Luz na passarela
O relógio de parede marcava 17:20. Juno estava no esÂcritório da Gráfica Salvatore, localiÂzada na AveÂnida Vitória, onde trabaÂlhava como arte-finaÂlista. O ráÂdio estava sintonizado na Metrô FM.
Vem aà o Garota Verão 2013. Você, que tem de 15 a 20 anos, é solÂteira, sem fiÂlhos e soÂnha ter uma carÂreira de modelo, tire duas fotos, uma de rosto e outra de corpo inÂteiro, em traÂjes de banho, acesse o site www.tvvitoriense.Âcom.br/garotaverao e faça sua inscrição. Além da faixa, a vencedora gaÂnhará um book fotográfico e um conÂtrato de 50 mil reÂais em trabalhos com a agência de modelos JR RoÂdrigues, de São Paulo. Tá esÂperando o quê, menina? RealiÂzação: ViÂtoriense Eventos e TV VitoriÂense. PatrocÃnio: Atena Cosméticos. ProÂmoção: Metrô FM.
Juno se imaginou num estúdio, fazendo fotos para a capa da Vogue ou da Cosmopolitan, desfiÂlando na São Paulo FashiÂon Week ou no desfile anual da Victoria's SeÂcret, como uma das angels. A moça branca, 19 anos, caÂbelos castanhos e lisos, olhos verdes e 1,72 m, queria conquistar o mundo com sua beleza e graça. Enzo SalÂvatore, o dono da gráfica, 60 anos, careca, barba grisaÂlha, olhos castanhos, pele queimada pelo Sol, a desperÂtou do sonho:
– Juno, minha filha, o doutor Azambuja me ligou furioÂso, querendo os cartões de visita pra ontem. Já terminou a arte?
– Tá quase pronta, seu Enzo.
– Quando terminar, imprima uma prova e deixe na miÂnha mesa, sim?
– Sim, senhor.
Juno abriu o Corel Draw, finalizou a arte do cartão, impriÂmiu a prova, foi à sala do patrão e a deiÂxou na mesa.
Seis da tarde. Fim de expediente. Juno estava na AveniÂda Marechal Campos, esperando o 051, que a leÂvará para o bairÂro Itararé. O ônibus chegou e a moça entrou nele. Ela saltou [1] na pracinha do bairro, parou na barraca da tia NilÂza, comeu um pastel de carne com queijo e toÂmou um calÂdo de cana.
A jovem seguiu sua caminhada pela Rua das PalmeiÂras e Avenida Robert Kennedy, até cheÂgar ao Beco do Cigano, na casa de Johnny, seu amigo. Logo, ela aperÂtou a campainha.
O rapaz, 22 anos, negro, cabelo black power, um pouco acima do peso e 1,85 m, deitado no sofá da sala, estava num sono tão profundo, que soÂmente a bateria da Mocidade UniÂda da Glória, conhecida como MUG, poderia acordá-lo. Juno aperÂtou a campaiÂnha outras duas vezes. Na terceiÂra, o belo adorÂmecido leÂvantou e foi abrir a porÂta.
– Juno. Você por aqui. Quanto tempo!
– Verdade, Johnny. Na correria de trabalho e faculÂdade, a gente não tem tempo pra ver os amigos.
– Quer entrar?
– Claro.
Juno entrou na casa de Johnny e sentou-se no sofá. O joÂvem ficou ao lado dela. De repente falou:
– Johnny, desde criança, eu tenho o sonho de me tornar modelo. Eu ouvi na Metrô FM soÂbre o concurso Garota VeÂrão 2013 e quero participar.
– Que bom, Juno. Com todo o respeito, te acho muiÂto linÂda e você tem tudo pra ganhar esse concurso.
– Obrigada, Johnny. Além da faixa e do book fotoÂgráfico, a vencedoÂra vai ganhar um contrato de 50 mil reais em trabaÂlhos com uma agência de modelos de São Paulo.
