A Galinha antes vivia num local apertado, cheio de pequenos di-tadores lhe dizendo o que fazer. Mas os métodos de qualidade total mudaram. Ela foi transferida para um novo galinheiro, onde podia fazer o que quisesse. Reduziram sua ração à um terço, agora ela tinha um pequeno circo de papel que rodava dependendo do nume-ro de horas que ela comia e botava ovos. Como ficava cansada, não consegui mais fazer sexo com o galo, mas assistia o teatro das galinhas trepando. Também tinha de dar sua contribuição para o desenvolvimento da fazenda como um todo, que além de ter de pagar a dÃvida com a madeireira, na construção da superpiscina do dono, ainda tinha de ter um superavÃtil primário para sei lá o que. Ela tinha direito de tomar aquele xarope escuro, que aparecia no teatri-nho, e agora já era parte de sua personalidade. Aliás, notou que o único assunto que tinha com as outras galinhas – também mortas de trabalhar – era sobre as coisinhas do palco.
Será que o Galo do Bosta Boa de Galinha (BBG) vai ficar com a Galinha Puta? E sabe que tudo começou a ser privatizado: para beber água, tinha que dar um extra, para fazer uns “cocoricóâ€, dan-çava na mesada. Aos poucos ela percebeu que não tinha a mÃnima noção do que ela era, além do fato de ter de estar sempre se diver-tindo, e morrendo de trabalhar. E, na verdade, quem criava o enre-do do teatrinho era o dono da fazenda, que nem galinha era. O dono da fazenda, seja lá de onde tenha tirado essa idéia, cortou todos os programas de ajuda à s galinhas, para pagar a dÃvida. Também des-truiu qualquer controle sobre o limite de horas de trabalho por grão, de modo que tudo pode custar uma fortuna. Agora parece que tudo era comprado num sistema “liberalizadoâ€, de modo que tudo era mais caro, e as galinhas tinham de pagar por isso. As leis protetoras do trabalho das galinhas foram eliminadas. As galinhas rebel-des, segundo o teatrinho, se tornaram “terroristasâ€. A educação das galinhas acabou. As galinhas que ainda tinham força pagavam por alguma saúde, as outras iam caindo. Formou-se uma “polÃcia de repressão a galinha não-alinhadaâ€, que contava com câmeras de vÃdeo. Agora a fazenda fazia parte de uma Fazenda Global, e era governada por empresas das Grandes Fazendas. Havia agora até jor-nais globais, com sua esquerda de defesa do aborto. Pior, ela se lembrava de várias Galinhas mais rebeldes, que agora eram tema de shows no palquinho e usavam a causa da “Liberdade†para angariar fama galinácea. E assim a Via da galinha foi passando: cada vez ti-nha mais liberdade, e cada vez sentia mais que perdera alguma coisa.
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