A Complexa Temática de Stanley Kubrick

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Nina Hellena · Curitiba, PR
27/1/2010 · 3 · 1
 

Quando os fogos de artifício anunciaram a chegada de 1968, jamais poderiam saber tudo o que estava a caminho. A velha ordem estava acabando e um aviso de quem quisesse alegremente aceitar o que estava por vir não deveria ter medo do caos. Pelo mundo afora o que era sonho tinha acabado de virar paixão e determinação.
Em 68, o mundo estava mudando numa velocidade muito maior do que sempre muda. E algo assim não acontece a toda hora. Há explicações históricas, filosóficas, sociológicas e até astrológicas para este fato. A História se faz com indivíduos. Indivíduos carismáticos, sonhadores, ranzinzas, realistas, ousados e até loucos. Ano da Guerra do Viena, dos protestos em Sorbonne, das revoluções na moda, das questões femininas e homossexuais na sociedade ocidental, dos grandes festivais de MPB, o assassinato de Martin Luther King, da luta contra o racismo nos Estados Unidos, só para citar algumas. Em 68 foram lançadas várias obras primas do cinema: “Barbarella” de Roger Vadim, “Beijos Proibidos” de François Truffaut, ”Faces” de John Cassavettes, “O Bebê de Rosemary” um clássico do terror psicológico de Roman Polanski, “O Planeta dos Macacos” de Franklin Schaffner, ”Romeu e Julieta” adaptação de Willian Shakespeare pelo italiano Franco Zefirelli, “Teorema” de Pasolini, “Um Estranho Casal” de Gene Sacks, que iria abrir caminhos para o gênero de Woody Allen na próxima década, ”Uma Pistola Para Cem caixões” Umberto Lenzi e “Viva Django” de Ferdinando Baldi (nesta época o “bang-bang” italiano era muito popular). Neste clima de ebulição histórica também foi lançado “2001, uma odisséia no espaço” por um destes indivíduos geniais, transformadores chamado Stanley Kubrick, autor de uma obra cinematográfica de grandeza incontestável. Um garoto de dezessete anos que trabalhava como aprendiz de fotógrafo em uma pequena revista que ganhou o mundo com seus filmes sempre polêmicos e geniais tanto pelos temas quanto pela questão técnica.
Kubrick foi o único cineasta que não se prendeu a nenhum gênero específico. Apesar de distintos entre si, seus filmes sempre foram carregados de simbologias e todos, de alguma forma, levam o espectador a uma reflexão acerca da condição humana diante das situações.
A montagem no cinema de Stanley Kubrick não se limita a um simples trabalho de cortes e colagens, é também, acima de tudo uma criação. Ela impõe uma poética própria, que torna a autoria incontestável mesmo analisando filmes de temática tão diferentes entre si como “Lolita” (1962), “Laranja Mecânica”(1971) ou “O Iluminado” (1980) todos nos trazem um estilo inconfundível e revelam acima de tudo uma visão original de mundo. Uma organização do real visando satisfazer simultaneamente a inteligência e a sensibilidade d o espectador, provocando a emoção artística, o efeito dramático ou onírico utilizando cenários e personagens, tempo e o espaço com maestria, o eu coloca o autor e sua obra no patamar dos grandes cineastas e estetas do cinema mundial como Einsenstein, Pudovkin, Balazs e Hitchcock.
Para Elie Faure “o cinema, arquitetura em movimento, consegue despertar sensações musicais que se solidarizam no tempo.” Na verdade, “uma música que nos atinge pelos olhos”. Ordem e proporção no espaço e no tempo, tudo isso é resultado de uma montagem criativa e habilmente realizada que faz de um bom file um poema, a “arquitetura do movimento”, uma “música que atinge através dos olhos”, uma criação pictural, uma dança de imagens.
Kubrick nos deixa com sua obra grandes personagens atemporais, contraculturais, que nos levam a questionar as relações humanas e o mundo em que vivemos, uma série de brilhantes adaptações literárias, excelentes roteiros em parceria com escritores do calibre de Arthur Clarke (2001, Uma Odisséia no Espaço) e Vladmir Nabokov (Lolita) este último que causou desentendimento entre os amigos Kubrick e Nabokov, pois o primeiro deu rumos completamente inusitados ao roteiro incluindo espionagem e tramas conspiratórias, o que desvirtuava completamente a história da ligação entre o professor de meia idade e a adolescente provocante vivida por Shelley Winters.
O que dizer de “Alex, the Large”, o garoto marginalizado pela sociedade do livro de Anthony Burguess, que é utilizado como joguete por poderes políticos e quando retorna ao lar, vê seu mundo modificado a ponto de não mais poder confiar nas pessoas ao seu redor? O final da adaptação de Kubrick (A Clockwork Orange) nos deixa uma questão: O “Método Ludovico” realmente recupera e regera Alex a ponto de conviver pacificamente em sociedade? Viver em sociedade requer nada mais do que uma grande dose de cinismo? Todos os cidadãos agem conforme os próprios interesses e todo altruísmo e qualquer atitude benevolente está mascarada com uma imagem projetada?
