Bulevar Quinta-Essência

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Wuldson Marcelo · Cuiabá, MT
6/7/2009 · 5 · 1
 

Para Lili Borges, epicentro de sentimentos que je ne peux pas éviter.

(David Lynch cá surge como caixa de ressonância enquanto Lewis Carroll é o espelho pelo qual uma garota de cabelo chanel desaparece junto com um copo de café pelo vidro inquisidor).

Uma cortina de veludo vermelho se abre. Aplausos. Uma mão masculina escorrega pela seda, tecido suave, do teto até o chão. Mão direita de corpo ausente. O aplauso é simulacro de uma respiração arfante. A cortina se fecha. Num quarto, uma garota de pele alva, estatura mediana e cabelo chanel ajeita um travesseiro de fronha dourada, deita-se na cama, se cobre com seu lençol de veludo azul, observa o dossel que protege o leito contra invasores alados, sejam eles angelicais ou diabólicos. Fecha os olhos. Parece dormir. Passam-se alguns segundos, e ela se levanta. Caminha até o banheiro. Ela está usando um sutiã azul-turquesa e um short branco. Despe-se e entra debaixo do chuveiro. Minutos depois, tira o xampu do seu cabelo chanel à la Brigitte Bardot em “O Desprezo†de Jean-Luc Goddard de 1963. Desliza o sabonete líquido pelo pescoço, desce até os seios, o ventre, as coxas e termina o circuito singelo e erótico nas costas. Veste-se com um mini-vestido vermelho floral, sereno e encantador. De repente, olha minuciosamente para o antebraço direito, há uma tatuagem de um coelho que parte da articulação superior do cotovelo chegando próximo ao pulso, subsequente ao roedor mimoso encontra-se um desenho de uma seta que sempre aponta para frente, como manda a lógica. A seta “sugere†à porta. Entretanto, antes de sair a jovem retira o batom da bolsa e escreve no espelho circular do banheiro o nome Juliette; o seu termo de batismo. Depois, ela segue à indicação do coelho.
Juliette está no Bulevar Quinta-Essência. A avenida bela e arborizada estranhamente está às escuras. Juliette caminha como uma musa francesa, um mix de sensualidade e gélida altivez. Pessoas correm pelo negrume insondável. Para Juliette, em seu vestido meigo que acentua sua figura frágil, tudo transcorre sem pavor. A alvura de sua pele contrasta com a sombria noite que torna o cenário uma filial de algum de Edgar Allan Poe. Alguém se aproxima de Juliette e sussurra, “Minha pequerrucha pulquerrímaâ€. Um ser humano que apenas revela a mão e a manga da camisa com vários desenhos de naipes, e que Juliette sendo capaz de ler a mente da pessoa atrás de si, sabia que não blefava no jogo. A figura some como um fantasma. O bulevar se ilumina e o vazio da alma de Juliette vai embora. Um sujeito, desta vez de rosto cinza, corpo musculoso e trajando fraque (e com a cartola a brincar em sua cabeça, pulando e se ajeitando constantemente), toca o ombro da garota que sobressaltada dá um grito, na verdade, quase um gemido. O estranho lhe diz, “Belo corte de cabelo. Chanel como o de Louise Brooks, em 1928, no filme ‘A Caixa de Pandora’ de Pabst. Qual o seu nome?â€. Juliette raciocina se deveria temer o espetáculo de excentricidade, porém concluiu que uma resposta simples a uma pergunta trivial não feriria ninguém. “Meu nome é Julietteâ€. O homem sorri e revela, “Num filme de 1986 ‘Sangue Ruim’, a sua xará, a francesa Juliette Binoche usa um corte chanel. Coincidênciaâ€. Juliette assentiu com a cabeça. O sujeito enigmático a olha fixamente e diz, “Tome esta caixa. Eu estou com ela há séculos, é a própria caixa de Pandora, ou melhor, o jarro de Pandora. Fiqueâ€. E o homem empurra para Juliette o jarro. A garota sente-se inicialmente melindrada, mas com o passar do tempo, o embaraço e a suspeita transformam-se em curiosidade e ambição. Sem fazer mais perguntas, Juliette aceita o jarro e vai para casa. Ela sonha com pequenas portas e pílulas que fazem com que as pessoas diminuam de tamanho ou cresçam novamente. A jovem acorda com uma pequena cisma adulta e um mínimo de fascínio infantil. No trabalho, em uma revista como crítica literária, passou o dia com o jarro na sua charmosa e volumosa bolsa. Vários closes frenéticos são focalizados do seu rosto. De repente, tudo cessa e um breu prorrompe tomando conta de tudo.
