Zé Duda da Paraíba, o “Rei da Sacanagem”

Mariana Filgueiras
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Mariana Filgueiras · Rio de Janeiro, RJ
5/11/2011 · 16 · 0
 

José Herculano dos Santos, o “Zé Duda da Paraíba”, é um sujeito “opinioso”, como gosta de dizer. Desde que o pai foi buscar a família em Campina Grande, na Paraíba, em 1959, para morar no Rio de Janeiro. O jovem, então aos 26 anos, não quis vir de jeito nenhum. Bateu o pé, segurou a viola e disse: “Vô não”. Já era repentista havia cinco anos nas feiras e praças da cidade, a vida estava boa, para que o Sul-Maravilha? Mas o pai engrossou e o rapaz veio contrariado. De lá, trouxe a viola, duas mudas de roupa, o apelido, “Zé Duda” (que ganhou de uma namorada, que sabe-se lá por que só o chamava de “Dudinha”), a paixão pela música e um diferencial: o talento para as rimas de sacanagem. Hoje, aos 78 anos, o cantador mais antigo da Feira de São Cristovão, o reduto de migrantes nordestinos na Zona Norte do Rio, é o último bastião desta vertente quase extinta na arte do repente.

Em Pernambuco, contam os repentistas da feira, ainda tem o Manoel Serrador, mas no Rio de Janeiro, só tem ele. Ninguém mais tem a habilidade de Zé Duda: ele empunha a viola, encaixa a bituca do cigarro entre as cordas no braço do instrumento e, se pedirem (e sempre pedem) solta versos que fariam corar Maria Bonita. Usa à exaustão palavras como “pirueta”, “cansaço” e “baiacu”, rimas fáceis. É preciso prestar atenção para não se perder nas histórias cantadas, pois os versos sugerem situações tão, digamos, inesperadas, que não é raro Zé Duda colocar o próprio ouvinte na patuscada. Mas, antes que alguém se aperreie com a brincadeira, ele rima “esmaecida” com “feliz da vida” e todos aplaudem, deixando alguns trocados no seu chapéu.

“Eu tenho um bocado de verso imoral, mas só canto quando pedem. E são as mulheres que pedem mais...”, comenta Zé Duda, sentado num bar, num dos intervalos da apresentação que faz todos os domingos, na Feira de São Cristovão, das 10h às 17h.

O repentista tem três shows que faz sob encomenda, ao custo de R$ 1 mil a noite (negociável, dependendo do local do evento): um de repentes “normais”, aquele com temas de desafio ao segundo violeiro (ver box); um de repentes “de sacanagem”, com rimas e versos pornográficos, e um show que ele chama de “segundas intenções”, com trocadilhos e maledicências mais suaves.

“Para fazer o “segundas intenções” até hoje não apareceu ninguém melhor do que eu [Canta um trecho: “Mulher, baixa essa perna, senão eu fico tarado. Você mostrando o que é bom, eu fico quase vexado...”]. Mas o povo gosta é da sacanagem braba, mesmo! É o que faz mais sucesso. Sou chamado para cantar em despedida de solteiro, evento particular, casa de família. Eu só peço para tirar as crianças de perto”, pondera Zé, que nunca gravou um disco sequer.

Zé é adepto das sextilhas, a poética mais usada pelos cantadores, com estrofes de seis versos de sete sílabas em ritmo do baião. Ele faz questão de explicar que em seus motes não despreza a mulher nem a trata com desrespeito. Gosta mesmo é de estimular a imaginação das pessoas. Se já usou os versos para descrever relações homossexuais?

“Claro. Eu faço de homem com homem porque... porque o povo gosta, oras, e eu faço mesmo!”, anima-se, batendo o punho fechado na mesa de lata.

A inspiração para tanta sacanagem vem, é claro, da sacanagem.

“Meu combustível é mulher. Hoje mesmo vai uma lá em casa, às 18h30, quando eu sair daqui”, revela Zé Duda, olhando no relógio.

