Quem sente o mau gosto musical que nos envolve por todos os lados, pensa logo que não há opção a fazer. Pode até imaginar que é obrigatória a sucumbência ao tecnobrega de Belém do Pará, ao axé music da Bahia e ao forró de plástico do Ceará.
Não, gente, ainda é muito cedo para dar um tiro na cabeça. É só procurar que você encontra gente nova fazendo boa música, mas às vezes não necessariamente música nova, porque dirão alguns que lançar um CD com 10 músicas das quais somente duas são inéditas, não é uma coisa para ser elogiada.
Claro que é. As oito músicas relançadas valem o repeteco ou a releitura. São da década de 70, uma das mais ricas da música brasileira, com ditadura, censura e tudo. Pois quem fez isso muito bem foi a paulista Verônica Ferriani, nascida em Ribeirão Preto há 31 anos. Mudou-se para São Paulo a fim de estudar Arquitetura e Urbanismo na USP com 17 anos, porém depois de formada enveredou mesmo foi pelo campo da música, uma vez que desde os 9 anos cantava e tocava violão.
E a menina subiu ao palco pela primeira vez em 2004, como vocalista da banda do artista Chico Saraiva. Depois disso, dividiu palcos com Beth Carvalho, Ivan Lins, Jair Rodrigues, Francis Hime, Élton Medeiros, Moacyr Luz, Martinho da Vila, Mart’nália, Tom Zé, Paulinho Moska e Marcelo D2. Colocou a voz em discos de Lúcio Maia (Nação Zumbi), Flávio Henrique e nos CDs comemorativos do centenário de Ataulfo Alves e Adoniran Barbosa. Participou ainda (mesmo sem nenhum disco solo lançado) do programa Som Brasil (TV Globo, 2007) cantando a obra de Ivan Lins.
Tornando-se uma artista conhecida, fez temporada na casa Traço de União, reduto do samba de raiz em São Paulo, abrindo a noitada para artistas como Monarco, Nélson Sargento, Riachão, Walter Alfaiate, Wilson Moreira, Luiz Carlos da Vila e Billy Blanco, o que lhe valeu convite para uma temporada de dois anos no bar Carioca da Gema, importante reduto do samba carioca na Lapa onde conheceu artistas de diferentes gerações do samba. Também fez parte da banda Gafieira São Paulo, que ficou em cartaz durante dois anos no Tom Jazz (2007/08).
O tão esperado primeiro CD da cantora saiu em 2009, com produção musical de Bid e distribuição da Tratore. O disco apresenta um repertório fruto de cuidadosa pesquisa, mas não surpreende pelo bom gosto. Além de duas canções inéditas, como o frevo “Na Volta da Ladeira” – com arranjo de metais e participação do Maestro Spok – e o bolero-canção “Bem Feito” (ambas de autoria da dupla Rubens Nogueira/Paulo César Pinheiro), reaparecem com nova roupagem sonora algumas pérolas de compositores consagrados na década de 70: Paulinho da Viola, “Perder e Ganhar”, os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle com a rebelde “Com Mais de Trinta”, baseada na frase dos estudantes de Paris em maio do efervescente 1968 “Não confie em ninguém com mais de trinta anos”. Há também a suave “Ahiê”, de João Donato e “Um Sorriso nos Lábios”, de um Gonzaguinha ainda pouco conhecido. Também no repertório está “If You Want to Be a Lover”, parceria de Luiz Henrique com o norte-americano Oscar Brown Jr., gravada originalmente por Luiz e Liza Minelli. De Assis Valente, Verônica trouxe a excelente “Fez Bobagem” e “Retalhos”, de Paulinho Rezende e Debétio.
Esse primeiro álbum de Verônica Ferriani conta com músicos tarimbados como o percussionista Jaguara, o bandolinista Felipe Pinaud, o acordeonista Magoo e Vitor da Candelária nas congas, entre outros artistas. Foi gravado como se fosse ao vivo e talvez por isso o trabalho tenha cheiro de reunião de botequim ou de roda de samba entre amigos. É um disco não entupido de sons, moderno e muito gostoso de ser ouvido.
A música escolhida por mim para tocar aqui é “Com Mais de 30”, dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle que nos remete para um choque de gerações previsto em frase dos movimentos hippies e da estudantada de Paris em maio de 1968, um ano de grandes rebeldias no mundo: “Não confie em ninguém com mais de 30 anos”.
Este samba rock foi gravado pela cantora Cláudia e fez muito sucesso. Hoje, ao ouvir esta versão na voz de Verônica, sinto um misto de alegria e tristeza. Tristeza pelo envelhecimento que me acomete e alegria pela lembrança de bons momentos de um passado vibrante.
Verônica Ferriani é uma grande artista. Ela e Flávia Bittencourt são cantoras que me surpreenderam pelo talento em meio a tanta mediocridade das cantoras midiáticas.
Boa audição!
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