O preço determina o valor do quadro, disse. E sem pensar, ainda que tenha, não contrariando uma opinião tão valiosa, acenei com a cabeça, concordando. No instante em que foi dito aquilo, que parecia mais uma sentença do que um conceito econômico, não refleti muito, assim como quem escreve o que não refleti também não fez, apenas escreveu e se lançou ao desembaraçar da retórica escrita; aceitamos juntos, deixando para analisar aquelas palavras depois, ele pensando no que penso sobre tudo e eu pensando no que ele imagina que eu pense ou o que melhor seja para o discorrer do que escreve. O preço determina o valor do quadro, uma sentença, sem dúvida. Algo dito por um homem poderoso, no sentido leiloeiro que pode ser adquirido pela palavra. E era isso que pretendia. Fez a encomenda. “Quero um retrato, mas ninguém deve saber quem é o retratado, nem tão pouco saber quem encomendouâ€. Ele pedia algo significativamente impossÃvel. Evitar a semelhança de um retrato, como havia de ser possÃvel. Mas sem contestar, aceitei a incumbência, outro faria se eu não o fizesse; e isto, por maior que seja o despautério, era o que doÃa mais, aceitar fazer algo por pura imposição do mercado. Porque me fizeste tão fraco, pergunta, como se estivesse falando com Deus, mas sei que sou apenas um infinito de sentidos que parecem ganhar vida quando deixam a condição de meros traços escuros no papel para o sobrevoou que ocorre entre a razão de quem escreve e a razão de quem pensa sobre isto. Se assim escrevo, responde quem se inclui por intermédio das palavras, é por um objetivo causistÃco, por simples desfecho moral; mas não cabe a ti, personagem, entender o que se vai; aceite, como aceitou pintar um retrato sem que ninguém saiba quem é o da foto. Fiz um esboço, ele olhou e disse que todos saberiam quem é. Outro, mas esse não agradou, pois ele não era aquele. Não ia pagar por um retrato tão distante da imagem real. E o que era oportunismo de mercado, tornou-se um desafio, uma provável obra-prima que nascia antes de ser vista. São situações como essas que nos fazem pensar no número de pessoas que devem estar tentando fazer o mesmo; pintar o retrato invisÃvel de alguém e que isso seja contemplado como uma foto 3x4, sÃmbolo da identificação formal do olhar burocrático. Ao todo pintei 11 retratos e nenhum deles fazia jus a esta reflexão. Mas a encomenda havia sido feita e o dinheiro investido gasto com pincel, tinta, telas, cavalete, aquarela. O queixo caÃdo do modelo, o nariz arrebitado ao extremo, a boca fina, quase despedaçando, as orelhas miúdas e aqueles olhares obtusos, impunham sobre mim seus formatos, colorações, sombreamentos. Foi quando me veio a frase, sem pudor, pura e seca, feita sem descuido, igual ao parecer de um promotor. O preço determina o valor. Sem demora, dei algumas pinceladas, misturei por ocasião as cores em sobressalto com a luz que cortava o retrato e deslizei o meu polegar sobre a tinta que margeava os lábios da imagem. Deixei a tinta sobre a tela descansando na sombra, também pudera haviam sido horas de angústia, embrulhei e corri até a casa do meu exigente cliente. “Está pronto, mas não pode ser visto por ninguém, apenas eu que sou este que não existe em imagem, mas no decifrar desses caminhos labirÃnticos que se fazem por linhas de papel. Ele concordou sem pestanejar, como quem comemora a subida repentina das ações na bolsa de valores. Pediu para que eu leve o quadro de volta para o atelier, avisando que irei receber uma ligação. Atendo, é do museu. Vão colocar a peça em exposição e depois realizarem um leilão. Dou-lhe uma, Dou-lhe duas, Dou-lhe três, vendido ao senhor de nariz arrebitado, queixo assim assim e orelhas deste tamanho,por está quantidade de números nunca tão extensos em uma venda.
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