Amostra do livro Fragmentos do Desencontro

Divulgação
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P. Paralelo · Rio de Janeiro, RJ
14/10/2010 · 0 · 0
 

Entre demônios, por Joana Cabral

Do livro Fragmentos do Desencontro

A respiração suspensa por milésimos de segundo para depois romper num latejar de vício e prazer. O cheiro, o suor, a boca entreaberta deixando perceber o incisivo quebrado. Fecho os olhos e fico escutando os sons que vêm da rua, me distraio tentando entender o que um homem fala ao celular; duas horas, não, eu falei duas horas... eu só vou pra São Paulo na sexta... na semana que vem é impossível, tem de ser hoje ou amanhã... O marulhar do chuveiro me faz retornar à realidade e pulo da cama enlouquecida ao perceber que já eram seis da tarde.

O andar insiste em segurar meus passos até o metrô, desde setembro que tenho o olhar de culpa. Demônios em capas vermelhas me perseguem, insistentemente, desde aquelas tardes. E no inconsciente um martelar de duas horas, duas horas, amanhã, hoje, hoje, hoje. Desço as escadas rolantes cantarolando cantigas da juventude, à minha frente uma multidão avança concentrada. Merda, vou pegar o trem lotado, e no sentido norte só entra, não sai uma viva alma, detesto pegar o metrô depois das seis, a cidade inteira se concentra num único buraco; cansada e sedenta de casa, comida e TV.

Passos opacos em direção ao prédio amarelo, as grades com seus imensos dentes de ferro, trancam as vidas desiludidas em seus finais de noite. O piscar das janelas indicam que tudo está como tem de ser, mas não sei por que sinto um cheiro de desgraça, o calor que sobe do asfalto me fala de uma inquietude que é secular, que permeia o pensamento de todos que vivem ao meu redor. Sacudo a cabeça para ver se afasto esse vampiro imaginário que se agarra em meu ventre. É a culpa novamente me espreitando. Sobreviver, sobreviver é minha única opção. Às vezes penso que sou daquelas mulheres sem decência, de quem ouvia meu pai falar quando era jovem, mas o engraçado é que não me vejo assim, sei que não estou agindo de forma certa, como o comportamento social exige. A culpa chega silenciosa, pega minha mão e me acompanha escada acima, abre a porta, porque já não tenho forças, beijo meus filhos um, dois, e tiro o bebê do berço. Como sua bochecha está vermelha... solto um pouco a mão da companheira para correr por toda casa à procura de um termômetro. Não acho e sento no chão com vontade de chorar. Então ele aparece e como sempre me beija a boca num leve roçar de seus negros e opacos olhos. Já foi tão lindo! Ainda vejo suas costas levantando e descendo enquanto veste o uniforme da firma. O jantar está na mesa, o bebê está com febre, novidade, já sei. Volto amanhã, mais tarde, vou ter de passar no escritório para assinar a renovação do contrato. Tchau. Ainda consigo pensar se era verdade tudo isso, talvez ele fosse buscar em alguma perna morena, a sobrevivência da alma, algum lugar em que a urgência não fosse marcar os dias com o pesado martelo da rotina entre tirar e botar de panelas no fogo enquanto a mãe não volta para revezar o turno da noite.

Um vazio imenso se abre bem no meio da sala e tenho de andar, a partir de hoje, cautelosa, pelos cantos da casa, porque se cair no buraco não volto e o não existir pode ser pior do que o sobreviver. Ligo a TV e vejo novelas, o piscar alucinado vai me enchendo de enjôo e vomito meu jantar no vaso do banheiro. As crianças, em fila, observando meu mal estar, que só aumenta com a presença deles. Me vejo no olhar, no nariz, nos cabelos loiros e lisos de Elizabeth. A impressão de que algo infinito está no ar, é mais forte agora, abro as janelas e o calor sopra um vento morno cheio de cheiros para dentro do apartamento. Ouço o murmurar de fora, agora sei, agora é certeza que ela me achou. Já sinto seu ar gelado se aproveitando da minha culpa, rondando pelos moveis, me perseguindo pela sala. Ela vai me jogar nesse imenso vazio, tenho certeza. Entro no quarto em silêncio para não acordar as crianças, o buraco já está chegando ao banheiro, daqui a pouco não restará nenhum aposento em que se possa andar de forma segura. O medo me domina, o único lugar seguro é a rua.

Fecho as portas com cuidado, peço para a vizinha dormir em minha casa hoje. Desço as escadas aliviada, finalmente não cairei no buraco. O metrô avança, um olhar moreno me desafia. Finalmente vale a pena viver.

Sobre a obra

O texto "Entre Demônios" é um conto extraído deFragmentos do Desencontro, livro de Joana Cabral, que será lançado no dia 11 de novembro, às 20h, na Livraria Ponte das Tábuas. O local fica na Rua J.J. Seabra, no bairro Jardim Botânico, no Rio de Janeiro

A autora, formada em Letras em 2003, é contista e roteirista de teatro. Depois de 15 anos atuando como empresária, Joana Cabral abandonou o ramo em que atuava para se dedicar à carreira literária. Em 2005, radicou-se no Rio de Janeiro, recebendo, no mesmo ano, o Prêmio Osman Lins de Contos. Atualmente, é também uma das responsáveis pela recém-lançada revista virtual Mulheres de Opinião.


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Autoria
Joana Cabral
Ficha técnica
Joana Cabral
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