É um dos seus “xodós”, como prefere dizer, deixando escapar que não tem cabresto. Fumante inveterado, garante ter mais disposição do que muito jovem por aí.

“Deus me deu três coisas boas: a paciência, a minha voz (eu cheguei a cantar dois dias e uma noite no Canindé e não me deixaram dormir) e a minha disposição. Se a pessoa disser que não gosta de sexo, não vive”, intriga-se.

José Herculano vive sozinho numa casa em Nova Holanda, uma das 16 favelas do Complexo da Maré, localizado à margem da Baía de Guanabara, próxima ao campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá, recebe visitas alternadas das duas namoradas, seus “xodós”. Não tem esposa, mas tem vários filhos, de muitos “xodós” diferentes. São 28 no total: 18 mulheres, dez homens (a mais velha tem 62 anos, o mais novo tem apenas dez), alguns já falecidos. Ao falar dos filhos, deixa a marra de conquistador de lado, tira o chapéu, coça a cabeça ainda cheia de cabelo e os olhos enchem d’água.

“Meus filhos são muito bons para mim, graças a Deus. Só moro aqui (no Rio) por causa dos meus filhos. Senão eu tava lá no Norte. Domingo atrasado vieram 13 me ver. Foi bom pra danado”, diz Zé, limpando os olhos (agora, o esmaecido é ele).

Zé casou algumas vezes, mas não deu certo. A última mulher que teve botou-lhe um chifre: “O único da minha vida”, ressalta. Nunca mais quis saber de casamento. Afinal, é um sujeito opinioso, e quando bota uma coisa na cabeça, seja uma ideia ou um chifre...


É de pequeno que se torce o pepino

Nascido em Campina Grande em 1933, José Herculano tinha outros sete irmãos. A mãe vinha de uma família braba do sertão. Gente perigosa, conta Zé Duda. Já a família do pai era tinhosa. Zé faz muita diferença, marcada pela entonação das palavras, entre ser “brabo” e ser “tinhoso”. A cruza, no entanto, deu boa gente, taí o artista que não deixa mentir. Foi o único da família “dos Santos” que nasceu com o dote de cantar. A tocar, aprendeu sozinho. Tocar... Zé Duda emenda logo uma piada irresistível para quem é o rei do duplo sentido.

Logo começou a cantar numa rádio de Campina Grande. Mas “Zé Duda” já era o nome de um cantador. Foi quando o amigo Cícero Cordeiro, o “Mocó do Cordel” sugeriu um “da Paraíba” para marcar a diferença. E assim nasceu o “Zé Duda da Paraíba”. Começava a fazer algum sucesso quando o pai apareceu de volta, querendo arrastar a família toda para o Rio de Janeiro. Era a virada da década de 1960, o primeiro grande êxodo de nordestinos em direção ao Sudeste. Chegando lá, foram morar na Rocinha, hoje uma das maiores favelas da América latina, que na época ainda era um vilarejo de barracos frágeis e sem qualquer infraestrutura. Ficaram apenas cinco dias: uma chuva fez desabar uma pedreira em cima do barraco que a família acabara de ocupar. De lá foram todos para um casebre em Vila Isabel, provisoriamente. Depois, se instalaram na favela da Praia de Ramos, próximo ao local onde vive ainda hoje.

No Rio, o rapaz franzino de nariz adunco teve de aparar as unhas enormes que deixava crescer por conta do violão para trabalhar em toda sorte de emprego que aparecia: foi pedreiro, pescador, vendedor. Logo foi se enturmando na Feira de São Cristóvão e a cantoria lhe salvou de levar uma vida comezinha. O sucesso deu meia volta em seu caminho: em 1984, participou do filme “Os Trapalhões e o Mágico de Oroz” e da novela “Rabo de Saia”, interpretando ele mesmo, um violeiro repentista. Anos mais tarde, conseguiu juntar dinheiro para voltar à terra natal e ficou lá por dois meses. Juntou mais um pouco para voltar ao Rio, sempre com seus três tipos de repente. Percebeu que dava para manter o esquema: passava o verão no Nordeste e o resto do ano no Rio de Janeiro. Juntava de lá e de cá, fazia um filho aqui e outro acolá e vamo simbora.

