Tim Maia, o rei do Brasil

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Márcio Bracioli · Birigui, SP
15/5/2009 · 2 · 1
 

Ele subiu ao palco cambaleante, já consumido pelos anos de diversões desregradas. O brilho refletido em seus olhos já não era de alegria, e sim de desespero, angústia. Sua expressão era de sufoco, falta de ar, falta de alegria, falta de conhecimento, falta de reconhecimento, falta de dinheiro... falta de vida.

Com a mesma luta que travou para ser reconhecido, ele negou suas deficiências fisiológicas e tentou soltar aquele vozeirão, já rouco pela ação do tempo. Tentou: "Vou pedir...". Falta de ar, sufoco, suor, lágrima. Tentou de novo: "Vou pedir...".

Ele parecia estar imerso em um grande vácuo. A câmera deu um close em seu rosto, encharcado pela sudorese, e seu olhar transcendia a barreira do material, projetava-se longe, perdido. Ele morrera naquele instante.

Tim Maia deu adeus à vida fazendo aquilo pelo qual lutou boa parte de sua vida: cantar, encantar e ser o grande Tim Maia do Brasil. Com muita luta e, como toda história heroica, com alguma sorte, Sebastião Rodrigues Maia alçou voo no universo musical brasileiro. Construiu uma carreira de sucessos, excessos e processos.

Com atitude para ser considerado o primeiro punk brasileiro, Tim colecionou problemas, mas, ao mesmo tempo, deixou todos nós órfãos de sua arte. Suas músicas, de inexplicável química, são relíquias.

Eu sempre fui fã do Tim Maia. Quando criança (não faz tanto tempo assim), adorava cantar nos famigerados videokês, imitando a voz dele. Já tive CDs e mais CDs, além de sempre o acompanhar em programas de TV. Minha admiração por ele começou aí.

O jornalista Nelson Motta, um grande amigo de Tim, escreveu o livro "Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia", contando toda a vida do cantor, desde o começo do namoro de seus pais, até o exato minuto em que "o coração do gordinho mais simpático do Rio parou de bater". Karoline Verri, uma grande amiga minha, me emprestou o livro (sou duro, não pude comprá-lo), de 392 páginas, que li em três dias. Após a sessão de leitura, uma ideia começou a permear minha mente.

Diante de tudo apresentado no livro e colocando meus parcos conhecimentos musicais, acabei por considerar Tim Maia o rei da música brasileira. Nem Roberto, nem Tom, nem Caetano, nem João. Na minha humildíssima opinião, o rei da música brasileira atende pelo nome de Sebastião, era grande, gordo e tinha uma voz de trovão.

Para mim, Tim é uma espécie de Maradona da música. Da mesma forma, Roberto seria o Pelé. Um é considerado oficialmente como "rei". O outro, causa controversas e é, para muitos, o verdadeiro dono da coroa.

Assim como Pelé, Roberto deu uma enorme contribuição para a música. Há inúmeros sucessos dele que podem ser cantados pela maioria dos habitantes desta terra de Vera Cruz. Inclusive, um dos grandes sucessos de RC foi composta por Tim. A música "Não Vou Ficar" (Há muito tempo eu vivi calado/ mas agora resolvi falar/ Chegou a hora, tem que ser agora/ com você não posso mais ficar...). Um outro detalhe interessante é que os dois começaram nesse universo juntos. Quando ainda eram garotos, Tião (apelido de infância) e Roberto faziam parte do conjunto Os Sputiniks, que naufragou depois de uma crise entre os dois.

Tim é o Maradona da música. A semelhança entre eles transcende as carreiras. Tim era um artista controverso. Tinha um potencial e uma musicalidade talvez nunca superados. Mas ambos precisavam estar em sintonia com outros fatores para aparecerem. Quando estava de bem, principalmente com os operadores de áudio, Tim fazia um show inigualável. Tim colocava o País inteiro para pular. Era como nas partidas mais inspiradas, Maradona pegava a bola na meia cancha e ia parar dentro do gol. Era uma explosão de alegria, de plástica, de arte.

Mesmo sendo um compositor competente, Tim Maia tinha o poder de fazer da composição dos outros suas, a partir do momento em que soltava o vozeirão. Semelhante ao que acontecia com Johnny Cash (ou alguém lembra que Hurt é do Nine Inch Nails?). "Primavera", "Gostava Tanto de Você" e "Descobridor dos Sete Mares" são exemplos disso. Mas as composições de Tim também eram boas. E como! "Você", "Do Leme Ao Pontal" e "Azul da Cor do Mar", uma das letras mais bonitas da história, são dignas de entrar na galeria de qualquer lista das melhores musicas brasileiras.

Assim como os que atribuem à Maradona a realeza, eu concedo a Tim o título de rei da música brasileira. Até os presentes dias não é possível indicar alguém que tenha tanto talento, tanta musicalidade, tanta naturalidade como teve Sebastião. Talvez, Tim só venha a ser totalmente reconhecido depois de muitos anos. Assim, todas as gerações saberiam quem foi aquele sujeito grandalhão que influenciou uma geração inteira e deu inestimáveis composições para a história. O homem que com pouquíssimos acordes fez a melhor música do Brasil.

*Publicado no jornal Folha da Região http://www.folhadaregiao.com.br/noticia?116414

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Krista K
 

Tim Maia... sim, esse foi o cara :):):)

Krista K · Salvador, BA 15/5/2009 05:12
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