Numa boate, o ente, da mão com a manga da camisa com ilustrações de naipes, explica à Juliette que pequerrucha significa pequena, estatura mediana, criança e que pulquérrima é o superlativo de pulcro, que é sinônimo de doce. E revela feliz que leu a palavra pulquérrima na “Eneida†de Vergílio, referência à beleza etérea da rainha Dido, de Tiro, que após o assassinato do marido foge para Cartago e funda a cidade de Birsa. Juliette o lembra que Enéias recusou o amor de Dido, e a infeliz desprezada apunhalou-se e depois deitou na pira funerária sendo consumida pelo fogo. A incógnita pessoa sorri confrontada com o enredo da mitologia. No entanto, implora que Juliette, que está de vestido azul, dance com ele. Quando estão no meio da pista começa a tocar “I Feel It Allâ€, da canadense Feist. A garota remexe alucinadamente. As mãos misteriosas, mãos ainda sem rosto, aplaudem com ás de espadas, rainhas de copas, números todos gravados em suas mangas onde duelam o vermelho e o negro. Novos closes no rosto de Juliette como se um fotógrafo oculto a colocasse em sua lente objetiva, tornando tudo subjetivo. Há uma explosão de raios luminosos, em seguida, a boate volta ao normal, mas o jarro de Pandora é descoberto e muitos frequentadores olham Juliette com um misto de medo e raiva. Ela guarda o jarro e corre para casa sem o suposto amado-amante. Juliette, já relaxada em seu lar, dorme em um lençol de veludo azul.
No dia seguinte, ao terminar de digitar suas análises dos livros “Um Beijo de Columbina†de Adriana Lisboa e “Sarah†de J.T. Leroy para a seção (que Juliette considera ter um nome abominável e bestial sugerido pela editora e diretora responsável e corroborado pela editora cultural) “Releia com Urgência e Sem Arrependimentosâ€, Juliette vai à revista e percebe o olhar de sua editora, um mistura clássica de temor e inveja. Juliette segue para o Bulevar Quinta-Essência. Ela se dirige a um parque contíguo à avenida arborizada. Senta-se em um banco, passado alguns segundos um senhor de idoso diz, “O seu corte de cabelo, assim chanel, lembra o da Lara Flynn Boyle, naquele filme ‘Equinox’ do Alan Rudolph. Se não me engano de 1992â€. Juliette o encara, ela está confusa e pouco disposta a conversar. O ancião penetra bem fundo nos olhos castanhos da jovem e pergunta, “O que te atormenta?†Juliette retira o jarro da sua bolsa e mostra ao antigo homem que interroga meio-receoso, com uma voz abafada, “O que é isto?â€. A garota responde, “é o jarro de Pandoraâ€. O idoso se levanta apressado e corre. Juliette surpreende-se com o gesto do vestuto homem. A mão direita, com a manga dos sinais distintivos das cartas de pôquer, segura-lhe pela cintura quando Juliette se ergue. A pessoa lhe diz de modo afetado, mas compassivo, “Para Nietsche, o mal do homem foi ter conservado a esperança no fundo do jarroâ€. Várias borboletas azuis com manchinhas pretas passam atrás do casal. Alguns corvos aparecem e devoram as borboletas em pleno voo. Juliette olha o vazio e segura a mão da imagem não-revelada, “Eu não amo a esperança, somente o mistério do jarroâ€. A presença amorfa e, ainda, inominável, com as mangas da camisa ilustradas de naipes comenta, “Com este seu corte chanel, tu lembras a Natalie Portman, naquele filme do Luc Besson de 1994, ‘O Profissional’, quando ela era somente uma adolescente, uma estreanteâ€.
