Um dia das mães especial em Manguinhos

Espaço Casa Viva-Rede CCAP
Alunos da Escola de Música de Manguinhos cantam no coral da escola
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Renata Melo · Nova Iguaçu, RJ
18/5/2012 · 1 · 0
 

Escola de Música de Manguinhos, favela na zona norte do Rio de Janeiro, encerra o primeiro bimestre do ano homenageando as mães com apresentações musicais preparadas pelos alunos

Do alto do palco as crianças se entreolhavam. Na barra do vestido, mãozinhas tensas. Dedos cruzados, olhares atônitos. O nervosismo se explica: é dia de apresentação da Escola de música de Manguinhos.Nesse último sábado de 12 de maio, véspera de dia das mães, foram elas as homenageadas no encerramento do bimestre da escola.A Escola de Música de Manguinhos existe desde 2007 e é fruto da parceria entre o Espaço Casa Viva (Redeccap), a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Fundação Oswaldo Cruz e a ONG italiana Cesvi.

Samba, hip hop, rock, gospel, poesia e muitos outros batuques invadiram a sala Elenice Saturnino, do Espaço Casa Viva.Quem vê o jovem Steffan de 17 anos transbordando charme e swing ao interpretar o samba “Ainda é tempo para viver feliz” e o rap pagodeado “Patricinha do olho azul”, não imagina que o rapaz seja tímido. “Quando você tá no palco você se liberta, entendeu? É um mundo só seu, ali você cria, você improvisa, você como que liberta um outro alguém de você”, explica o menino que há um ano estuda cavaquinho na Escola de Música de Manguinhos. De óculos escuros, casaco xadrez, com passos e ritmo marcados, ele arranca suspiros das meninas ao cantar. A inspiração vem de figuras como Michael Jackson, Ed Motta e de ritmos musicais que ele passou ouvir há pouco tempo: “antes só escutava samba e pagode, hoje ouço de tudo: samba, pagode, forró, black music, jazz, charme. Tem que ouvir de tudo. Por isso que é bom estudar, sua mente cresce”, conta.

Entre as 11 músicas apresentadas, a gospel “Sonda-me” de Aline Barros, tocada instrumentalmente, não precisava mesmo de intérprete. Foram aquelas cerca de 50 pessoas que lotaram a sala-anfiteatro do Espaço Casa Viva que, espontaneamente, cantaram em coro a canção. Para apresentar essas músicas, os jovens artistas de Manguinhos vêm se preparando há dois meses. O resultado são apresentações emocionantes. “Isso tudo é fruto de um processo, um reflexo do que eles estão aprendendo. E esse é sempre um processo em andamento”, afirma o professor Bruno Correa.
“Lindo, maravilhoso, adorei”, não faltaram adjetivos para dona Marlene Santos descrever a homenagem às mães. Com um presente numa mão e um pedaço de bolo na outra, a mãe de Gil Flores, cantora que animou o público ao interpretar clássicos do samba, foi uma das homenageadas naquela manhã. Moradora do Jacarezinho, favela vizinha à Manguinhos, sua relação com a comunidade sempre foi muito forte. “Meu filho passava de um lado pro outro pra jogar bola e eu sempre acompanhava ele”, lembra.

Felipe Eugênio, parte da equipe da Cooperação Social da presidência da Fiocruz e coordenador do Ecomuseu de Manguinhos analisa esse movimento como uma reinvenção do território a partir da arte: “Há um termo, a MCB que por um tempo fora mencionado por alguns músicos que - embora consagrados - eram críticos aos rumos demasiado mercadológicos que guiavam a sigla MPB. Chamavam de Musica Criativa Brasileira. Nada mais do que um reforço ao que a música popular no Brasil sempre foi; malgrado os tempos de jabás em rádio e sucessos-chiclete nas novelas, tempos ainda atuais. Em Manguinhos está sendo desenvolvida a música a partir dessa chave da criatividade, da reflexão contínua, do trabalho coletivo de invenção de arte. Seria – apenas - uma nova onda? Ou uma subida irreversível de maré?”, questiona.

Na primeira fila, uma das ouvintes mais atentas era Vanda Freire, responsável pelo projeto de extensão desenvolvido em parceria com a Escola de música da UFRJ e a Redeccap, dando origem a Escola de Música de Manguinhos, projeto que já rendeu até publicações em congressos internacionais. “Para a universidade, esse diálogo para fora dos muros é super importante porque provoca um compartilhamento, uma troca de conhecimentos com a sociedade”, acredita Vanda.

A escola não pára. Findas as apresentações deste sábado, inicia-se um novo ciclo de ensaios e de preparação para o próximo bimestre que se já se inicia. Uma onda de arte e criatividade que vem tomando, acorde, após acorde, degrau, após degrau, o território de Manguinhos.

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