Corpo e Sociedade x Corpo e Identidade

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Shel Almeida · Bragança Paulista, SP
16/6/2009 · 3 · 2
 


O dinamismo das relações num mundo globalizado ajuda, também, a agilizar as relações do ser com seu corpo. Ao ter acesso a, praticamente, tudo com enorme facilidade, o sujeito passa a ser, cada vez mais, dono de sua identidade corporal. Beatriz Ferrerira Pires vê a construção do corpo, nessa nova sociedade, como um direito adquirido: “O corpo humano, outrora considerado (erroneamente) como obra da natureza – evocando-nos, por isso, a idéia de algo intocável -, passa agora, principalmente devido aos avanços tecnológicos e científicos, a representar, de forma contundente, um misto entre o inato e o adquirido. Pertencendo a uma sociedade globalizada na qual é cada vez mais difícil a sobrevivência de características próprias, sejam estas individuais, sejam sociais, e em que tudo é descartável e mutável, o indivíduo adquire a opção de construir seu corpo conforme seu desejo.”
O processo de construção de identidade depende, além de escolhas pessoais, da influência do meio e da história pessoal de cada indivíduo, das experiências que este vivenciou. Diferentemente de outras épocas, o mundo moderno possibilita que as escolhas individuais deixem de ser apenas relacionadas ao meio social, como profissão ou residência, e passem, sempre mais, ao campo pessoal. O indivíduo quer, agora, ser dono de si, e não apenas de suas escolhas. Mas, para isso, é preciso haver o diferencial. E a melhor maneira de se distinguir, num mundo tão visual, é com o corpo. David Le Breton esclarece: “A vontade está na preocupação de modificar o olhar sobre si e o olhar dos outros a fim de sentir-se existir plenamente. Ao mudar o corpo, o indivíduo pretende mudar sua vida, modificar seu sentimento de identidade. (...) ela [a modificação corporal] opera, em primeiro lugar, no imaginário e exerce uma incidência na relação do indivíduo com o mundo.”
Porém, é interessante notar que, para o indivíduo se reconhecer como ser único, é preciso que haja comparação com algum semelhante, que é também alguém tão único quanto ele. Na comparação com outro indivíduo, é possível perceber com maior facilidade as próprias escolhas, e como cada uma delas interfere em sua história de vida. Cada um tem a possibilidade de fazer suas opções e, conseqüentemente, cada uma dessas opções interfere de maneira única no contexto geral da vida do indivíduo. De acordo com Kênia Kemp: “Identidade não significa um atributo único e essencial, e sim um conjunto de valores subjetivos que se somam às nossas múltiplas formas de nos conduzir em certas situações. Podemos afirmar que não temos uma única identidade, mas múltiplas referências que combinadas nos atribuem a cada contexto diferentes identidades. Somos seres multifacetados, e a cada situação enfrentada deixamos alguma delas à mostra”
Seguindo esse raciocínio, fica mais fácil perceber porque pessoas tão diferentes entre si decidem marcar o corpo com tatuagens ou piercings. O tipo de modificação corporal pode ser a mesma, mas o estímulo que levou a essa opção, assim como a influência que causará depois de executado o trabalho, são singulares. Ninguém reage da mesma maneira aos mesmos estímulos ou às mesmas influências. O corpo é apenas mais uma parte do sujeito, aquela capaz de revelar exteriormente o que apenas o indivíduo conhece interiormente. Por maior que seja a influência do meio social ao qual está inserido, é ele quem tem a decisão final sobre si. É a própria pessoa quem decide, mesmo inconscientemente, se irá se deixar influenciar ou não, do mesmo modo sobre quais interferências do meio irá aceitar. Ao deparar com outro que recebe as mesmas influências, mas, no entanto é diferente de si, o indivíduo é capaz de perceber suas características particulares e que, estas, são, antes de tudo, fruto de suas escolhas. Kemp vê da seguinte maneira: “Ao nos depararmos com características que permitem uma noção suficientemente contrastante, podemos criar uma auto-imagem. O encontro com aquilo que não sou é que permite a percepção do que sou. Essa reflexão só se torna possível no contato com a diferença.”
