As viúvas

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Flávio Herculano · Palmas, TO
12/1/2012 · 3 · 1
 

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Eram dezenas, talvez uma centena de viúvas de um homem só. Reuniam-se uma vez por mês para lamentar a dor comum, e o faziam publicamente. Saiam pelas ruas do centro, todas de vestido negro, do mesmo pano preto e pobre, de mesmo corte. Os mesmos chinelos de borracha; à cabeça, véus de renda enlutada; à mão, velas que se derretiam em lágrimas. Elas passavam pelas ruas onde se dispunham as melhores casas, vindas dos sítios da região e da periferia da cidade, entoando sempre um cântigo rascante, repetitivo e choroso. Uma puxava, as outras acompanhavam o lamento.

Eram as devotas do padre Cícero, que se reuniam a cada dia 20 para lembrar, em procissão, a data da morte de seu protetor. Sentiam-se, como filhas, orfãs de seu “padim”. Mas eram chamadas, com desdém, de “viúvas do padre” pelas mulheres do centro, que se reuniam à porta de casa depois da janta e que acompanhavam a passagem do cortejo. As fiéis seguiam indiferentes à maledicência, ora cantando, ora rezando, tocando seu lamento pela perda do padre santificado pela gente pobre nordestina.

O pároco da minha cidade, homem bem quisto pela sociedade, não ia à frente daquele grupo, ao contrário de outras procissões – em que ele sempre conduzia mulheres bem penteadas e perfumadas, que não se vestiam daquele pano preto pobre, que não rezavam naquele tom choroso. O padre vivo jamais se juntava à celebração pelo colega morto. Ele parecia preferir cortejos em memória de santos mais consagrados, como a padroeira da cidade e o próprio Jesus Cristo, filho de Deus.

A romaria não contava com o pároco, mas, por isso mesmo, não tinha sermões nem qualquer dos outros ritos rígidos da igreja. Era espontânea, marcada pelos gritos de “viva meu padim padre Ciço”, pelas palmas, pelo som dos pífanos, da zabumba e do triângulo, e pela queima de fogos quando aquela gente chegava ao seu destino: a estátua de Padre Cícero – erguida, naturalmente, não pela igreja, mas por seu João dos Retalhos, comerciante que também organizava a procissão. E a estátua ficava bem na minha rua.

Era essa espontaneidade que me atraia, fazendo com que eu, ainda menino, seguisse os últimos passos da procissão todos os meses. Um tempo bom, de deixar-se levar pela brincadeira, sem valer-se de qualquer conceito ou pré-conceito: sem questionar a fé, o caráter daqueles padres ou a maledicência das mulheres à calçada. Apenas seguia, guiado pelos sons e cores daquela manifestação de fé, como quem ia a um parque de diversões.

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Flávio Herculano
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alcanu
 

E viva a "SANTA IGREJA CATÓLICA" que tanto 'endeusa' a SANTA INQUISIÇÃO ou as CRUZADAS e discrimina as verdadeiras manifestações de fé populares... Talvez seja porisso que ELA esteja perdendo tantos fiéis pra Igreja Evangélica e até pro Vudu !
Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 12/1/2012 15:34
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