Pensando brevemente nas relações interpessoais, fui detido por uma delas em particular: a que se trava em aplicativos de localização e encontros (casuais?) amorosos. Fiquei pasmo. É que eu sou um cara que as pessoas podem chamar de ingênuo, portanto não liguem se eu demorei para chegar à conclusão que vou enunciar agora: são aplicativos para trolls. São aplicativos de "zueira". Direi por que acho isso no próximo parágrafo.
Ora, lembrando das vezes em que pedi para ver fotos de rosto, em quase todas a reação foi a mesma: envio de tudo menos foto de rosto. A cada tanto gosto de crer que eu tenho ao menos um pouco de fé nas pessoas. Então me punha a indagar a mim mesmo: "Estou fazendo um jogo de palavras sem perceber?", "O que peço soa como um trava-lÃnguas (ou trava-cérebros)?" e "Será que a lÃngua portuguesa está avançando tão rápido com essa tal de internet e quem está ficando ultrapassado sou eu?"
Quais tipos de foto eu recebia? Pois podem dar os palpites que quiserem, provavelmente já fui premiado com alguma no nÃvel mais absurdo. Isso porque uso a palavra "rosto" para ser o mais politicamente correto possÃvel (tendo em vista o tempo em que vivemos). Talvez se eu usar "cara", "fuça", "focinho" me faça entender. Não posso usar "tromba" porque... bem, é sugestivo. E se eu decidisse ser mais ousado e criativo? "Envie-me uma foto de vossa carranqueza, por favor." Não sei, ainda estou pensando nisso.
Enfim, eis aqui alguns tipos mais comuns de fotos que os trolls me enviaram "de zueira": pixelizada, turva, granulada; de óculos escuros, de boné, na penumbra, à noite sem flash, atrás de uma árvore, atrás de algum parente ou amigo; no meio da balada com uns 10 pokemons na mesma foto; olhando bem para cima, ou para trás, ou para baixo.
Até agora, só não me enviaram caricaturas ou figuras em braile. Nunca parei para imaginar a mirÃade de maneiras que o ser humano pode arranjar para esconder o rosto numa foto. Faça um documentário com esses indivÃduos e terá um thriller com mais suspense que os filmes do Jason Bourne. Ironicamente, não percebem que se estão tentando se esconder da polÃcia ou de qualquer outra pessoa, não deveriam usar dispositivos com GPS.
E assim é a vida hoje. Vivemos numa sociedade ocidental tão bonitinha, que ridiculariza o "conservadorismo islâmico" e essas coisas. Só não percebemos que cada vez mais usamos burcas também, só que confundimos uma saÃda com outra (ou duas entradas, ou mais, do corpo) e ao invés de usá-la com a única fresta na altura dos olhos, damos nosso jeitinho para colocá-la na altura das partes Ãntimas. E não falo do coração.
Crônica escrita no perfil do autor no Facebook, em 03 de janeiro de 2014, sobre o islã à brasileira, ou o qual parte do corpo a brasilidade mais visa censurar, especialmente em alguns aplicativos.
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