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Maurício Mauri · Maceió, AL
3/10/2006 · 15 · 0
 

Vinte e três horas e quarenta e três minutos de um dia perdido e incerto. O nosso encontro está marcado para a primeira madrugada fria do outono. O orvalho cobre os carros na rua e embaça as janelas. O remédio para o sono não me fez bem. Já não surte efeito. Dobrei a dose, duas gordas cápsulas. Fiquei dopado, catatônico, mas não preguei o olho. O próximo metrô para aquele lado da cidade saí em poucos minutos. Tenho tempo de pegar o paletó manchado e um maço de cigarros amassados. Acho que dormi em cima deles, ou quase.
O remédio para o sono me deixou paralisado sobre a cama, assistindo o pó se assentar sobre os móveis gastos do meu quarto e sala imersos em livros e jornais antigos. Maior clichê literário de meia idade impossível. A fechadura vacila, quase emperra. É bom apertar o passo se não perco o metrô.
À noite as vielas estreitas e longas do meu bairro assumem a forma de um labirinto caustico já pré-estabelecido pela minha cabeça. Eu encaro o percurso desconhecendo o ambiente, noiado com as sombras, flutuando sobre a calçada.
Passei os últimos dias deitado sobre a cama vendo os meus restos recobrirem o apartamento. Células mortas, fios de cabelo, um dente postiço, cascas de feridas que não cicatrizam. Células mortas de um moribundo.
Cinco meses, vinte e três dias, cinco horas, cinqüenta e seis minutos e trinta e quatro segundos sem beber. Trinta e cinco segundos. Trinta e seis. Resta pouca coisa pra pensar enquanto o metrô avança na escuridão dos trilhos. Dentro do meu vagão escuto risos. Olho para o fundo e vejo um velho maltrapilho que parece se divertir com a própria miséria. Ignoro. Fecho os olhos e desejo que algo interrompa a viagem. Uma colisão com um trem descarrilado. Uma rocha gigante sobre os trilhos. Visualizo a primeira capa de todos os jornais de amanhã: "fanáticos religiosos praticam suicídio coletivo se amarrando aos trilhos do metro". Corpos desmontados dando trabalho aos peritos. Dezenas de membros cauterizados pelo calor instantâneo, separados dos corpos, embaralhados. O caos total. Abro os olhos e o velho me encara. Abaixo a cabeça e acendo um cigarro sem filtro. Através da janela embaçada vejo as luzes da cidade desfigurada pela noite e pela neblina. Lá fora vejo vultos. Uma multidão caminha rente aos trilhos, todas as figuras escapam pelo mesmo ponto de fuga. Pisco e todos os olhos me fitam. Pisco novamente e não há mais ninguém lá fora. Volto o olhar para o interior do vagão e estou sozinho, não pude perceber ainda, mas o trem está parado.
Me levanto, vou em direção a porta e no momento de saltar para a plataforma da estação minha perna esquerda se perde no vão entre o trem e o piso. Quando dou por mim estou beijando a lama sob o trem. Permaneço assim por um instante. Olho para os trilhos e vejo a cabeça do velho a me encarar com um olhar serio de cabeça sem corpo. Me sinto censurado. O vão é muito estreito, então espero o trem partir para me levantar. O trem começa a seguir e a cabeça vai atrás rolando a me olhar com grande desagrado. Se a cabeça tivesse pescoço estaria balançando em negação, mas não, aquele olhar reprovador é deveras pior. Escalo a plataforma quase rastejando, fico de pé, bato toda a poeira e os pedregulhos do paletó, olho em volta e não me surpreendo: estação errada. Perdi os cigarros e a vontade de fumar. Faço pouco caso e me decido por ir andando.
...

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