Ao me ver no espelho

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Maxwell Santos · Vitória, ES
21/6/2019 · 0 · 0
 

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Luz na passarela

O relógio de parede marcava 17:20. Juno estava no es­critório da Gráfica Salvatore, locali­zada na Ave­nida Vitória, onde traba­lhava como arte-fina­lista. O rá­dio estava sintonizado na Metrô FM.

Vem aí o Garota Verão 2013. Você, que tem de 15 a 20 anos, é sol­teira, sem fi­lhos e so­nha ter uma car­reira de modelo, tire duas fotos, uma de rosto e outra de corpo in­teiro, em tra­jes de banho, acesse o site www.tvvitoriense.­com.br/garotaverao e faça sua inscrição. Além da faixa, a vencedora ga­nhará um book fotográfico e um con­trato de 50 mil re­ais em trabalhos com a agência de modelos JR Ro­drigues, de São Paulo. Tá es­perando o quê, menina? Reali­zação: Vi­toriense Eventos e TV Vitori­ense. Patrocínio: Atena Cosméticos. Pro­moção: Metrô FM.

Juno se imaginou num estúdio, fazendo fotos para a capa da Vogue ou da Cosmopolitan, desfi­lando na São Paulo Fashi­on Week ou no desfile anual da Victoria's Se­cret, como uma das angels. A moça branca, 19 anos, ca­belos castanhos e lisos, olhos verdes e 1,72 m, queria conquistar o mundo com sua beleza e graça. Enzo Sal­vatore, o dono da gráfica, 60 anos, careca, barba grisa­lha, olhos castanhos, pele queimada pelo Sol, a desper­tou do sonho:

– Juno, minha filha, o doutor Azambuja me ligou furio­so, querendo os cartões de visita pra ontem. Já terminou a arte?

– Tá quase pronta, seu Enzo.

– Quando terminar, imprima uma prova e deixe na mi­nha mesa, sim?

– Sim, senhor.

Juno abriu o Corel Draw, finalizou a arte do cartão, impri­miu a prova, foi à sala do patrão e a dei­xou na mesa.

Seis da tarde. Fim de expediente. Juno estava na Aveni­da Marechal Campos, esperando o 051, que a le­vará para o bair­ro Itararé. O ônibus chegou e a moça entrou nele. Ela saltou [1] na pracinha do bairro, parou na barraca da tia Nil­za, comeu um pastel de carne com queijo e to­mou um cal­do de cana.

A jovem seguiu sua caminhada pela Rua das Palmei­ras e Avenida Robert Kennedy, até che­gar ao Beco do Cigano, na casa de Johnny, seu amigo. Logo, ela aper­tou a campainha.

O rapaz, 22 anos, negro, cabelo black power, um pouco acima do peso e 1,85 m, deitado no sofá da sala, estava num sono tão profundo, que so­mente a bateria da Mocidade Uni­da da Glória, conhecida como MUG, poderia acordá-lo. Juno aper­tou a campai­nha outras duas vezes. Na tercei­ra, o belo ador­mecido le­vantou e foi abrir a por­ta.

– Juno. Você por aqui. Quanto tempo!

– Verdade, Johnny. Na correria de trabalho e facul­dade, a gente não tem tempo pra ver os amigos.

– Quer entrar?

– Claro.

Juno entrou na casa de Johnny e sentou-se no sofá. O jo­vem ficou ao lado dela. De repente falou:

– Johnny, desde criança, eu tenho o sonho de me tornar modelo. Eu ouvi na Metrô FM so­bre o concurso Garota Ve­rão 2013 e quero participar.

– Que bom, Juno. Com todo o respeito, te acho mui­to lin­da e você tem tudo pra ganhar esse concurso.

– Obrigada, Johnny. Além da faixa e do book foto­gráfico, a vencedo­ra vai ganhar um contrato de 50 mil reais em traba­lhos com uma agência de modelos de São Paulo.

