A migração de vários sonhos, crenças, costumes, forças e esperanças de vários lugares do Brasil veio em busca de trabalho, sobrevivência, riqueza e de sonhos possÃveis que uma grande metrópole em desenvolvimento pode oferecer. Assim cresceu Ribeirão das Neves, à margem de tudo isso, pois não era o foco de toda essa gente, o sonho era Belo Horizonte. Em 40 anos, 93% da população mudou-se de diversas cidades brasileiras para trabalhar na grande capital, mas devido aos altos custos
imobiliários, residem no municÃpio e exercem suas funções profissionais no centro.
Ribeirão das Neves é a periferia escancarada, é a ausência de polÃticas públicas acumulada de muitos anos e exposta nas ruas, nos hospitais, nas paredes e nas poucas opções de lazer e entretenimento. Mas um movimento segue forte e no auge de sua autoestima, grupos que nasceram na “ponta da pontaâ€, na “periferia da periferiaâ€, ganharam voz e tem cada vez mais noção do papel de cidadania a ser exercido. Esses são termos utilizados pelos jovens do Coletivo Semifusa para caracterizar todo o desenvolvimento social e cidadão que parte de fora das famÃlias tradicionais que governaram a cidade durante muitos anos. Entende-se que Ribeirão das Neves está à margem de Belo Horizonte e quem não está no centro do poder do municÃpio está “à margem da margemâ€, com isso o trabalho é duas vezes mais complicado.
O ano de 2012 simbolizou o auge do processo de transformação social e de protagonismo juvenil da cidade com a construção de meios práticos de inserção do jovem na atuação cidadã, como o Festival Pá na Pedra realizado colaborativamente pelo Coletivo Semifusa que utiliza um evento cultural para promover debates, conversas, estudos sobre a cidade, ações educativas nas escolas, passeio turÃstico local, produção de mini-documentário além de shows de artistas locais e da região.
O grupo Acorda Neves também se destaca por se configurar através de uma comunidade no Facebook para discutir problemas da cidade e acompanhar o perÃodo eleitoral, o grupo se tornou fÃsico e foi as ruas protestar contra a venda de votos e outros problemas estruturais ignorados pelo Estado, acompanhando também as reuniões ordinárias da câmara municipal dos vereadores. O site ribeiraodasneves.net que se tornou o principal veÃculo de comunicação da cidade e se mantém de forma colaborativa por pessoas que produzem textos, reportagens, crônicas e coberturas de eventos.
Para muitos a história começa agora, no exato momento em que a ponta entende o seu direito, a sua força e suas perspectivas. Outro exemplo é a eleição da prefeita Daniela Correa (PT) moradora de poucos anos da cidade, residente no distrito de Justinópolis que disputou com Gláucia Brandão (PSDB) oriunda das famÃlias tradicionais, ex-deputada estadual, nascida na cidade, ou seja, a escolha foi para a mudança de poder, foi para a periferia ter um pouco mais de voz.
O próximo grande desafio é garimpar e expor toda a riqueza local, a riqueza que não se vê, apenas que se sente e vive. Diante de toda a diversidade das famÃlias de diferentes territórios, nota-se a cultura interiorana viva e toda a sua beleza, o bom convÃvio da vizinhança, a solidariedade, as amizades verdadeiras, as brincadeiras de crianças na rua e a hospitalidade.
Ainda existe uma abundância de benzedores, curandeiros, parteiros, raizeiros, guardas de congado e também de tecnologias sociais desenvolvidas para sobrevivência que surgiram nos “cantões†das fazendas e se transportaram com as pessoas. O desafio de Ribeirão das Neves não é somente gerar empregos e renda, mas também valorizar toda beleza guardada no peito e na memória de cada cidadão.
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