– Onde é que eu entro?
– Eu preciso de duas fotos: uma de rosto e outra de corÂpo inteiro, em trajes de banho, pra faÂzer a insÂcrição no site do concurso. Sinceramente, eu sou uma péssiÂma fotógraÂfa. Até miÂnhas selfies saem tremidas. Sei que você é um foÂtógrafo bom e precisava dessas fotos pra parÂticipar do conÂcurso. VaÂmos fazer um trato: você tira minhas fotos e em troca, manÂdo fazer 1000 panfleÂtos e 1000 cartões de viÂsita, pra você conseguir uns trampos.
– Fechado! Tava precisando mesmo dos cartões e dos panÂfletos. Tá tão ruim de trampo que falta grana pra pagar a gráfica e fazer os materiais de divulgação. Amanhã, pela maÂnha, a genÂte vai à Ilha do Boi e faz esÂsas fotos.
– Obrigada, Johnny.
…
No dia seguinte, Johnny buscou Juno na casa dela e foÂram no seu Corsa Wind 1995 à Ilha do Boi. De biquiÂni, Juno fez váÂrias poÂses para as fotos de corpo inteiro e de rosto.
– Juno, hoje tá quente, né? Que tal a gente entrar no mar e dar um mergulho? - perguntou Johnny.
– Meu bem, eu bem que gostaria, mas não vai rolar. Vai que alguém da comunidade apareÂce, vê a gente dando um mergulho e cagueta pro Túlio. Do jeito que ele é ciumento, é treta na certa – respondeu Juno, afaÂgando o ombro de Johnny – Quem sabe outro dia.
Na casa de Johnny, Juno selecionou as fotos que achou boas, entrou no site do Garota Verão e fez sua inscrição com sucesso.
…
Naquela tarde de domingo, Juno estava ansiosa para saÂber se seria selecionada para a seleÂtiva municipal do GaroÂta VeÂrão 2013. No seu quarto, ela estava em comÂpanhia de JoyÂce, sua amiga sacoleira. A ruiva sardenta, 1,60 m, 20 anos e gorÂdinha, trouxe alguns biquÃnis para que Juno escoÂlhesse e comprasse para usar no concurÂso.
– Juno, o que acha desse biquÃni de oncinha?
– Credo, Joyce! Muito brega!
– E esse com cor de salmão e bojo maravilhoso?
– Amei esse biquÃni. Ele é tudo de bom. Quanto cusÂta?
– 70 reais. Mas posso fazer por 50.
– Fechado.
Juno abriu a carteira que estava em cima da escrivaÂninha, tirou 50 reais e deu à Joyce. A joÂvem despiu-se e proÂvou o biÂquÃni.
– Ele é lindo demais! – disse.
Juno e Joyce foram para cozinha lanchar. Entre um pão com mortadela e um copo de Pepsi, elas puseÂram os baÂbados em dia.
– Joyce, é o sonho da minha vida ser modelo. GaÂnhar o GaÂrota Verão é meu passaporte pro mundo da moda. Só falÂta combinar com o Túlio. Ele é muito ciuÂmento.
– É verdade, amiga. Com jeitinho, você fala com ele.
– Não sei se vai dar certo. O Túlio é muito cabeça dura.
– Não custa nada tentar.
– Você não sabe da maior.
– Qual é o babado, amiga? Não me deixe curiosa.
– Não tem o Mauro? Sabia que flagraram ele fazenÂdo saÂpeca-iaiá com a SaÂvanna, a travesti que mora na Rua do EsÂtrela. Detalhe, foi na Hilux da Prefeitura de Vitória, parada na BR 101, em Carapina. Ele era motoÂrista de gabineÂte do seÂcretário de Obras, cargo comisÂsionado. Foi exoÂnerado.
