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ANTÔNIO GAVINO - Conto

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jjLeandro · Araguaína, TO
8/1/2007 · 34 · 1
 


ANTÔNIO GAVINO


Antônio Gavino era homem como qualquer outro do Agreste. Das lidas da vida tudo entendia, e isso lhe bastava para construir e preservar a honra. Muito tempo viveu essa ilusão.
As constantes convulsões sociais em sua terra, onde as atrocidades do clima adverso bastavam para prostrar um homem, gerariam um episódio que comprovaria que a honra de um homem não se valida nem se macula tão somente no trabalho diário.
Gavino era feliz em suas poucas posses. A vida permitia-lhe a felicidade na proporção de seus poucos recursos, e, como desconhecia a abundância, sua maior cobiça era permanecer vivo; nunca reclamava, e resignado reportava-se com uma frase pronta ao tema complexo: ‘O que os olhos não vêem o coração não deseja’.
O recrutamento para combate a Coluna Prestes, durante sua passagem pelo Agreste pernambucano no primeiro lustro da década de vinte do século passado, o pegou de surpresa embora fosse — como todos os sertanejos — um homem alerta devido os constantes saques de salteadores na região. Gavino considerava-se um homem honrado, mas não corajoso. Não alardeava isso como é freqüente entre quem coloca a macheza acima de tudo; compensava a pouca coragem com a astúcia. E nunca houvera oportunidade para pôr em questão sua coragem. Creditava isso à prudência.

Os últimos raios de sol ainda resistiam por trás da serrania nua, ponteada com avareza por espinhentos mandacarus e xiquexiques, quando o soldado da volante aproximou-se da casa de Gavino pela estrada poeirenta. A montaria demonstrava cansaço e banhava-se em suor apesar da hora mais fresca. ‘Esse aí já andou muito’, conjeturou Gavino ao levantar a vista alertado pelo ruído do tropel do animal que se aproximava. Parou a limpeza no pequeno plantio de mandioca no oitão da casa e apoiou-se no cabo da enxada a espera da chegada do soldado.
— Olá — disse o militar.
— A que vem com tanta pressa? — especulou Gavino desconfiado.
—O tenente mandou pr’ocê esse bilhete —disse o praça, estendendo-o.
Tomou fôlego e continuou.
—Ele quer os homens válidos na volante, que os revoltosos não demoram a chegar.
Gavino persignou-se e empalideceu imediatamente. No mesmo instante, dona Rosa, a sua mulher, saiu aflita pela porta do oitão.
— Qual é o problema, homem? — indagou ao marido.
O soldado atalhou a conversa:
— Assunto de homens, dona!
Gavino concordou com um movimento de cabeça com o que dissera o soldado e pediu à mulher que entrasse em casa.
O soldado reforçou a convocação, talvez por perceber nas feições taciturnas do lavrador decepção e medo.
— Não vá faltar ao compromisso...é traição não defender a Pátria. O tenente sabe como punir quem não defende o Agreste.
Deu meia-volta na montaria e esporeou-a com força nas ilhargas.
—Vou atrás de mais gente, que a guerra vai ser grande — gritou, voltando apenas o rosto para Gavino.

No dia seguinte, ainda pela madrugada, Antônio Gavino apresentou-se na delegacia de Monte das Cruzes. Deixara a mulher aos prantos, mas não podia furtar-se à convocatória. Se fugisse, para voltar depois que os revoltosos passassem, seria perseguido e condenado, perderia a mulher, o sítio de onde retirava o sustento de sua família e a honra. Esse pensamento torturou-o desde a estada do soldado em sua casa, perseguindo-o por toda a noite passada em claro e durante o percurso de uma légua até a cidade.
Assim estava melhor. Já que era impossível remediar o destino, entregar-se-ia a ele.

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Autoria
jjLeandro





Ficha técnica
Jornalista e escritor, 46, residente em Araguaína -To. Autor do livro de poesias Quase Ave, com o qual ganhou o concurso literário nacional para autores inéditos Cora Coralina em 2002, em Goiânia
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analuizadapenha
 

olá...gostei do comentário dimensionando a provocação que a poesia se propôs... e a continuação de Antonio Gavino (gostando)? . Abraços e obrigado.
.

analuizadapenha · Natal, RN 11/2/2007 21:47
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