A identidade através da modificação corporal - O corpo na sociedade capitalista

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Shel Almeida · Bragança Paulista, SP
17/9/2009 · 3 · 0
 


Os freqüentes processos de alteração corporal vistos, recentemente, na sociedade ocidental, mostram como identidade, corpo e consumo passam a ser influenciados um pelo outro, de maneira a interferir nas decisões dos indivíduos. Trata-se se um novo fenômeno cultural, ao qual, não apenas as modificações corporais– tatuagens e piercings - fazem partem, mas também aquelas que recebem maior consentimento da sociedade, como as cirurgias estéticas. Estas, por sinal, exemplificam, claramente, como os valores burgueses influenciaram as outras classes, o que, neste caso, ajudou a fazer do corpo mais um bem de consumo. Dessa maneira, conseguiu-se legitimar as modificações físicas, tornando-as aceitáveis, e estabelecendo aos indivíduos o poder de construção de suas identidades corporais. No entanto, vale ressaltar, dentro desse novo sistema, mais flexível que de os de outras épocas, inclui-se a lógica de mercado. O que antes recebia valor de compra, apenas refletia materiais de exteriorização. Hoje, o corpo, além de carregar os anseios do indivíduo em roupas e demais adornos, carrega, em si mesmo, esses desejos e questionamentos. Não se tornou apenas um objeto de mercado, mas também uma mídia.
Nesse recente mercado, as demandas surgem também na forma de apropriação cultural. As modificações corporais invasivas (as que mudam irreversivelmente o corpo) relacionadas à estética agregam em si o valor da contemporaneidade, da sociedade regida por padrões visuais. Já as tatuagens e os piercings seriam empréstimos de outras sociedades, sobretudo as tribais, mesmo sendo vistos hoje, na cultura moderna, como algo que agrega outra espécie de valores, que não os ritualísticos, como Kênia Kemp explica: “Essa apropriação cultural se deveu exatamente porque entre nós era um símbolo de exclusão, e os grupos que de alguma forma queriam se posicionar contrários aos valores vigentes em nossa sociedade adotaram as tatuagens como expressão de discordância e de auto-afirmação. Grupos subculturais e minorias imediatamente aderiram ao uso sistemático das tatuagens como símbolo de sua condição. [...] De uma espécie de contracultura, as tatuagens foram sendo trazidas ao sistema dentro de um percurso que transformou totalmente seu sentido inicial de protesto para outro que é identidade, segmentação e estilo.”
Como a tatuagem começou a ser incorporada culturalmente, abriu-se espaço para que outras formas de modificação corporal começassem a ser aceitas. Por trás dessa nova maneira de ver e permitir que o corpo faça parte do todo que é o ser, formado, ainda, pela consciência e pelas emoções, haveria uma crescente organização social de excluídos articulando suas idéias com base na multiplicidade. Entretanto, é preciso lembrar que essa multiplicidade aparece no sentido de “múltiplos tipos” de indivíduos e pensamentos. São diversas minorias que se unem, contudo, cada uma delas busca seu caráter particular de inclusão. Kênia Kemp explica a individualidade na cultura atual: “A noção de individualização, comum a todas as culturas – universal -, transformou-se na cultura ocidental primeiro em figura jurídica, religiosa, psicológica e moral. Com o desenvolvimento da filosofia ocidental, a pessoa passa a ser substância racional e indivisível, logo, indivíduo. E finalmente com o desenvolvimento da economia capitalista, a individualização se transforma em uma ideologia, o individualismo.”
O que, em outras culturas, só tem propósito se corresponder a uma relação entre corpo, indivíduo, natureza e comunidade, na sociedade atual relaciona-se a vontades pessoais e de livre arbítrio. Nesse novo contexto, o que antes representava uma tradição, marcando a aproximação entre o indivíduo e o grupo, agora, contraditoriamente, é um meio pelo qual ele rompe com a própria história. Há, assim, a reapropriação cultural, que associa ao processo novos e legítimos sentidos e possibilidades, capazes de expressar a identidade dos tempos atuais. De acordo com Kemp, o corpo seria um produto social, mas não um suporte para inscrição de valores. Seria, sim, uma condição para a existência da vida cultural. Sob essa concepção, surgiria outra maneira de pensar o corpo: não a respeito dele, mas a partir dele. Em outra análise, a autora apresenta os sujeitos como personagens de uma encenação social, na qual o corpo seria construído de acordo com o cenário. Dependendo da condição deste, escolhe-se a modificação corporal que possa suprir as expectativas de uma melhor interação com o meio.