– Amiga, eu tô cho-ca-da! Logo ele, tão conservaÂdor, palaÂdino da moral e dos bons costuÂmes, lÃder do gruÂpo de jovens da paróquia, defensor da faÂmÃlia tradicioÂnal, crÃtiÂco da esÂquerda, do globalismo e do marxismo culÂtural. Foi pego no flagra com uma traÂvesti. Que baÂfão!
– Outro detalhe, Juno: ele foi o passivo. Os policiais rodoÂviários federais flagraram o ato quando foram abordar a maÂricona. Já disse Humberto e Ronaldo: carÂro parado, moÂtel disfarÂçado. Esses com máscaras de moralistas e religiosos são os piores.
– Credo!
– Há quem diga que Mauro sempre foi gay enrustiÂdo e caÂsou para manter as aparências. Eu tenho é dó da DayaÂne, a esposa dele. Faço a ideia da vergonha que ela tá pasÂsando agora.
Isadora, a vizinha de porta de Juno, bisbilhotou a converÂsa da moça com a Joyce a respeito de sua particiÂpação no conÂcurso Garota Verão 2013. Aquela loira plaÂtinada, 20 anos, olhos verdes, 1,70 m, seios fartos e coÂxas grossas, pegou as foÂtos de corpo inteiro e rosto em traÂjes de banho que tinha no ceÂlular, transferiu para seu computador, entrou no site do conÂcurso e fez sua insÂcrição.
Ela não trabalhava, nem estudava (abandonou a esÂcola após alcançar a proeza de reprovar quatro vezes a 6ª série), queria ser rica e famosa a todo o custo. Desde o tempo de esÂcola, IsaÂdora sentia inveja de Juno, por ela ser popular, tirar as melhores notas e ser benquista pelos proÂfessores.
Era usuária contumaz de cocaÃna. Para sustentar o vÃÂcio, pedia dinheiro à mãe ou à avó, diÂzendo que faria um curso de qualificação. Conversa fiada. Ela ia à boca do LisiÂnho, no Bairro da PeÂnha e comprava vários pinos de pó. Quando suas estóÂrias não colavam, Isadora apeÂlava para o furto. CostumaÂva pegar o cartão da aposenÂtadoria da avó, sacava o que queÂria para comprar sua droga ou pegava a grana da carteiÂra da mãe. Também lançaÂva mão da chantaÂgem emocional. AgreÂdia verÂbal e fisicaÂmente a mãe e avó por causa de diÂnheiro para a cocaÃna. Em casos exÂtremos de abstinência, costumaÂva fazer favores seÂxuais aos trafiÂcantes em troca da droga.
Túlio, namorado de Juno, 25 anos, moreno claro, caÂbelo raspado, olhos castanhos musculoso e cheio de taÂtuagens, traÂbalhava embarÂcado numa plataforma da Petrobras, na baÂcia de Campos, como proÂfessor de inÂglês da Just in Time OffshoÂre, ligou para Juno:
– Oi, Juno. É o Túlio.
– Oi, meu amor. Que bom poder ouvir sua voz.
– Eu também, meu bem. Tô saindo do aeroporto, peganÂdo o táxi pra ir à Cana Caiana. A gente vai se enÂcontrar lá.
– Tá bom, A gente se vê daqui a pouco. Um beijo.
– Outro, gatinha.
Juno e Túlio se conheceram quando ela, aos 15 anos, foi faÂzer inglês na Just in Time de Jucutuquara e ele era seu proÂfessor. Já tinham três anos de namoro.
Juno, arte-finalista e estudante de Design Gráfico, tem o sonho de ser modelo destruÃdo por Túlio, seu ex-namorado, mandante de um atentado com ácido clorÃdrico, por não aceitar o fim do namoro provocado por uma agressão deste contra a moça, uma vez que ela não aceita sair do Garota Verão, concurso considerado trampolim para o mundo da moda e Túlio, mesmo sendo um professor de inglês graduado, tem mentalidade obtusa e machista dos anos 50, não aceitando que sua então namorada desfile de biquÃni para o deleite dos marmanjos nas praias e na televisão.
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