Almôndegas de soja

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Sátiro Rozzado · Fortaleza, CE
19/10/2006 · 17 · 0
 

Por brincadeira, abriram-se os portões e, irascível, fugiu o diabo para nunca mais. Por brincadeira, aqui mesmo, na casa da minha vizinha, o marido matou a esposa e seus quatro cachorros depois de uma noite escutando Waldick Soriano sentado no sofá da sala. Por brincadeira, o Brasil perdeu a Copa da Alemanha, em 2006. Por brincadeira, por brincadeira – a Carlinha arranhou-me e, em seguida, cuspiu-me o rosto.

Tinha inventado uma nova dieta com base em receitas naturebas. Detestava o termo com que batizara a nova etapa que Carlinha vivia: longe de carnes vermelhas, azuis ou laranjas, dedicava-se a uma dieta ultra-balanceada, composta por mil e um ingredientes naturais. Em menos de um mês, parecia mesmo outra mulher, os cabelos tornaram-se brilhantes, o rosto, antes soturno, vestira-se de um rosa espetacular. Até as fezes de Carlinha tinham mudado de textura e tonalidade, passando do escuro ao claro num piscar de olhos. Não que lhe fiscalizasse a bosta, apenas percebera a mudança, pura e simplesmente. Muitos anos de uma inescapável convivência nos tornam assim: perceptíveis. Sabemos tudo um do outro – tudo.

Outro dia, Carlinha, pernas cruzadas sobre duas almofadas que havia comprado num bazar no Centro da cidade, óculos novinhos que o pai, gerente de um hotel na avenida Beira-Mar, lhe comprara. À primeira vista, não dava mostras de que estivesse mesmo viva ou, se estava, que transitasse neste plano, o das coisas terrenas. A seu lado, devorava uma maçã. A cada mordida, nacos da fruta desprendiam-se com um barulho gostoso. Mastigava tudo pacientemente. Súbito, Carlinha vira-se:

“Trouxe a receita?”

“Qual?”, pergunto distraído. Com o canto do olho, percebo rápida contração no canto dos finos lábios da esposa. “Como qual?!”, as pernas já descruzadas. “A que eu tinha pedido hoje de manhã, Marcelo”.

As mãos crisparam-se em volta do controle remoto. Carlinha perdia fácil o controle, logo estava transtornada sapateando através dos quartos, indo e vindo, indo e vindo, olhava-se no espelho e logo percebia uma outra ruga imaginária, voltando-se frustrada em minha direção.

“Tá vendo isso aqui?”, apontava com o indicador alguma região entre o olho e a narina arfante. “Amanhã, graças a você, Marcelo, isso aqui, esse pedacinho da minha pele estará parecendo a Falha de San Andréas!”.

Que exagero, pensei enquanto me levantava da cadeira para atirar ao lixo o que ainda restava da maçã. Carlinha, possessa, colocou-se em meu caminho. Não tinha mais que 1,65m e a metade do meu peso. Encarei-a e, sem perder a calma tampouco a ternura, tentei driblá-la como um atacante ao goleiro. Deu um passo para o lado, impedindo a minha passagem novamente. Exalava um odor de hortelã, não sabia se proveniente do hálito ou das axilas. Afinal, tinha um bom número de cosméticos à base de hortelã.

“Sai da frente, Maria Carla”, pescoço e membros subitamente enrijecidos.

“Não saio, João Marcelo”, provocante.

Deu-se, então, o inevitável: roupas despidas à velocidade da luz, mãos e braços enroscados, cabelos desgrenhados – no calor da tarde, maçã e hortelã fundidos numa mesma receita, que, ao final, teve por bem incluir alguns arranhões e cuspidelas na face. Por brincadeira, repetimos tudo, inclusive as falas, por todo o fim de semana e ao longo da semana seguinte até que, cansado, trouxe-lhe a receita das almôndegas de soja.

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Sátiro Rozzado
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