Dentro da lógica capitalista, as relações sociais passam, agora, pelo âmbito corporal, dando ao aspecto físico uma conotação original, não percebida em outras épocas. No entanto, o processo que permite ao indivíduo contemporâneo determinar suas escolhas, passaria até mesmo pela questão do empréstimo cultural, como ressalva Kênia Kemp: “Quando nos apropriamos de traços de culturas alheias, passamos por um processo de escolha. Não foram outras práticas senão aquelas que, por razão de nossos processos de incorporação, poderiam fazer sentido para uma sociedade que precisa valorizar o outro para atribuir sentido a si mesma. Desse ponto de vista, podemos compreender que o contato entre diferentes culturas sempre traz as questões relacionadas aos empréstimos, e as relacionadas ao posicionamento dominador-dominado”.
Nesse aspecto, nota-se a semelhança entre as modificações corporais estéticas e as apropriadas de outras sociedades. Ambas existem a partir da influência do meio. Todos os indivíduos procuram a aceitação dentro de um grupo com o qual se identifique. As idéias de “seja você mesmo”, “atitude”, “escolha pessoal” propagaram-se por intermédio da mídia, como tantas outras idéias surgidas no mundo capitalista.
Mesmo originada como parte integrante e fundamental do capitalismo, a mercadoria também se adaptou às novas maneiras de consumo. Hoje, faz parte de toda a sociabilidade das relações entre sujeitos, não apenas do caminho produtor-consumidor de sua concepção. O modo como o mundo estabelece as relações, baseadas no consumo, deve-se muito à publicidade. Com a ajuda dela, criou-se a visão de satisfação pessoal por meio da diversão, que passou a ser relacionada como parte fundamental para a realização integral do indivíduo. Para que o ritmo de vida funcione é necessário unir fontes de prazer e produtividade. Essa nova maneira de enxergar a vida fez com que instituições como comunidade e família perdessem importância nas escolhas particulares. Aos poucos, cada indivíduo isola-se dos demais e volta-se para questões relacionadas às suas necessidades pessoais. Da mesma maneira, o consumo deixou de existir apenas para atender os requisitos básicos para o bem-estar do sujeito e tornou-se a finalidade pela qual ele trabalha. Kênia Kemp analisa: “Essa sociedade reduz o valor das mercadorias ao valor de sua imagem, numa reação em cadeia, toda a sociedade e as relações que mediam os sujeitos se reduzem à aparência e à quantidade de mercadorias consumidas. A imagem é um valor em si. Ela invade os espaços: o urbano, o doméstico, e o próprio corpo.”
Como o mercado produz mercadorias esteticamente atraentes, os indivíduos querem adequar-se ao padrão de exigência que torna os objetos espelhos das noções sociais de beleza. Nesse contexto, o corpo é o elemento do ser mais adequado para refletir sua auto-imagem, como Kênia Kemp, novamente, explica: “Da mesma forma como submetemos o mundo das mercadorias a um aprimoramento estético, que deve corresponder minuciosamente às exigências desse mundo tornado imagem, submetemos nosso corpo dentro da mesma lógica. A embalagem é o principio do sucesso.”
O corpo seria uma extensão das relações sociais, aquela que enfatiza identidades e diferenças. Nesse pensamento, o capitalismo aparece como transformador do processo de construção corporal em mercadoria. Sob essa nova ótica, o que anteriormente era chamado de ritual, na sociedade capitalista toma o sentido de espetáculo. Ao relacionar tudo em bens, a sociedade de consumo transforma diferentes aspectos sociais em capital: a cultura torna-se capital cultural; a arte, capital artístico; a política, capital político. E, assim, o corpo passa a ser visto como capital físico. Kênia Kemp salienta que o caminho percorrido pelo corpo dentro da sociedade é o mesmo da vida social dos humanos. Nesse contexto, como a sociedade tornou-se menos conservadora, o corpo passou a contribuir de maneira mais ativa nas relações sociais. Deixou de ser material de suporte do ser, para ser material de exteriorização do ser.

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Ficha tcnica
Bibliografia

KEMP, Kenia. Corpo modificado, corpo livre? São Paulo: Paulus, 2005.
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