Nessa vida de repente, xodó... e filho, a cachaça quase o derrubou. Quase, não, chegou mesmo a derrubá-lo, literalmente, duas vezes. As duas na feira. Na última vez, decidiu parar de beber. Zé Duda talvez tenha sido o único bebum na história a cumprir a promessa da ressaca: há um ano e sete meses não põe na boca uma gota de álcool. Agora é só refrigerante. O dono do bar que Zé escolheu para dar a entrevista chegou a se admirar na hora desta revelação, arregalando os olhos atrás do balcão: “Zé Duda, parou de beber?”, perguntou, em tom alto.

“No começo eu achei ruim, agora já acostumei”, responde Duda, tomando uma Coca-Cola e juntando o dono do bar na conversa. “Eu sou forte, só não parei de fumar. Eu sou o mais velho daqui, todos eles enrouqueceram (os outros oito repentistas da Feira), e eu ainda não enrouqueci. Mas se o cigarro me ofender como a bebida me ofendeu, eu paro também.

E pelo visto, só a bebida o ofendeu até hoje. Duas semanas antes da conversa, Zé Duda foi com uma das filhas “bater um check-up” para ver se estava tudo em ordem com a saúde. Estava tudo impecável.

“Sou forte, não dizendo? A dotora ficou impressionada. Nunca tive fastio.”

Nem inimizade. Zé Duda é querido por todos na feira. O carinho é demonstrado com zombaria entre os colegas, seja o dono do bar (“Esse é mais feio que surra!”, diz Duda) ou do parceiro de repente, Severino Felipe Gomes, o “Zé Sinval”, 65 anos, que divide com ele a Praça Catolé do Rocha, onde se reúnem os repentistas e violeiros na Feira. Por Zé Sinval descobre-se que ele tem outro apelido: “Zé do Cabelo Ruim”, implicância com seu cabelinho crespo e cheio, branco como algodão.

“Esse paraíba é um cabra safado, escreve aí”, sugere Zé Sinval, também paraibano, mas de Araruna, parceiro e amigo de Zé Duda há mais de 20 anos.

“Cabra safado é sua mãe, seu peste”, devolve Zé Duda, logo engatando um abraço no amigo.

É uma das características do cangaceiro, explica Duda:

“Ao mesmo tempo que dá um beijo, dá um coice.”

Outra é o talento para atividades inusitadas: se Lampião sabia costurar e bordar, Zé Duda lê mãos e põe cartas de Tarô. Tão logo se apresenta a alguém, lhe pergunta o signo. Ele é libra. Zé Duda diz ter completado os estudos, mas não se lembra até qual série cursou enquanto viveu em Campina Grande. E além de estudar misticismos, Zé Duda lê tudo sobre a vida do cangaceiro Antonio Silvino, o mais importante chefe do cangaço antes de Lampião. E é chamado com freqüência para dar palestras (cantadas ou não) sobre a vida do herói pernambucano.

“Antonio Silvino era cangaceiro mas não era bandido. O povo só fala de Lampião. Só fala de quem não presta. Enquanto isso, nunca foi registrada nenhuma morte em nome de Antonio Silvino. Valentia é uma coisa, assassinato e covardia outra”, defende Duda, que pede licença para interromper o que seria um início de palestra para despedir-se.

Afinal, são quase 18h, hora marcada do encontro com seu “xodó”. E seja por valentia ou repertório, é preciso manter a “disposição”...


*Esta matéria foi editada e faz parte da edição nº 3 da Revista Digital Overmundo.

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