A sensual adolescente “Dolores” que com a aparente inocência dos seus quatorze anos nos revela uma personalidade sedutora, maliciosa e extremamente inteligente capaz de manipular e arruinar a vida de um pacato professor de meia idade que se muda para uma cidade do interior.
O carismático e irreverente Dr. Strangelove que transforma a questão nuclear praticamente em comédia.
O soturno escritor Jack de “O Iluminado”, que para terminar seu trabalho se muda com a esposa e o filho para um hotel nas montanhas onde havia acontecido uma chacina anos atrás. Kubrick mais uma vez, brilhante, nos transporta ao universo descrito no livro homônimo de Stephen King. Os corredores soturnos, o clima mórbido, as mudanças de personalidade de Jack Nicholson (recém saído de “Um Estranho no Ninho” de Milos Forman que pessoalmente falando, foi a escolha mais acertada para o papel), a resignação da mulher de Jack diante das atitudes do marido.
Os horrores da guerra, os abusos de autoridade e poder cometidos por militares levando um soldado ao suicídio em “Nascido Para Matar” pela violência psicológica a que foi submetido simplesmente por não conseguir ser “o melhor” ou “the winner”, questão tão corriqueira na sociedade norte-americana que até hoje leva adolescentes a cometerem chacinas em escolas por serem zombados e excluídos pelos colegas.
E por fim, deixando de lado alguns outros, o computador HAL de “2001, Uma Odisséia no Espaço”, tema principal deste artigo como veremos a seguir. Tendo por base a evolução do homem, desde a sua emergência do mundo animal até ao domínio de uma tecnologia capaz de construir entidades como o mega computador HAL, uma das questões que o filme coloca é a de saber qual será a próxima etapa? O personagem mais carismático do filme antevê a relação de dependência do ser humano com as máquinas criadas pelo homem. Temas semelhantes nos mostram George Orwell em “1984” e Aldouxs Huxley no livro “Admirável Mundo Novo”, onde os seres humanos são vigiados e manipulados pelas máquinas e pela ciência. No filme de Kubrick o objetivo principal era Saturno. Dos cinco tripulantes, apenas dois estavam acordados, os outros três encontravam-se em hibernação, pois só seriam necessários quando a nave entrasse na órbita de Saturno. Dois astronautas, entre eles Bowman, tinham que tripular a nave até seu destino, função na qual eram auxiliados pelo sexto membro da tripulação, o “simpático” computador HAL 9000 que na verdade era quem comandava a nave sendo o cérebro e sistema nervoso. Hal era capaz de reproduzir a maioria das atividades do cérebro humano, mas com maior velocidade e rapidez, ou seja, os superando. A sua principal tarefa era monitorar os sistemas de apoio de vida dos quais dependiam as vidas dos outros tripulantes e vigiar os sistemas de hibernação e numa emergência, ele poderia tomar o comando da nave. Quando problemas acontecem, Bowman percebe entre as falas de HAL que o que estava acontecendo não era mero acidente e que a máquina estava tentando assassinar a tripulação. Mas apesar disso tudo afirmo que HAL é o personagem mais carismático do filme, pensem em um robozinho que diz “espere um minuto” e canta uma canção. Desligar HAL para Bowman era como matar o inimigo para garantir sua sobrevivência, trazendo a questão homem versus máquina.

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Nina Hellena
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Marcos Filho
 

não costumo cultuar diretores/produtores... mas kubrick é um caso à parte: gosto muito dos seus filmes e, particularmente, 2001, é um dos filmes mais importantes na minha vida... acho fantástico o deleite que são as cenas desapressadas (ao som de clássicos) e também a cena do macaco descobrindo a arma (e o som, de novo, fantástico, o zaratrusta)... outra cena, a do final... meu, o que é aquela casa (?!), aquele senhor , o astral atemporal, bem diferente, como se fosse outra realidade, outra dimensão... realmente é uma imaginação incrível... e talvez mais incrível conseguir passar isso tudo pras telas... e os obeliscos... realmente... é uma maravilha da natureza (cinematográfica)... valeu pelo texto trazendo à lembrança esse grande filme (que muitos não gostam, pois acham-no maçante, muito longo... pois eu acho muito curto! rs).... abraço

Marcos Filho · Campo Grande, MS 29/1/2010 01:58
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