Na noite seguinte, uma figura possuidora apenas de mãos e naipes adornando os pulsos de sua camisa chora e grita sem se incomodar com a chuva torrencial, “Minha pequerrucha pulquérrimaâ€. Num quarto, cuja cor lembra o crepúsculo, Juliette está deitada em uma cama vestida apenas com uma lingerie vermelha com naipes de um jogo de cartas. Um magnata sem rosto observa à jovem deitada. O homem conspícuo usa um sobretudo. Ele o retira, atira-o ao chão. Juliette lê a mente do ricaço, e sabe que ele a confunde com algo inusitado; uma ninfa, uma gueixa, uma vampira, uma sereia, uma prostituta. Juliette diz, exibindo cores amarelas nos globos oculares, “Se me quer realmente, abra o jarroâ€. O milionário mira os olhos da garota, pensa ser lentes de contato. Ele comenta, “Este seu cabelo me faz recordar a Melanie Griffith, naquele filme de 1986 do Jonathan Demme... Não me lembro o nome... Ah, sim é ‘Totalmente Selvagem’. Você é selvagem?â€. Juliette o fixa, “Abra o recipiente e terá sua respostaâ€. Ela empurra o jarro para o sujeito que o pega e abre instantaneamente, devido à pressa em possuir Juliette. Ao abri-la é tragado pelo receptáculo. Os olhos de Juliette perdem a cor amarelada e voltam a ser castanho. A garota pensa que deve ser mais vígil em relação ao jarro de Pandora, velar por ele com mais audácia.
Juliette está novamente na boate, usa vestido azul. Muito luxo e lábios que queimam, vociferam os homens. As pessoas as observam com medo. A mão direita de naipes vermelhos e pretos aparece no local. Os seus gritos inaudíveis na chuva se tornam carinho na pista de dança. As mulheres ostentam por Juliette sentimentos dúbios: raiva, inveja, desejo, querem roubar-lhe o poder. Mas a garota só quer dançar. Ela beija o vazio, ou melhor, aquilo que provavelmente é o rosto do dono da mão que possui dedos e uma manga de camisa de naipes de cartas. Juliette dança eufórica, sedutora como proprietária de um segredo que é apenas seu. Ela pula e canta em meio à multidão que a observa receosa. “Love Triangle Bizarreâ€, do New Order, acaba de ser tocada pelo DJ. Juliette se aquieta, e lá fora uma mulher bastante opulenta grita para os seguranças ao se referir a um sujeito ébrio, “Cortem a cabeça deleâ€. O homem é levado para fora, Juliette aproveita a oportunidade para escapulir. Na rua, o jarro bendito-maldito domina a mente da moça. As ruelas tornam-se um imenso jarro. Juliette consulta o coelho tatuado no seu braço, a seta aponta a direção da casa dela. Ela fecha os olhos e tudo é tomado pela escuridão.
De manhã, Juliette faz todo procedimento higiênico habitual. Em seguida, veste-se com uma blusa azul e uma saia vermelha. Consulta novamente o coelho e a seta “aconselha†a porta. Mais tarde, no Bulevar Quinta-Essência, o coelho, agora sorridente e balançando as orelhas para uma Juliette incrédula, porém sem temor, faz o desenho da seta girar pelo braço direito da jovem. A seta indica o mesmo parque de outrora. Juliette se senta em um dos bancos livres (na verdade, todos os bancos estavam vazios num sábado de calor. Nenhuma alma viva à vista). A jovem começa a recitar um poema de Emily Dickinson:
Algo existe num dia de verão,
No lento apagar de suas chamas
Que me impele a ser solene.
Algo, num meio-dia de verão,
Uma fundura – um azul – uma fragrância,
Que o êxtase transcende.
Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante
Que só para ver aplaudo –
E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil, de mim se escape.
Juliette assobia, olha para um lado observa a direção oposta e nada. Vira o rosto novamente para a direita e vê sentado no mesmo banco que ela o homem do rosto cinza com sua inquieta cartola famigerada, ilustre aberração. O homem diz para a jovem, “Este seu jarro de Pandora guarda a maldição da manutenção da fé, a esperança que não se realiza jamaisâ€. Juliette mira os olhos do homem que verde se tornam amarelos. Ela fica estarrecida, recua um pouco no banco, mas para e pergunta, “Quem é você?