Com a possibilidade de se comparar com o outro, o indivíduo tem também, a possibilidade de avaliar e questionar suas próprias escolhas. É preciso observar também que, o outro pode ter importância fundamental nas escolhas do sujeito, porque, ao negar as escolhas daquele, este se torna capaz de valorizar as suas. Há a reciprocidade neste sentido, porque o indivíduo, fora do próprio olhar, também é visto como outro. O corpo não é apenas mais uma parte de toda a estrutura que forma o indivíduo, mas aquela capaz de interagir com o outro. É por intermédio do corpo que as idéias, assim como as emoções, transparecem. Como explica Le Breton: “O corpo tornou-se a prótese de um eu eternamente em busca de uma encarnação provisória para garantir um vestígio significativo de si. A interioridade do sujeito é um constante esforço de exterioridade, reduz-se à sua superfície. É preciso se colocar fora de si para tornar si mesmo.(...)A retirada para o corpo, para a aparência, para os afetos é um meio de reduzir a incerteza buscando limites simbólicos o mais perto possível de si.”
É por intermédio das trocas de experiências entre indivíduos que existe a possibilidades dos avanços sociais. A maneira de enxergar e tentar aceitar o outro ajuda a entender que em nada há uma verdade absoluta, principalmente em termos culturais. De acordo com Kemp: “Como não há uma cultura absoluta, e sim um conjunto de culturas que podem ser julgadas a partir de diferentes perspectivas e critérios, devemos aceitar que quando se trata de cultura, tudo é relativo. Depende da perspectiva sob a qual estamos enxergando certas questões naquele momento.”
A procura por uma identidade definitiva tende a gerar distorções e inversão de valores em relação ao que realmente é importante ou não. O processo de auto conhecimento é constante e ininterrupto. Numa sociedade como a atual, na qual quase tudo rapidamente torna-se obsoleto, é importante lembrar que o corpo converte-se em mais um instrumento de adaptação. Kemp explica: “(...) o corpo contemporâneo é, igualmente a qualquer outra cultura, construído para a, e pela sociedade.”
Vale relembrar que o meio social recebe a ajuda do indivíduo para transformar-se constantemente. É por todos que a sociedade é influenciada, assim como, num processo recíproco, influencia a todos os indivíduos.
Os eternos questionamentos e a busca por respostas que saciem as dúvidas inerentes aos indivíduos sobre sua situação dentro do mundo, passam também pelo processo de intervenções corporais. Kemp explica: “(...) Criamos métodos e rotinas para lidar com nossos medos e limites, e ao torná-los acessíveis através de nosso corpo, os transformamos em experiências suportáveis, psiquicamente ordenadas e socialmente viáveis. O que controlamos com as cirurgias eletivas, sejam plásticas de embelezamento ou tendências de um Movimento, não é apenas a forma de nosso corpo, mas a experiência dele em relação ao mundo.”
A interpretação que o sujeito faz do que é real e do que realmente é a realidade é, antes, processada por um filtro cultural, do qual participam seus valores, referências e conceitos. Desse modo, o que é compreendido encaixa-se numa só lógica, na qual o corpo inclui-se. O ser humano, sem qualquer distinção do meio no qual está inserido, aprofunda suas experiências em relação à percepção do que está ao seu redor. Assim, o corpo passa de simples evidência física da existência do indivíduo, para material concreto de seus valores e suas emoções, capaz de produzir sensações e sentimentos. Desse modo, pode-se notar que a sociedade está presente nos corpos dos indivíduos, revelando elementos, ora intencionais, ora não, que conduzem as ações. Inserido em um grupo, cada sujeito criaria para si um ambiente de segurança e afirmação de sua condição cultural.

(Com a colaboração de Priscila Lima e Silvia Trassi)

Bibliografia:

PIRES, Beatriz F. O corpo como suporte da arte. São Paulo: Senac, 2005.
KEMP, Kenia. Corpo modificado, corpo livre? São Paulo: Paulus, 2005.
LE BRETON, David. Adeus ao corpo. Campinas: Papirus, 2005.

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Ailuj
 

Muito reflexivo texto
Esses tempos modernos mudaram os valores e o que é realmente importante e sinceramente nem saberia dizer se é bom ou ruim,porque gosto da vida moderna mas tenho saudades dos tempos que tudo era mais valorizado por ser mais dificil
Um beijo

Ailuj · Niterói, RJ 16/6/2009 22:48
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Shel Almeida
 

O engraçado que cada pessoa se diferencia para caber num grupo e quer ser único dentre daquele grupo... louco de se pensar.

Shel Almeida · Bragança Paulista, SP 26/6/2009 18:22
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