As Lágrimas de Zelão - I Parte.
Florentis, Julho de 2005
Hoje, contarei para vocês uma passagem de minha infância ao lado de meu tio, no Rio de Janeiro.
Eu e meu tio costumávamos passear bastante quando eu era menino. Sempre que tinha uma folga, levava a mim e meu irmão para conhecer algum ponto turístico do Rio de Janeiro. Era muito bom passear com ele porque, além de oferecer doces e sorvetes, meu tio contava histórias... muitas histórias.
Em um de nossos passeios, na Floresta da Tijuca, meu tio me contou a estória "As Lágrimas de Zelão”. Depois de andarmos pela floresta e admirarmos aquele verde, sentamos perto de uma arvore e meu tio começou a contar.
— Peter, você está vendo aquele morro lá na frente?
Respondi que sim e perguntei se o morro fazia parte da floresta também. Meu tio respondeu que não, disse-me que aquele morro era o “Morro de Zelão”.
Eu tinha uns quatro anos nessa época e, muito curioso, perguntei quem era Zelão.
— Zelão era um moço que veio de outra cidade para o Rio de Janeiro. No meio do caminho, aconteceu um acidente com ele e sua família.
Era muito menino e não entendia o que era “um acidente”. Perguntei ao meu tio do que se tratava.
— Peter, a família de Zelão sofreu um acidente de ônibus quando estava a caminho da cidade do Rio de Janeiro. Foi um acidente horrível e pouca gente sobreviveu. Entre os sobreviventes, estava Zelão. Ele perdeu toda sua família e ficou sozinho.
Apesar da história parecer triste, fiquei prestando muita atenção ao que meu tio contava.
E ele continuou...
”Depois de sair do hospital e saber que sua família já havia sido enterrada, Zelão se viu sozinho no mundo, sem dinheiro e sem saber muito o que fazer ou para onde ir. Por uns dias, ficou andando pelas ruas, muito triste, até que chegou àquele morro que te mostrei. Quando ele olhou para o alto do morro e viu toda aquela natureza, resolveu subir.
“Lá em cima, bem no topo, tinha uma clareira parecida com esta onde estamos e Zelão ficou tão encantado com aquela vista que resolveu que ali seria o lugar em que iria morar. Ele construiu uma espécie de casebre próximo a uma nascente, com tudo que encontrava no morro... madeira, galhos de arvores, folhas etc... Depois, começou a vender no asfalto as frutas que pegava no morro, como laranja da terra, manga, amora, jabuticaba e todas que encontrava e desse para vender.
E assim, começou a comprar comida e fez uma pequena horta próxima a seu casebre.
“Zelão fez também uma pequena represa de um riacho que passava perto de sua casa.”
Naquele momento, eu já não achava mais a história triste, já que Zelão havia conseguido uma “casa” para morar. Perguntei se Zelão ainda estava triste e ele respondeu:
— Peter, apesar de Zelão ter encontrado um lugar para morar, ele se sentia triste e muito sozinho. As pessoas que moravam no asfalto diziam que ele era mendigo... maluco... bandido... e o chamavam de outras coisas também.
Clique no link abaixo para ouvir a interpretação do miniconto na voz de Raulison.
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