As sandálias

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Sátiro Rozzado · Fortaleza, CE
19/10/2006 · 15 · 0
 

Ao longe, quase noutro mundo.

Levanta a cabeça, sacudido. Teria ouvido? Bem verdade que estava a metros dali, numa outra ponta. Apura os ouvidos, o vento açoita com a janela aberta. Apenas ouve. Ou pensa ouvir: o que quer dizer com isso? Nada? Ou talvez quase alguma coisa.

A vizinhança cheia de crianças, meninos e meninas encardidos, calções em trapos, olhinhos sujos e bocas arreganhadas. De fome, mas uma fome alegre que corre atrás de bola e bonecas feias e feitas de garrafas plásticas. À tardinha, improvisam jogo de bola em frente à casa, tijolos fazem as vezes de trave. As meninas, naquelas tardes de sol esmaecido, apenas observam. Algumas até arriscam-se a jogar, mas logo desistem – coisa bruta, futebol. De repente, enroscados, dois ou três medem força. Coisa bruta, reiteram.

A leitura já perdida, nunca mais a alcançaria, agora preso, agora enleado ao vento que, através da janela, lamenta. Não enlouquecera – entre os gritos mais vulgares, aquele merecedor de sua atenção. Antes, lamentações. Resmungos, chiados, grunhidos – incomodado em não saber nada do que, entredentes, diz a criança.

Volta-se para as mãos, as suas mãos; estiradas sobre a mesa, seguravam um livro, um lápis com o qual seguia anotando trechos que julgasse importantes da prosa. Os gritos, grunhidos impediam-no.

As crianças têm a graça de serem profundas. E simples. Os grunhidos são, agora todo certeza, de uma criança. A mãe a deixou sozinha em casa. Costume. À feira? Braço dado com o namorado dando voltas e voltas na praça?, indagava-se. Era muito cedo. A criança então geme, estacando um segundo enquanto toma ar para, em seguida, reatar nova série de sons desarticulados. Guturais.

Onde a mãe?, pergunta-se novamente. Com um e outro, corria à meia-luz, sempre à cata de menino bonito, lábios grossos e cabelos negros. Ou loiros, que não tinha tanta diferença, era mulher de grandes apetites e nenhuma exigência. Plural, flertava com o vento.

Tem sido assim nos últimos meses, a mãe sai de casa, sempre nos mesmos horários, e, na modorra da tarde, a menina grunhe, palavras desconexas – distinguira, entre todos os gemidos, algo com que construíra a imagem de uma menina. Tinha pena dela, sozinha, fantasmas em torno, restos de comida na geladeira – haveria uma geladeira?

As mãos só agora tinham largado livro e lápis, e contorciam-se e dançavam e espantavam moscas, sempre presentes em ocasiões solenes – da morte do Cristo crucificado ao pênalti perdido pelo atacante.

Súbito, estagnação. As mãos crispam-se; a mãe retorna, passos pesados, rosto desfeito em careta. Na sala, procura rapidamente o cinzeiro. Depois de aceso, tranca-se no banheiro. Flerta unicamente com azulejos, azuis e brancos. Feito os olhos dele.

Na soleira da porta, a criança dorme. Não grunhe ou geme ou chora – apenas abraça-se às sandálias da mãe.

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Sátiro Rozzado
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