A Universidade e os Malabarismos.

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Eder Fonseca · Cândido Mota, SP
15/5/2008 · 38 · 0
 

Quando a mulher voltar a pôr seu gênero no sentimento – então começará a nova era poética.

Murilo Mendes



Acasos, diálogos, pistas, letras, poemas, músicas, fragmentos, rastros; pele, olhos, sobrancelhas, piercing, tatuagem, de rasteirinha, de tênis, de sapato; de calça, de saia, de blusa (azul, laranja, violeta), brincos, anéis, pulseiras, bolsa, escapulário; tiara, unha pintada, blush, rímel, cabelos (curto, longo; repicado; preso ou solto; encaracolado, liso ou ondulado; loiro, negro, ruivo, castanho em suas diversas tonalidades); alternativa, retrô, contemporânea, clássica; olhares e timbre da voz (de menina, de mulher, enigmáticos), no frio (de cachecol, bochechas vermelhas e tênis all-star); excesso de fala, escassez de fala, fala compassada (fala descompassada), sotaque, apaixonada por gatos; risos - de tempo breve - alegres e de alto entusiasmo afetivo e apaixonado: poesias desordenadas deixadas em “passosâ€.



Divagações, desbaratinos, mobilidade acelerada dos dedos, e dos olhos, e da boca, e dos pulmões (respiração violentamente pontuada), e das palavras.



Aulas, leituras, livros, bibliografia, dicionário, biblioteca, projetos, cafés, dinheiro escasso. Possibilidades...



Diálogos secretos na multidão (com códigos próprios) à la carte do improvável; letras em poemas, letras em música, letras em prosa, poemas na fala, poemas na escrita, poesia nos cortes extraordinários da realidade; gestos, suspiros, o olhar sempre por desvelar, o movimento corporal como flor desabrochando (o andar, o sentar, o sorrir, o falar, etc). Timbre da voz que emudece e ensurdece a Sereia de Homero. Perfume manipulado externamente que parece brotado da própria carne. Os traços fincados na memória da carne que sempre um naco pedaço de alma (e sossego) tiram. Esperas.



Compondo canção: excentricidade na organização dos traços que impulsiona excentricidade no organizar das palavras (e do mundo): dedos que se juntam aos cabelos, separando-os, na mesma sensualidade que o véu da dança do ventre gera no ato de esconder parte da face; textura e cor da pele na tonalidade do angelical. Articulação poética na fala. Nu subjetivo que exala a cor e o gosto da voz de Milton Nascimento. Sorriso que amarela o branco forjado do ambiente, hálito que prega às narinas uma essência campal. Canonização de cada célula combinada que gerou a simetria entre o cabelo, a sobrancelha, os lábios, os dentes, a tonalidade da pele, a orelha. O breve espaço entre os pés, o quadril e os ombros generosamente distribuídos numa sinuosa posição da espinha dorsal. Beijo na quentura, gosto e textura do foundue molhado pelo vinho. Simetria não física. O vôo com pés fincados no chão. Contemplação estética que faz belas esculturas no nervo óptico.



Espera por violações de regras “estéticas†- rasas, cegas, como faca que não corta deixando os nervos expostos. Transgressão da ordem que relaciona palavras e realidades não por injeção de serotonina externa, manipulada. Fluxo sanguíneo parado, tempo no anti-horário. Excessos quase sempre praticados. Presentes mentalmente escolhidos e nunca enviados. Vinhos comprados e tomados solitário.


Toques na pele com a linguagem, gestos desejados, abraço no corpo pelas palavras; distância que enregela os poros, frio de infinito na barriga pela proximidade, taquicardia decorrente do balançar do cabelo, do cruzamento das pernas, do movimento gustativo que a língua faz, a todo instante, ao percorrer a boca. Dois corpos nus se tocando no pensado que evocam nas papilas gustativas o gosto do vôo. Deitar-se na rede sob os escombros prosaicos do cotidiano, e reordená-los.



Solidão, boteco, rio que corre ao contrário, reflexão que elabora roteiros, livros, poemas, músicas, modos, falas, gestos - pensados e esquecidos no mesmo instante. Silêncio. Fala. Silêncio. Fala. Silêncio que fala. Silêncio pela fala.



Reencontro. Paisagem mosaica formada por retalhos de panos da cor de diálogos, de gestos, de olhares, de modos, costurada por fios de gestos criptografados. Perfume que colocado no frasco das essências totais da natureza transborda. Piscar clarividente dos olhos.



Filmes, pensamentos, desejos, datas, esperanças, suspiros, vergão nas costas pela ausência do atrito das unhas na epiderme, insônia, imprudência, impertinência, riso de menino, riso irônico, choro sem lágrimas.



Mundo, poesia, mundo, subjetividade, mundo, filosofia, mundo, literatura, mundo, cinema, mundo, silêncio, mundo, artes plásticas, mundo, vida!



Quarto. Amadurecimento físico pela palavra. Melodias que tocam os lábios da alma. Um outro roteiro para a mesma realidade. O nu de corpo e alma querido (com a fragrância do nu cantado por Chico Buarque): roteiro finalmente gravado. Um filme: um olhar. A realidade, o sonho, a realidade, o sonho, o sono, o sonho. Uma poesia em prosa. Um beijo. Um “até maisâ€. O quarto.

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informações

Autoria
Eder Pires da Fonseca
Ficha técnica
Apresenta uma análise estética, que verte os valores cotidianos dos padrões, a fim de mostrar um desenvolvimento outro da percepção em contato direto com as pessoas, na tentativa de haver um retorno da densidade dos diálogos interpessoais, nos quais caibam dois mundo.
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