ALZHEIMER

1
Darlan · Belo Horizonte, MG
9/5/2011 · 1 · 1
 

1.
Já de manhãzinha sentes profundamente a luta do paciente de alzheimer com a mente dele: uma luta constante, de perdedor para perdedor, uma rota degenerativa que o faz perguntar mil e uma vezes que dia é hoje, que dia é hoje ? E assim tu sabes que a pessoa logo voltará às perguntas cujas respostas foram dadas várias vezes, mas o cérebro já não as retêm mais do que por alguns segundos, e assim é que a doce e raivosa criatura (há ciclos) pega em velhos e novos papéis sociais, paga contas duas vezes, ou não paga, perde os óculos, torna a esquecê-los na pia do banheiro, na farmácia ou na padaria, na padaria ou na farmácia que são talvez os únicos lugares aos quais ainda vai com certa segurança de ir e voltar; e também é verdade que ninguém confia numa pessoa que luta incessantemente com esta impotência, e assim a pessoa continua na luta contra a sua ira e a sua calma de sofredor da terrível ou humilhante patologia que corrói uma antes saudável neurologia, sinapses no rés do chão da compreensão, as vias neuronais cheias de falhas e becos sem saída, o grande nada em descida veloz e irreversível, e assim é que o alzheimer não é um estigma como a hanseníase, mas é motivo de afastamento social. Pessoas assim vivem mais sujeitas a atropelamentos, e se esquecem de onde moram, mas os transeuntes estão se lixando, porque o mundo é sinônimo de pressa, de acrobáticas vantagens, de insônia e premeditação criminosas, todos muito doentes, debilitados por patologia não reconhecida pela previdência – que é a doença da caracterologia ambígua, porque o caráter social está doente, yin e yang fora de prumo, toda a simbologia humana periga, novos símbolos não bastam para fazer-nos compreender o idioma do Grande Nada, e que se saiba que os círculos familiar e pessoal de qualquer pessoa durante toda a sua vida são pequenos, por incrível que pareça, relacionamo-nos verdadeiramente com poucas pessoas durante toda a existência, e isso é deveras desconcertante, é a cara exata do que é minimizador, as criaturas apenas se toleram, enquanto o paciente de alzheimer segue a sua trajetória em branco, às vezes, acontece até de alguém levá-lo para casa, ou colocá-lo no pretenso ônibus para a sua casa, e assim a família definha, desgasta-se a olhos vistos por quem ainda pode ver e sentir.


2.
Alguém pede ajuda, e eis que tu, sabendo de duas ou três coisas, dás a mão a ser torcida, mas não aos indigentes morais; a bunda a ser chutada, mas não por parasitólogos do dia a dia; as pernas a serem açoitadas, mas não por ningres-ningres. Choras de bom chorar, que a alegria é mesmo avassaladora, quando ausente, mas se a alegria pesa mais do que a tristeza, onde é o lugar da derrota ? por quê a alegria nos parece ser algo tão dentro da lei natural que, quando ela se ausenta de alguém, ou de uma população, este alguém ou esta população já não se sente nem sombra do que foi ou do que pretende ser ? Absorto com o cacto que sobre esta mesa se cumpre, olho a rua, espinhos não faltam nas ruas que tanto estalam e pululam, medrando num passe matemágico, trágicas e até cômicas, mas separadamente, as ruas medram ou multiplicam-se de forma geométrica sobre a terra e sua merda ou escatologia. Terror e medo, fobos e deimos. Terra sem casa. Oikos. Nada como antes será, seja. De que valores se fala quando em bolsa se fala ? A onça esturra, tu pias num muro de lamentações, num beco cheio de estrias, lotado de tréplicas e seus sinônimos. Mas amanhã vai ser outro o ditame, azougue, azorrague, ázimo leite ácido, sobre a cabeça o dízimo a ser pago aos aviões.

3.
Voltando ao paciente de alzheimer, voltemos ao que mais enche de solidão a sua já avantajada solidão, a qual só perde para a do catatônico e para a daqueles doentes pelas perebas ou escrófulas das Letras, ou seja, os escritores. O que interessa aos primeiros é a pavorosa dor de não se fazerem entender, pelo menos de todo, nas pequenas coisas cotidianas. O que interessa aos segundos é a lancinante dor da inveja, o desespero pelo anonimato, a teimosia ou obtusidade de quem não lhes vê nada do seu mundo despejado numa sopa de letras, numa bela gárgula de proposições quase sempre miúdas. Mas eis que todos são por natureza solitários – sadios ou doentes.

4.
Sim, tu sentes no olhar do teu pai a Demência, sentes não estarem em lugar algum os olhos dele, mas percebe-os rindo-se de modo estranho ao que sempre viste: olhos dementes, brilhosos e irreverentes, mais do que de criança são os ecos que o paciente de alzheimer cooptou à presença da Demência. Teu pai ri com os olhos, mas é sistemático, não tem motivo para rir, pois o riso de aposentado é morte em vida, desgosto pela frustração de não ter sido nem metade do que legítimamente propôs um dia a si mesmo, ou a si mesma. A frustração convida a que fiques com ela, e ela também é degenerativa, muito perigosa, pegajosa. Sinta o pavor que tens de ti mesmo, quando, por décimos de segundos, fitas o branco da Demência nos olhos da tua mãe ou do teu pai. E mesmo que como eu saibas ene coisas, que tenhas muito estudo, ainda falta uma aula; mesmo que saibas medicina e/ou sejas aparentado com o Diabo, ainda falta essa aula, e outras, e é claro que podes e deves abrir uma cerveja ou preparar-te uma caipirinha, sem dúvida, pois é grande o desgaste da engrenagem.
*****


OBSERVAÇÃO:
Como as opções dadas aos cooperantes na opção Categoria são inexatas para o que aqui se expõe (por exemplo: se estivesse lá, em Categoria, apenas a palavra Sociedade, eu clicaria em Sociedade), cliquei em Literatura, embora talvez devesse clicar em Circo, não obstante a sofisticação do texto).



DARLAN M CUNHA

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Doroni Hilgenberg
 

Interessante e reflexivo seu texto. Pior que no caso dessa doença não temos como nos prevenir pois ela é silenciosa, quando ataca, nada s epode fazetr.
E quanto à solidariedade, eu sempre fui uma pessoa comunicativa ( e sou ainda) mas jamais darei informações ou o que quer que seja, para estranhos na rua, pois por causa disso fui sequestrada e passei um mau pedaço além de ficar sem minhas economias.. .Por natureza, somos seres que não vemos maldade, mas ele existe sim, e em qualquer esquina. bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 9/5/2011 11:23
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