– Onde é que eu entro?

– Eu preciso de duas fotos: uma de rosto e outra de cor­po inteiro, em trajes de banho, pra fa­zer a ins­crição no site do concurso. Sinceramente, eu sou uma péssi­ma fotógra­fa. Até mi­nhas selfies saem tremidas. Sei que você é um fo­tógrafo bom e precisava dessas fotos pra par­ticipar do con­curso. Va­mos fazer um trato: você tira minhas fotos e em troca, man­do fazer 1000 panfle­tos e 1000 cartões de vi­sita, pra você conseguir uns trampos.

– Fechado! Tava precisando mesmo dos cartões e dos pan­fletos. Tá tão ruim de trampo que falta grana pra pagar a gráfica e fazer os materiais de divulgação. Amanhã, pela ma­nha, a gen­te vai à Ilha do Boi e faz es­sas fotos.

– Obrigada, Johnny.



No dia seguinte, Johnny buscou Juno na casa dela e fo­ram no seu Corsa Wind 1995 à Ilha do Boi. De biqui­ni, Juno fez vá­rias po­ses para as fotos de corpo inteiro e de rosto.

– Juno, hoje tá quente, né? Que tal a gente entrar no mar e dar um mergulho? - perguntou Johnny.

– Meu bem, eu bem que gostaria, mas não vai rolar. Vai que alguém da comunidade apare­ce, vê a gente dando um mergulho e cagueta pro Túlio. Do jeito que ele é ciumento, é treta na certa – respondeu Juno, afa­gando o ombro de Johnny – Quem sabe outro dia.

Na casa de Johnny, Juno selecionou as fotos que achou boas, entrou no site do Garota Verão e fez sua inscrição com sucesso.



Naquela tarde de domingo, Juno estava ansiosa para sa­ber se seria selecionada para a sele­tiva municipal do Garo­ta Ve­rão 2013. No seu quarto, ela estava em com­panhia de Joy­ce, sua amiga sacoleira. A ruiva sardenta, 1,60 m, 20 anos e gor­dinha, trouxe alguns biquínis para que Juno esco­lhesse e comprasse para usar no concur­so.

– Juno, o que acha desse biquíni de oncinha?

– Credo, Joyce! Muito brega!

– E esse com cor de salmão e bojo maravilhoso?

– Amei esse biquíni. Ele é tudo de bom. Quanto cus­ta?

– 70 reais. Mas posso fazer por 50.

– Fechado.

Juno abriu a carteira que estava em cima da escriva­ninha, tirou 50 reais e deu à Joyce. A jo­vem despiu-se e pro­vou o bi­quíni.

– Ele é lindo demais! – disse.

Juno e Joyce foram para cozinha lanchar. Entre um pão com mortadela e um copo de Pepsi, elas puse­ram os ba­bados em dia.

– Joyce, é o sonho da minha vida ser modelo. Ga­nhar o Ga­rota Verão é meu passaporte pro mundo da moda. Só fal­ta combinar com o Túlio. Ele é muito ciu­mento.

– É verdade, amiga. Com jeitinho, você fala com ele.

– Não sei se vai dar certo. O Túlio é muito cabeça dura.

– Não custa nada tentar.

– Você não sabe da maior.

– Qual é o babado, amiga? Não me deixe curiosa.

– Não tem o Mauro? Sabia que flagraram ele fazen­do sa­peca-iaiá com a Sa­vanna, a travesti que mora na Rua do Es­trela. Detalhe, foi na Hilux da Prefeitura de Vitória, parada na BR 101, em Carapina. Ele era moto­rista de gabine­te do se­cretário de Obras, cargo comis­sionado. Foi exo­nerado.

– Amiga, eu tô cho-ca-da! Logo ele, tão conserva­dor, pala­dino da moral e dos bons costu­mes, líder do gru­po de jovens da paróquia, defensor da fa­mília tradicio­nal, críti­co da es­querda, do globalismo e do marxismo cul­tural. Foi pego no flagra com uma tra­vesti. Que ba­fão!

