1970
Jogavam Brasil e Romênia, nos campos de honra mexicanos, pela Copa do Mundo. Da birosca de esquina vi quando o carro preto desceu a rua CarandaÃ, em Marechal Hermes, o rádio transmitindo a partida em alto volume. Parou em frente ao 112, os três homens saltaram e invadiram a casa. Fizeram um barulho medonho lá dentro, mulheres e crianças botando a boca no mundo, e em apenas dois minutos, não mais do que isso, trouxeram agarrado pelo cangote o Haroldo comunista, coberto de sangue. Abriram rapidamente a mala do carro e o enfiaram ali. Iam dar a partida, quando o rádio deles explodiu num grito de gol, e assim toda a rua, todas as casas, todos os botecos. Os três homens pularam, se abraçaram, vibraram com a alegria geral. Um deles chegou a despentear com um carinho ruidoso os cabelos de uma das filhas do tal comunista, parada ali perto, toda chorosa. Mas logo se mandaram. O Haroldo nunca mais voltou.
1995
A morte do enfermeiro Nestor, na versão dos amigos de copo e sueca: na véspera, o homem da limpeza tinha-o flagrado sodomizando o cadáver ainda quente de uma loura bonita no hospital do bairro. Encalacrado até a alma no recente escândalo dos remédios, o homem da limpeza não teria mesmo colhão para denunciá-lo, mas já pela manhã, provavelmente apavorado com tudo aquilo, Nestor se atirava na frente de um trem direto, na estação de Marechal Hermes. Quem era o tal homem da limpeza?, perguntei, tirando do bolso da camisa um bloquinho de endereços. Não me responderam. Eu que me virasse para enfeitar minha reportagem, se quisesse, rosnou o mais lombrosiano do grupo, não queriam problemas com a polÃcia nem com a direção do hospital. Da outra vez... (Da outra vez, pelo que eu tinha apurado ali no bar da Amendoeira, pegaram um outro enfermeiro, completamente embriagado, dançando com uma defunta no salão do necrotério, ao som de uma dupla sertaneja no radinho de pilha.) E o lombrosiano me piscou um olho vermelho, coruscante de maldade: não me custaria nada, disse ele, deixar toda essa porra de lado, em atenção ao necrófilo suicida. Ciente.
2004
Isto aconteceu há coisa de um ano, em uma ruazinha de Bangu, mas não ganhou mÃdia. Quer dizer, acho que não ganhou. Se ganhou, não vi, nem ouvi comentários a respeito. Nessa noite, a casa 37 estava de portas e janelas escancaradas, os vizinhos entrando e saindo numa ansiedade louca, a mãe aos prantos — por volta das quatro da tarde sua filha de doze anos fora achada morta, vÃtima de estupro, no terreno baldio ali perto. Veio a polÃcia, fez o seu papel de costume e se mandou. Veio o traficante da área, serenou como pôde os ânimos e prometeu vingança, não ia sossegar enquanto não pusesse as mãos nesse calça-frouxa que vinha sujar a boca. No calor da revolta, os vizinhos da pobre mulher descreveram um moço que não era dali mas tinha cara de tarado: uma sobrancelha assim, um nariz assado, uma boca assustadora. Deixassem com ele, disse o outro. Na manhã seguinte, alguns moradores viram quando um garoto de bicicleta, com uma bolsa de plástico dependurada do guidom, apontou na esquina. Vinha parando de casa em casa, batendo palmas no portão. Quando era atendido, abria a bolsa, puxava pelos cabelos uma cabeça recém-cortada e disparava: "O homem mandou perguntar se é este?" Por via das dúvidas...
porra Luiz, o texto é muito bom, gostei mesmo, mas é mais apropriado para a seção "banco de cultura". Dá uma olhada no link ajuda. Valeu
Pedro Rocha · Fortaleza, CE 23/3/2006 08:31Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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