â€. O homem responde, “Não sou Deus nem o Demônio. Sou a ausência do Absoluto, do bem e do mal, que comanda este mundo de desvairados, cretinos e ingênuosâ€. Toca “O Que Será†de Chico Buarque no celular de um dos jovens transeuntes que formavam um casal, uma menina loira e um rapaz negro. Eles param e esquadrinham Juliette dos sapatos vermelhos até o cabelo chanel. Depois mostram a tatuagem do coelho e da seta nos braços de cada um e o rapaz sentencia, “Seu chanel é tão bonito quanto o de Uma Thurman em ‘Pulp Fiction’. Tarantino, diretor, ano 1994. Eu tinha só oito anos na época do filmeâ€. A menina de expressão angelical exibe um vidro de onde traga ópio, e diz a Juliette, “Olá. Quem é você?†O casal prossegue seu caminho sem esperar uma resposta. O suspeito preceptor de Juliette lhe revela, “O seu namorado sem face ou mesmo corpo, é a esperança que o jarro guarda, andando atrás de um sentido e uma explicação para a vida, o sentido e o homem é vocêâ€. O ancião reaparece e olha o jarro, corre e percebe um leve tremor sísmico. Dois homens e uma mulher acompanhada de uma criança de seis anos também correm diante de Juliette. O menininho deixa o copo de leite que segurava se espatifar no chão. Um alto zumbido toma conta do parque. Os três adultos se movimentam com rapidez e se protegem com as mãos próxima a face como se bombas fossem cair do cair desabando o céu com elas. Juliette se senta em outro banco e começa a tremer freneticamente. A figura de rosto cinza e olhos, ainda amarelos, toca as pálpebras de Juliette, e os seus globos oculares dela assumem uma coloração vermelha. O homem sinistro se regozija, “Você viu o velho sábio praticamente fechando os olhos para não te enxergar ou ao jarro. É a crença de outrora, medrosa e fazendo questão de ser cega. Ela deseja dominar, mas se enfraquece a cada diaâ€. Juliette o olha como se uma novidade surgisse no ar. Ela soube de tudo, a verdade se clarificou, altiva, tripudiando do escárnio do homem cinza.
Juliette se levanta e percebe que está sonhando e que o apelido de “pequerrucha pulquérrima†havia dado para si mesma. Ela olha para o jarro e abre a tampa. Um grito de desespero se desprende do fundo do recipiente e ganha o mundo com velocidade devorando almas com voracidade, roubando sonhos. Depois, Juliette se vê no fundo do jarro de Pandora, ela levanta as mãos, segura algo parecido com uma borda, se esforça, ergue-se e sai do jarro. Ao se livrar do jarro encontra a Juliette, seu subconsciente, trajando um smoking com desenhos de naipes nas mangas da camisa. Juliette recepciona Juliette. Ambas trocam sorrisos e as imagens delas se fundem. Após o encontro, Juliette dorme sobre um lençol de veludo azul.
O homem de rosto cinza e de olhos amarelos está frente a frente com o ancião, eles se encaram prontos para um embate pelo extrato apurado ao último grau da alma de Juliette. Preparados para discutir a sutileza do conceito de liberdade. Juliette tendo espasmos na cama sussurra, “Silêncioâ€. E a noite abraçou a quietude por um momento.


Sobre a obra

Jovem, logo após deitar para dormir, decide caminhar e dá início a estranhos acontecimentos. Ela encontra um misterioso homem que lhe entrega o jarro de Pandora e o maior segredo da humanidade. A jovem de belo cabelo chanel (homenagem ao cinema e suas atrizes) deixa-se seduzir pelo contéudo do jarro e penetra num mundo surreal e de debates metafísicos.
David Lynch e Lewis Carroll são referências evidentes.

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informações

Autoria
Wuldson Marcelo, cuiabano nascido em 1979. Graduado em Filosofia pela UFMT, onde foi editor do "Caos Sophia", jornal dos alunos do curso de 2003 a 2005. Publicou artigos e contos em jornais e sites de Cuiabá, assim como em jornais e sites deste imenso Brasil.
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Lili Borges
 

Wuldson, não tive tempo de apreciar, vou fazer isso em breve. estou sem net até esta semana de 20 /11.
em breve escrevo sim. Obrigada. Me sinto lisongeada.
beijos

Lili Borges · Cuiabá, MT 16/11/2010 16:34
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