender o processo tortuoso da existência, na sua seqüência trágica e risível, a partir de uma dinâmica mais fluida, em pequenos compassos. Talvez isso nos tenha levado a classificar o tempo e mais precisamente certas passagens da história de um modo integralmente arbitrário.

Vivemos uma transformação profundamente dolorosa e paradoxalmente enternecedora, naquele atropelo de fatos, cuja dinâmica perturbadora, nos tem levado a uma estúpida racionalização.

Imagine, pois, o leitor distraído, a seguinte seqüência. Em sua volúpia, sobe as escadas de um imenso casarão e se deixa restar no último cômodo, o mais escondido do mundo. Ali, a passagem das horas é severamente perturbada. Não há nada que possa ser controlado pelo tempo. O mais refinado prazer se embaralha com um temor respeitoso de quem não compreende direito as reservas que a vida lhe faz. E assim escorre o tempo.

Pois bem, naquele lugar, distante de todas as coisas, após o que poderia ser mensurado como uma noite de sonho convulso, a leitora acorda e desce as imensas escadarias. A distinção entre realidade e fantasia se embaralha em sua mente. A princípio, alguma coisa parece não fazer sentido. O que terá mudado? Com dificuldade, consegue distinguir uma sensação emudecedora e se vê diante de um novo tempo.
Mas, cautelosa, sabe não se tratar de uma certeza absoluta. O que é aquilo? Que tempo é aquele? Pode ser a modernidade ou a maior e mais voluptuosa crise financeira. Talvez o grande cisma da Igreja ou a última vanguarda dos tempos pretéritos. Quem sabe, o renascimento definitivo das artes e dos homens e seu último adeus à idade das trevas, ou, em seu segredo resoluto, a mais sanguinária revolução dos costumes e experiências políticas?

Aquela imprecisão dos fatos, assim como a dura construção de ações aparentemente insignificantes, escapa da mente do aturdido leitor. Dito de outro modo, se apresenta como idéias postas a descoberto para crianças, que as escutam, olham embevecidas, mas não as compreendem. Por vezes, as coisas mais simples se tornam objeto de uma reverência sublime, condicionadas por aquela ignorância aterradora.
O novo estado de coisas, causador aparente de uma ruptura impiedosa é capaz de demover todos os cânones, impurezas, desgovernos e ignorâncias incontestáveis. Dentro dessa lógica, será preciso romper para todo o sempre com o passado a fim de um novo tempo vingar e alcançar um valor inquestionavelmente absoluto. Instaura-se um vazio imperceptível incapaz de traduzir o encantamento atordoante: tudo mudou num repente.

Assombrado com a descoberta, o fatigado leitor se aborrece. Precisa viver numa outra condição, menos conduzida por perplexidades e vozes de uma ruína imensa. Sobe as escadas novamente a fim de reverter aquele estado que parece querer da individualidade suprema algo mais do que a vida.

* Theotonio de Paiva, dramaturgo e diretor de teatro, é Doutor em Teoria Literária pela UFRJ. Mantém o blog Caderno ENSAiOS Caderno ENSAiOS.

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