– Outro detalhe, Juno: ele foi o passivo. Os policiais rodo­viários federais flagraram o ato quando foram abordar a ma­ricona. Já disse Humberto e Ronaldo: car­ro parado, mo­tel disfar­çado. Esses com máscaras de moralistas e religiosos são os piores.

– Credo!

– Há quem diga que Mauro sempre foi gay enrusti­do e ca­sou para manter as aparências. Eu tenho é dó da Daya­ne, a esposa dele. Faço a ideia da vergonha que ela tá pas­sando agora.

Isadora, a vizinha de porta de Juno, bisbilhotou a conver­sa da moça com a Joyce a respeito de sua partici­pação no con­curso Garota Verão 2013. Aquela loira pla­tinada, 20 anos, olhos verdes, 1,70 m, seios fartos e co­xas grossas, pegou as fo­tos de corpo inteiro e rosto em tra­jes de banho que tinha no ce­lular, transferiu para seu computador, entrou no site do con­curso e fez sua ins­crição.

Ela não trabalhava, nem estudava (abandonou a es­cola após alcançar a proeza de reprovar quatro vezes a 6ª série), queria ser rica e famosa a todo o custo. Desde o tempo de es­cola, Isa­dora sentia inveja de Juno, por ela ser popular, tirar as melhores notas e ser benquista pelos pro­fessores.

Era usuária contumaz de cocaína. Para sustentar o ví­cio, pedia dinheiro à mãe ou à avó, di­zendo que faria um curso de qualificação. Conversa fiada. Ela ia à boca do Lisi­nho, no Bairro da Pe­nha e comprava vários pinos de pó. Quando suas estó­rias não colavam, Isadora ape­lava para o furto. Costuma­va pegar o cartão da aposen­tadoria da avó, sacava o que que­ria para comprar sua droga ou pegava a grana da cartei­ra da mãe. Também lança­va mão da chanta­gem emocional. Agre­dia ver­bal e fisica­mente a mãe e avó por causa de di­nheiro para a cocaína. Em casos ex­tremos de abstinência, costuma­va fazer favores se­xuais aos trafi­cantes em troca da droga.

Túlio, namorado de Juno, 25 anos, moreno claro, ca­belo raspado, olhos castanhos musculoso e cheio de ta­tuagens, tra­balhava embar­cado numa plataforma da Petrobras, na ba­cia de Campos, como pro­fessor de in­glês da Just in Time Offsho­re, ligou para Juno:

– Oi, Juno. É o Túlio.

– Oi, meu amor. Que bom poder ouvir sua voz.

– Eu também, meu bem. Tô saindo do aeroporto, pegan­do o táxi pra ir à Cana Caiana. A gente vai se en­contrar lá.

– Tá bom, A gente se vê daqui a pouco. Um beijo.

– Outro, gatinha.

Juno e Túlio se conheceram quando ela, aos 15 anos, foi fa­zer inglês na Just in Time de Jucutuquara e ele era seu pro­fessor. Já tinham três anos de namoro.

Sobre a obra

Juno, arte-finalista e estudante de Design Gráfico, tem o sonho de ser modelo destruído por Túlio, seu ex-namorado, mandante de um atentado com ácido clorídrico, por não aceitar o fim do namoro provocado por uma agressão deste contra a moça, uma vez que ela não aceita sair do Garota Verão, concurso considerado trampolim para o mundo da moda e Túlio, mesmo sendo um professor de inglês graduado, tem mentalidade obtusa e machista dos anos 50, não aceitando que sua então namorada desfile de biquíni para o deleite dos marmanjos nas praias e na televisão.

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informações

Autoria
Maxwell dos Santos
Ficha técnica
Editor: Maxwell dos Santos

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